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Fátima Gomes, tecedeira

“A minha mãe saiu do tear para eu nascer”

É apenas no tear de Fátima Gomes, em Lamas de Orelhão, que a lã natural da ovelha da Terra Quente transmontana dá origem a cobertores, carpetes e tapetes. Muitos tapetes. Atualmente é a única a manobrar o tear, mas chegaram a ser mais de duas dezenas as tecedeiras nesta freguesia do concelho de Mirandela. Hoje, até os rebanhos de churra-badana se contam pelos dedos de uma mão. É uma arte em extinção.

Fátima Gomes trabalha, profissionalmente, no tear há 37 anos. Foto © Filipe Ribeiro

“Eu nasci nisto. A minha mãe saiu do tear para eu nascer”, conta ao 7MONTES a tecedeira de 68 anos que quando nasceu já conhecia o som cadente deste complexo mecanismo. “Era 25 de agosto. O meu pai tinha ido à feira de Mirandela. A minha mãe ficou a trabalhar no tear. Às cinco da tarde parou e foi para cima para me dar à luz. Quando o meu pai chegou da feira, eu já tinha nascido”, explica Fátima Gomes, com a mesma simplicidade com que passa a lançadeira por entre a lã, ao tear. Na oficina que usa há mais de três décadas, por baixo de sua casa, as pausas das conversas só são interrompidas pelo barulho do pente, que é puxado para pressionar os fios da peça.

Nasceu rodeada de fusos, rocas e teares que fizeram dela, ainda jovem, uma tecedeira completa. Mas a vontade de procurar outra vida levou-a para a França, acompanhada do marido, aos 18 anos. “Estive 12 anos lá fora. Nasceram lá as minhas duas filhas. O meu marido acabou por arranjar trabalho em Portugal e regressamos”, relata.

De volta a Lamas de Orelhão – o marido trabalhava em Mirandela na Direção Regional de Agricultura – Fátima viu no tear a possibilidade de regressar ao ativo e encarou a arte como profissão. “Depois de estar habituada a trabalhar, lá fora, era difícil estar parada. Comecei com o tear para me entreter, mas acabou por ser o meu trabalho a tempo inteiro e ainda hoje estou aqui. É o que sei fazer e o que gosto!”, atira.

Em Lamas de Orelhão havia 25 tecedeiras.

Fátima conta 37 anos à frente do tear. Na oficina de sua casa, há três teares em madeira que lhe permitem tecer diferentes peças com diversos tamanhos. “Desde os 30 anos nunca mais parei. Fiz muitas feiras de Norte a Sul de Portugal. Tenho um tear que vai sempre comigo”, acrescenta.

A cor da lã que usa é, habitualmente, branca ou beije, “mas também há o mesclado, que é meio cinzento, ou o castanho. Depende do animal, se for jovem ou adulto”. Mas antes de chegar ao tear, a lã passa por um longo processo: tem de ser lavada, cardada e fiada.

Uma parte do processo de preparação da lã é, hoje, mecanizado, o que poupa tempo e esforço à tecedeira. “Antigamente era pior, a gente estava no tanque dias inteiros só para lavar a lã”, explica. Depois, o processo de fabrico da tapeçaria, no tear, é unicamente manual, um esforço que, para Fátima, tem afastado novos aprendizes: “Quem é que hoje quer trabalhar no tear? Não é só chegar aqui e olhar para ele. Quem não nasceu a ver tecer dificilmente se conseguirá afeiçoar à arte”.

Não é o caso das duas filhas da tecedeira, hoje “adultas e formadas”, que aprenderam desde cedo a arte junto da mãe. “Elas aprenderam muito cedo, ainda garotas. Nas férias da escola trabalhavam muito comigo. Depois foram para a universidade e seguiram outra vida, claro”, expõe a tecedeira, resignada.

Numa época em que Lamas de Orelhão se contavam 25 tecedeiras, a arte era passada de mãe para filha e até o tear fazia parte do dote de casamento. Hoje, saberes tradicionais como a tecelagem, aprimorados ao longo de gerações, integram a rota Saber Fazer Que salvaguarda a identidade de cinco concelhos do Nordeste Transmontano.

Fátima produz tapeçaria típica da Terra Quente Transmontana. Foto © Filipe Ribeiro

7MONTES é financiado pelo programa Local Media for Democracy do Journalismfund Europe www.journalismfund.eu

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