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Vale de Telhas, Mirandela

A Montanha Mágica está de regresso a Trás-os-Montes

O grupo de trabalho que fez parte da Montanha Mágica. Foto © Rúben Castanheiro
O grupo de trabalho que fez parte da Montanha Mágica. Foto © Rúben Castanheiro

A vida dos habitantes de Vale de Telhas, no concelho de Mirandela, mudou bastante nos últimos dias. Viram-se “obrigados” a fugir à rotina a que estavam habituados para receber o grupo de jovens universitários que embarcou no desafio de criar um filme documental sobre a aldeia. As filmagens decorreram no âmbito do projeto RAMM- Residência Artística Montanha Mágica que tem por objetivo dar a conhecer aos alunos “lugares predefinidos em zona rural, no interior do país”.

Os estudantes que passaram uma semana em Vale de Telhas cursam as áreas de Multimédia, Design de Jogos Digitais e Cinema da Universidade da Beira Interior (UBI) e da Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo de Mirandela (EsACT) e são apoiados pelo LabCom – Comunicação e Artes – uma unidade de investigação em Ciências da Comunicação da UBI. “O projeto deste ano fica marcado pela multidisciplinaridade, pois há alunos de várias disciplinas que se complementam entre si. O que implica que, por exemplo, para o mesmo plano, haja diferentes perspetivas”, diz Tiago Fernandes, 33 anos, natural de Lagarelhos, em Vinhais, responsável, em conjunto com outros três docentes – um da EsACT e dois da UBI – pela direção da residência artística.

Tiago esteve alguns anos na Covilhã, antes de voltar definitivamente para Trás-os-Montes como docente. O regresso facilitou, de certa forma, a realização deste projeto no concelho de Mirandela, depois de duas edições em Vinhais (2019) e em Seia (2021). Além disso, conta que essa experiência fora de Trás-os-Montes o fez olhar de outro modo e dar valor a aspetos como o “potencial cinematográfico da região”.

Este ano, a residência artística contou com a presença de um realizador convidado. Natural de Chaves, conhecedor de Trás-os-Montes, Rúben Sevivas, 33 anos, aluno de doutoramento em Media Artes na UBI, mostra-se satisfeito pelo convite. A sua experiência, conseguida através de passagens por Londres e Lisboa, deu-lhe a oportunidade de conhecer “diferentes mundos”. É a primeira vez que Rúben orienta um projeto que se mantém vivo 24 sobre 24 horas: “Tem sido bastante gratificante. Os alunos, apesar de terem pouca experiência, vieram cheios de vontade de aprender e têm-se esforçado por assimilar, num curto espaço de tempo, o máximo de características técnicas e artísticas possíveis. Creio que vão conseguir um produto final passível de ser muito visionado”.

António Vasconcelos e Yasmin Vilhena foram dois desses alunos. António, 21 anos, aluno do segundo ano de Multimédia, na EsACT, é natural de Lisboa. Já Yasmin, 22 anos, aluna de mestrado em Cinema, na UBI, é natural de Belém do Pará, no Brasil, mas há seis anos que vive em Portugal.

Rúben Sevivas, à esquerda, Yasmin Vilhena e António Vascocelos, à direita, depois de falarem da sua experiência. Foto © Rúben Castanheiro
Rúben Sevivas, à esquerda, Yasmin Vilhena e António Vasconcelos, à direita, depois de falarem da sua experiência. Foto © Rúben Castanheiro

“Experiência única de vida”

António, desempenhou as funções de diretor de som, tarefa para a qual recebeu “luz verde” da realização. “A experiência tem corrido bem. Estamos todos bastante motivados e isso tem contribuído para o sucesso das filmagens”, conta António. Acrescenta que já tinha ouvido falar da residência e que esta “experiência única na vida” é uma oportunidade para poder trabalhar com os equipamentos necessários da sua área e estar com pessoas partilhando dos mesmos interesses.

Yasmin, assumiu a responsabilidade pela fotografia. Aprendeu “bastante”, sobretudo nas funcionalidades de uma máquina de filmar. “Estou aqui pela paixão pelo cinema”, diz. As circunstâncias da vida fizeram-na estudar História da Arte. A vinda para Portugal e a inscrição no mestrado em cinema da UBI fizeram-na entrar, finalmente, no “rumo certo”. Mas, por ser historiadora, também gosta de contribuir para “preservar a memória e a história da aldeia”. Em relação à residência em Vale de Telhas, conta que a aldeia é “maravilhosa” e as pessoas, apesar de no início estranharem a presença do grupo de estudantes, são bastante “acolhedoras”.  Tal como a sua experiência em Portugal, que tem sido “cada vez melhor”.

Para o futuro, Tiago não descarta a possibilidade de estender o projeto a mais de uma residência, bem como dar a oportunidade de nela poderem participarem alunos de áreas distintas do cinema e das artes. Já o impacto final, segundo Rúben, vai ser “significativo” e “surpreendente”, porque os estudantes “conseguiram realizar um objeto fílmico bastante invulgar” no âmbito daquilo que habitualmente “se associa em Trás-os-Montes”. Rúben adiantou ao 7MONTES uma das razões desse lado invulgar: “Um dos aspetos que eles irão abordar é o ‘queer rural’, dando a conhecer uma identidade [afetivo-sexual] que é mais conhecida no mundo urbano, mas que também existe no mundo rural”.

Para participar na residência Montanha Mágica, é preciso cumprir alguns pré-requisitos. “Os participantes devem ser ainda alunos e têm de enviar dois documentos: o curriculum vitae e uma nota de intenções. Depois disso, esses documentos são avaliados por um júri”, refere Tiago Fernandes. A iniciativa contou com o apoio não só das duas escolas superiores, mas também de outras organizações como o município de Mirandela e a junta de freguesia de Vale de Telhas.

Durante uma semana, os alunos foram ouvindo as experiências de várias pessoas de Vale de Telhas. Foto © DR
Durante uma semana, os alunos foram ouvindo as experiências de várias pessoas de Vale de Telhas. Foto © DR

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