Assine

Após apresentação em Miranda

A lã move-se em Trás-os-Montes

A lã é uma das principais preocupações de Isabel Sá. Foto © Rúben Castanheiro
A lã é uma das principais preocupações de Isabel Sá. Foto © Rúben Castanheiro

Depois de terem sido apresentados, em Miranda do Douro, no mês de março, a exposição e o livro sobre a lã de Isabel Sá, 44 anos, gestora de projetos no Centro Ciência Viva de Bragança, engenheira do ambiente e natural de Bragança, a exposição irá estender-se a Sambade, no concelho de Alfândega da Fé, onde estará patente de 9 de maio a 11 de agosto.

Esta exposição pretende representar todas as etapas de processamento da lã, desde o pastoreio até ao tear, bem como os utensílios associados às diferentes fases do seu tratamento e mostrar também alguns exemplares dos produtos de todo este ciclo de trabalho”, explicou Isabel Sá ao 7MONTES.

A perceção de que estava perante uma fibra com grandes potencialidades de utilização e transformação, mas que, ao invés de ser aproveitada, tornou-se num problema para os criadores, foi o que a levou a avançar para esta ideia. “A raça churra mirandesa é autóctone e conta com um número de efetivos muito reduzido entregues a uma população muito envelhecida, mas que, apesar disso tem uma grande importância económica e ambiental na região” – refere Isabel que foi tocada pela importância que o “património material e imaterial ligado à atividade laneira tem na região”. Reconhecimento que originou nela “um crescendo de interesse pela lã e pelas atividades associadas ao seu trabalho”. 

A exposição destaca também várias pessoas que deram o seu contributo na preservação dos trabalhos com a lã ou no tratamento da raça churra mirandesa. 

Andrea Cortinhas, 44 anos, engenheira zootécnica, é secretária técnica da raça na Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Mirandesa (ACOM) fundada em 1998. Como um acaso da vida, Isabel e Andrea já se conheciam porque foram colegas dos tempos de escola. Agora, ambas tentam, à sua maneira, impulsionar a raça mirandesa. O seu primeiro trabalho conjunto teve como mote a tosquia, workshops e a tinturaria. “O principal objetivo da associação é preservar a raça, uma vez que está em vias de extinção. Só temos 6 000 animais inscritos. Todos os anos, a associação organiza um concurso para eleger as ovelhas objeto dos melhores tratamentos, tendo em vista a sua promoção e a sua preservação”, diz Andrea que sublinha o “escoamento da lã” que, por vezes, é um entrave para os pastores como outra das preocupações da associação.

Nuno Rodrigues, ao centro, Isabel Sá. ao seu lado e Andrea Cortinhas, mais à direita, durante a apresentação do livro, em março. Foto © Rúben Castanheiro
Nuno Rodrigues, ao centro, Isabel Sá, ao seu lado e Andrea Cortinhas, mais à direita, durante a apresentação do livro, em março. Foto © Rúben Castanheiro

Por outro lado, apesar de ainda existirem alguns pastores, a verdade é que são cada vez menos: “infelizmente, não há tantos como gostávamos. Os que existem têm já uma idade bastante avançada. É preciso rejuvenescer o setor, porque esta é uma atividade bastante dura, mas que ainda é muito útil e boa para a sociedade”, diz Andrea. 

Nuno Rodrigues, vice-presidente da câmara de Miranda do Douro, conta que já há uma possível solução para a lã em excesso através do projeto de criação de “um centro de compostagem para recolher a lã que já não terá uso”.

Junto com a exposição viaja também o livro lançado por Isabel Sá, sobre todos os temas relacionados com a lã, a raça churra mirandesa e a região, intitulado Frol de la Lhana, escrito em português e traduzido para mirandês. 

“O livro aborda com mais profundidade os processos representados na exposição, que os corporiza. Aborda de forma contextualizada o carácter utilitário dos trabalhos produzidos e as dimensões ambientais, económicas e sociais que a cultura laneira e agro-pastoril têm na região. Este livro pretende ser um contributo para o conhecimento e divulgação do saber-fazer tradicional em torno da cultura pastoril e do processamento da lã no planalto mirandês, mas também da língua Mirandesa, pelo que entendo que tem relevância na preservação e promoção deste património para a região, para as suas gentes e para a sociedade em geral”, conclui Isabel.

Isabel vê no "horizonte" como pode dinamizar a raça churra e lã por Trás-os-Montes. Foto  © Rúben Castanheiro
Isabel vê, no “horizonte”, como pode dinamizar a raça churra e lã por Trás-os-Montes. Foto © Rúben Castanheiro

Escreva à redação

Subscribe To Our Newsletter

Subscribe to our email newsletter today to receive updates on the latest news, tutorials and special offers!