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Programa do Grupo Lobo

600 cães de gado permitem “conhecer o verdadeiro lobo”

Cão de Gado Transmontano. Foto: DR

O programa Cão de Gado já entregou mais de 600 cães de raças nacionais vocacionados para a proteção dos rebanhos, facilitando uma convivência mais pacífica entre as comunidades rurais do norte do país e o lobo-ibérico que, em certas zonas, foi perseguido até quase à extinção.

Ao conseguir, através da presença dos cães que o lobo deixe de atacar os animais domésticos, torna-se possível, segundo Francisco Petrucci-Fonseca, presidente da Grupo Lobo, mostrar que a associação se “preocupa com os problemas que o predador causa aos produtores de gado e às explorações pecuárias” e assim “dar a conhecer o verdadeiro lobo”.

Avelino Rego é criador de gado maronês em Alvadia, na serra do Alvão, uma espécie de bovino autóctone que, desde sempre, partilha com o lobo o mesmo território. Vê com bons olhos a introdução do cão de gado em algumas explorações de gado, por que essa presença “facilita a coexistência entre as comunidades rurais, os produtores pecuários e a presença do lobo”.

Também o LIFE Maronesa, projeto que apoia o desenvolvimento de um modelo de produção pecuária em modo extensivo, para assim mitigar os efeitos das alterações climáticas, defende a colaboração com o Grupo Lobo na “implementação de boas práticas de conservação e valorização do lobo e seu habitat”. “O Alvão é um território de lobos, vacas, pastagens e homens, pelo que o estabelecimento de sinergias entre diversas entidades e atores é fundamental para desenvolver melhores mecanismos de coabitação entre eles”, refere o coordenador do projeto, Duarte Marques.

À frente da Grupo Lobo que se dedica desde 1985 à conservação do animal e do seu ecossistema em Portugal, Petrucci-Fonseca, lembra que “o conhecimento que temos do lobo, nem sempre positivo, vem dos nossos antepassados, através da relação com o pastor”. “O homem tem uma relação com o lobo diferente das que tem com outras espécies animais”, contudo, “não podemos olhar para o lobo de uma forma isolada. A sua existência depende de outras entidades”.

250 lobos-ibéricos a norte do Douro

Lobo-ibérico no habitat natural. Foto: DR

A perseguição ao lobo, uma constante ao longo de séculos, ficou, sobretudo, a dever-se “ao crescimento da atividade pecuária”, que progressivamente foi ocupando o habitat do lobo-ibérico. “O lobo é um carnívoro generalista, quer em termos de habitat, quer em termos de alimentação. Quando, antigamente, havia presas como o corço, o javali ou o veado, também se alimentava deles. Mas quando estes começaram a faltar-lhe e o homem começou a colocar, nos territórios rurais, os animais domésticos, os lobos começaram a tirar partido dos animais que estavam à sua disposição”, explica Francisco Petrucci-Fonseca.

Para mitigar os prejuízos junto de criadores de gado, o programa Cão de Gado promove desde 1996 a utilização de cães de raças nacionais, faz o acompanhamento dos cães nos sistemas de pastoreio e presta apoio técnico e veterinário para assegurar o seu bem-estar. O uso destes animais faz parte do sistema tradicional de proteção do gado usado em toda a região mediterrânica, e também em Portugal, onde existem quatro raças reconhecidas: cão de Castro Laboreiro, cão da Serra da Estrela, Rafeiro do Alentejo e Cão de Gado Transmontano. São cães de grande porte que foram selecionados durante milhares de anos para essa função, pelo que são uma parte importante do património natural e cultural.

Em 2020, a Federação Cinológica Internacional (FCI) reconheceu o Cão de Gado Transmontano como raça internacional. De acordo com um estudo de 2016 da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a raça autóctone é componente integrante da história de Trás-os-Montes e acompanha os pastores locais há mais de 10.000 anos, existindo hoje entre 2.000 a 3.000 exemplares desta raça. Segundo o Grupo Lobo, estes cães têm uma função muito importante, pois facilitam a coexistência da pastorícia extensiva e a presença do lobo, permitindo diminuir a perseguição a este predador ameaçado, bem como a caça ilegal e o uso de venenos que ameaçam não só o lobo, como também muitas outras espécies.

A proteção do lobo-ibérico, uma subespécie que apenas pode ser encontrada em Portugal e em Espanha, e a vontade de divulgar o conhecimento sobre este predador levou à abertura recente do Centro Interpretativo do Lobo Ibérico em Pitões das Júnias, na raia do concelho de Montalegre, que já tinha um antecessor em Vinhais, no Parque Natural do Montesinho. De acordo com o Censo Nacional de 2019/2021 do ICNF, a norte do rio Douro, não sobreviriam mais de 250 lobos-ibéricos.

De referir que a associação Grupo Lobo foi a primeira entidade que se dedicou à conservação do lobo, mesmo antes de outras entidades já estabelecidas.

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