Assine

Vila Flor

A amêndoa recheada de história e de chocolate

A amêndoa, quando vai para o processo de britagem. Foto @Rúben Castanheiro
A amêndoa, quando vai para o processo de britagem. Foto @Rúben Castanheiro

A amêndoa pode ser apresentada envolta em “chocolate preto, chocolate branco e coco, caramelizada, torrada com sal e pimenta ou torrada simples”, diz Alexandra Araújo exibindo os pequenos sacos em que é comercializada pela Quinta do Pombal. Quinta que ela e o marido, Christophe Monteiro, começaram a construir há 10 anos e que agora conta com 13 hectares de amendoal, além dos iniciais terrenos de mirtilos e das colmeias que de poucas no princípio chegam agora à centena.

Os mirtilos e o mel foram as produções iniciais, quando em 2013 compraram alguns terrenos numa colina perto da aldeia de Valtorno, concelho de Vila Flor. Mais tarde alargaram a produção e adquiriram novos terrenos e, ano após ano, têm vindo a inovar a produção, através da criação de novos toppings para rechear os frutos que se produzem, como as amêndoas e os figos. A participação em feiras e o escoamento de produtos quer para algumas grandes superfícies quer para o estrangeiro, permitiu ganhar visibilidade e fazer crescer o negócio.

As amêndoas recheadas, no seu estado final. Foto @Rúben Castanheiro
As amêndoas recheadas, no seu estado final. Foto @Rúben Castanheiro

Alexandra, 36 anos, é enfermeira de profissão, mãe de dois filhos e procura conciliar as suas “duas paixões”: trabalhar em prol da saúde e “adoçar os lábios da população com as suas amêndoas recheadas”. Já Christophe, 39 anos, é agricultor a tempo inteiro. Ambos, decidiram permanecer em Valtorno quando ele ficou desempregado e, por “amarem a terra”, procuraram, através da apresentação de um projeto de jovens agricultores, criar um negócio na aldeia onde cresceram. 

Passado cinco anos, em 2018, já estavam a comprar mais terra e a alargar e diversificar a produção, dedicando-se à transformação da amêndoa. Começaram pela britagem e depois avançaram para as “famosas” amêndoas recheadas, sobretudo as cobertas de chocolate que precisa de ser temperado e, depois de bem consolidado, vai para uma tômbola onde se envolve com as amêndoas. Já para fazer os outros derivados de amêndoa, o trabalho é um pouco mais longo, porque é necessário pelar a amêndoa, ou seja, retirar-lhe a pele envolvente.

Alguns dos derivados de amêndoa que a Quinta do Pombal tem transformado. Foto @Rúben Castanheiro
Alguns dos derivados de amêndoa que a Quinta do Pombal tem transformado. Foto @Rúben Castanheiro

O processo de transformação da amêndoa já não é tradicional. Já não se usa martelo ou quebra-nozes. A quinta possui métodos mecanizados. O primeiro passo é descascar a amêndoa e colocá-la dentro de sacos próprios. Posteriormente, é despejada num recipiente para que possa ser britada. Depois, cai para dentro de tambores que são transportados para maquinaria instalada noutra divisão da quinta. Aqui, a amêndoa é posta num tapete e separada da casca e mais à frente o miolo inteiro tem destino diferente do miolo partido. O miolo de amêndoa inteiro, segue para embalamento, pronto para ser colocado em caixas e distribuído pelos fornecedores. Já o miolo de amêndoa partido serve para fazer outros subprodutos da amêndoa como a farinha e a manteiga.  Como explica Alexandra, a manteiga, antes de ser triturada, é farinha, e só com a intensificação do método de triturar é que se transforma em manteiga. 

No que diz respeito à apanha, já não se usam toldos ou varas, é apanhada através do “trator-frontal com apara-frutos”, que incorpora uma máquina varejadora que “tomba a amêndoa ao chão”. 

A amêndoa, quando chega ao processo de seleção manual. Foto @Rúben Castanheiro
A amêndoa, quando chega ao processo de seleção manual. Foto @Rúben Castanheiro

Quem visita a Quinta do Pombal movido pelo interesse em comprar os produtos em venda pode ser desafiado a ficar a conhecer os métodos de transformação. Alexandra, que convive com a amêndoa desde a infância – a mãe e a avó tinham amendoais – considera muito importante “manter as tradições”. Assim, quando recebem visitas, mesmo as de passagem com pouco tempo disponível, Christophe e Alexandra param os processos mecanizados e desafiam-nas a participar nos antigos métodos de trabalhar a amêndoa, a experimentar as tarefas duras, como britar a amêndoa à mão ou apanhá-la com as varas de varejar, que provocam “dores nas costas e arranhões”. 

“Manter o registo” de como era e mostrar como passou a fazer-se é umas das formas de preservar a memória de costumes relacionados com o que de melhor se faz no distrito de Bragança. 

Escreva à redação

Subscribe To Our Newsletter

Subscribe to our email newsletter today to receive updates on the latest news, tutorials and special offers!