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São Sebastião, em Vila Grande

500 quilos de carne e 1.000 broas dão corpo à tradição

Potes de ferro, que cozinham carne de porco, são colocados à volta de uma fogueira. Foto © Filipe Ribeiro

Ninguém na aldeia de Vila Grande, em Dornelas, concelho de Boticas, sabe precisar quando teve origem a tradição de, no dia 20 de janeiro, a população agradece a proteção de São Sebastião, oferecendo pão, carne e arroz a todos os habitantes. Mas neste 20 de janeiro de 2024 a tradição voltou a cumprir-se com a ajuda de 1.000 broas de centeio acompanhadas de 500 quilos de carne e 100 de arroz.

Sabe-se, no entanto, que há muitos séculos, num ano de peste, em que os animais morreram e a produção agrícola foi escassa, a comunidade prometeu ao orago que faria uma festa em sua honra, distribuindo alimentos a todas as pessoas. A tradição foi renovada por ocasião das invasões francesas, há mais de 200 anos, em que, de novo, se pediu proteção divina a São Sebastião, a troco de uma oferenda.

Certo é que o padroeiro fez a sua parte contra a peste, a fome e a guerra e a aldeia retribuiu. Neste dia, a comissão de festas improvisa, na rua principal da aldeia, uma mesa em madeira, com 850 metros de extensão, que começa na casa do santo e corre rua abaixo a perder de vista. Nela vai ser posta a comida que dará sustento a mais de “duas ou três mil pessoas”, todos os anos.

Bancada de madeira estende-se ao longo de 850 metros na rua principal.
Bancada de madeira estende-se ao longo de 850 metros na rua principal. Foto © Filipe Ribeiro

“A tradição já vem dos meus bisavós”, conta Alda Barroso, cozinheira que este ano esteve à frente da organização, enquanto em 30 potes de ferro, colocados em círculo à volta de uma fogueira que, pouco a pouco, ia sendo alimentada, coziam as carnes. “Antigamente a festa era só para as pessoas da aldeia. Era raro vir gente de fora. Havia nove lavradores em Vila Grande e, em cada ano, a festa fazia-se em casa de cada um”, acrescenta.

Além da sopa, que começou a ser servida bem cedo, foram cozidas de véspera mais de mil broas de centeio, para acompanhar 500 quilos de carne e 100 de arroz – preparado com água da carne, “para dar mais gosto” – distribuídos pela hora do almoço, após a missa em honra de São Sebastião e da bênção do pároco. Seguiu-se a romagem caminho fora, ao longo da rua principal, com o santo à frente, dando o mote aos comensais.

Evento atrai visitantes de todos os pontos do país.
Evento atrai visitantes de todos os pontos do país. Foto © Filipe Ribeiro

Miguel Santos é um jovem natural de Vila Grande, mas está emigrado na Suíça. Tira férias por altura do São Sebastião e nunca falhou um ano. “Gosto muito de vir cá para participar na festa. Sempre que posso ajudo a comissão de festas, até porque vem muita gente de fora e há muito trabalho a fazer”, refere, lembrando que há muita gente, da França e da Suíça, que regressa à terra no dia do santo.

Há, também, quem se desloque de outros pontos do país em excursões que começam em Dornelas e terminam em Salto, onde o São Sebastião se comemora, no mesmo dia, com música e uma pequena feira. Francisco Assis veio de Lordelo, Guimarães, e integra uma comitiva de cerca de 50 pessoas. “Eu venho, pelo menos, há 15 anos. Gostamos muito destas tradições. Come-se, bebe-se e convive-se bastante”, atira. Assim foi este ano em Vila Grande, onde a “Mesinha de S. Sebastião” ou “Festa das Papas”, como também é conhecida a tradição, voltou a cumprir-se.

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DORNELAS, BOTICAS

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