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Oleirinhos, Bragança

A madeira cortada a computador

A máquina de cortar, que se alimenta a si própria. Foto © Rúben Castanheiro
A máquina de cortar, que se alimenta a si própria. Foto © Rúben Castanheiro

Em Oleirinhos, no distrito de Bragança, aldeia com pouca população, mas em que há algumas empresas de restauração e construção civil, existe um negócio de carpintaria familiar que produz móveis, tetos, chãos, portas, roupeiros e o que mais houver. Tudo em madeira e seus derivados. Mas na oficina ninguém serra. Quem o faz são máquinas computadorizadas, controladas digitalmente. 

Vítor Moreira, de 54 anos, há três décadas tirou um curso de formação profissional na área da carpintaria. Foi em Bragança e durou três anos. Depois de tirar o curso, começou a trabalhar e gostou tanto da área que decidiu montar uma empresa por conta própria. Por ser de Oleirinhos, foi construindo e comprando, passo a passo, até passar de uma garagem para o armazém onde hoje se situa a carpintaria. 

Com a ajuda da esposa, o negócio foi evoluindo e foi ganhando dimensão, contando também com a ajuda dos funcionários, porque a empresa não é só “crescimento à conta do patrão, os funcionários também têm o seu papel”, diz Isabel Moreira, de 26 anos, uma das duas filhas de Vitor que trabalha na firma. 

Desde que ela integrou, em 2020, o negócio familiar, depois de concluir o curso em engenharia Industrial, a evolução foi mais notória. Foi nesse momento que adquiriram uma das máquinas mais sofisticadas, consolidando em definitivo a sua vocação para o uso de maquinaria digital. Desde esse momento, a procura não tem parado de crescer, fazendo crescer também o número de pessoas que trabalham na empresa. Além de Isabel, que se ocupa do desenho, do atendimento ao cliente e da escolha dos materiais, desde o ano passado, também Regina Moreira, a filha mais velha de Vítor, de 28 anos, se juntou à empresa. 

Curiosamente, conta Isabel, toda esta aventura tem origem no facto do seu pai querer fugir aos trabalhos agrícolas, o que o levou para os estudos. Não que ele de início sentisse grande aptidão ou gosto pela carpintaria, ofício que desconhecia por completo. Mas queria fugir ao destino de se ficar pela agricultura. À medida que progrediu nos estudos e no ofício ia gostando cada vez mais e acabou por se dar de “corpo e alma”, de tal modo que é hoje o “corpo” e a “alma” da empresa.

Na carpintaria produzem-se todos os tipos de obras de madeiras para casa, desde telhados, tetos, chão, revestimentos, parede, portas, roupeiros, móveis, cozinhas e até gradeamentos para o exterior das casas. Tudo sem máquinas de corte “perigoso”, substituídas progressivamente por máquinas de tecnologia digital cada vez mais avançadas. Equipamentos que permitem atrair jovens com graus mais elevados de formação. Pois, como diz Isabel: “quem trabalha no telemóvel, trabalha no computador”. Sem perigo de cortes e recorrendo a “programas simples” acaba por ser um trabalho que não requer muito esforço físico num ambiente de “segurança total e trabalho perfeito”. Por outro lado, é trabalho que pode ser feito tanto por homens como por mulheres. Quem houve falar de carpintaria, pensa que é um trabalho só para homens, mas com este tipo de máquinas e por serem, por vezes, trabalhos minuciosos e perfecionistas, “as mulheres também dão conta do recado”, sublinha Isabel. 

Outra das máquinas utilizadas durante o tratamento dos componentes da madeira. Foto © Rúben Castanheiro
Outra das máquinas utilizadas durante o tratamento dos componentes da madeira. Foto © Rúben Castanheiro

Madeira maciça, só para gente rica

A carpintaria está dividida em dois setores: num trabalha-se só a madeira maciça; noutro os seus componentes, as chamadas placas – aglomerado, contraplacado e osb (placas pré-fabricadas, para cortar e montar em roupeiros e cozinhas). 

A madeira maciça não tem muita procura, por se tratar de um “material nobre” de “preço bastante elevado” e só clientes específicos, “verdadeiros amantes da madeira” a solicitam, sobretudo pessoas que têm grandes casas rústicas, ou estão a desenvolver projetos de recuperação para habitações de turismo rural. Escadas, tetos, guarnições de portas e gradeamentos são exemplos onde a madeira maciça é requerida 

O setor dos aglomerados está todo equipado com máquinas que simplificam o trabalho, aprimorando a “perfeição” e poupando o “tempo” de fabrico. Não são necessárias muitas máquinas para este tipo de trabalho, assim como não se requerem habilitações e qualificações muito específicas para o desenvolver.

O stock de madeira da empresa. Foto © Rúben Castanheiro
O stock de madeira da empresa. Foto © Rúben Castanheiro

No conjunto da empresa há uma “mistura” de trabalhadores. Já por ali passaram brasileiros e venezuelanos e agora trabalha ali um alentejano, antigo cliente, expressamente convidado para integrar os quadros da empresa. Outro vem todos os dias de Macedo de Cavaleiros, enquanto há vários de aldeias próximas. Antes do verão chegará um angolano.

Chegam, uns e outros, por terem conhecimentos no setor ou por a empresa ser cada vez mais conhecida e reconhecida. Mas, ao contrário do que se passava nos primeiros anos, em que eram as pessoas que procuravam emprego na carpintaria, agora é a empresa que pesquisa os perfis de funcionários que mais lhe convém. Junto com os que chegaram há menos tempo, a empresa conserva trabalhadores que a acompanham há mais de 20 anos. 

Com clientes radicados sobretudo em Bragança e Miranda do Douro, recebem, por vezes, encomendas vindas da periferia espanhola, do Porto e de Lisboa e até de França. “Vamos onde nos pedirem”, afirma Isabel.  

O ultimar de um artigo para exportação. Foto © Rúben Castanheiro
O ultimar de um artigo para exportação. Foto © Rúben Castanheiro

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