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Vestuário em burel de Sendim

“A nossa cultura é tão resistente como a terra”

Aos 72 anos, Maria Suzana de Castro pode gabar-se de já ter vestido o Papa Francisco, o Presidente da República e mais um punhado de personalidades do panorama nacional e internacional graças à Capa de Honra que tornou a cultura mirandesa mundialmente conhecida. Ao ponto de ser fonte de inspiração do criador francês Christian Louboutin

Maria Suzana de Castro é autora de peças em burel inspiradas na cultura mirandesa. Foto © Filipe Ribeiro

Em Sendim, Miranda do Douro, o sino da Igreja de Santa Bárbara, no centro da vila, que toca à hora certa, pela manhã, agita até o morador mais frugal. Segue-se um corrupio de gente que se apressa a entrar no templo. Daí a nada, a praça regressa à parcimónia habitual. Estamos no coração do Nordeste Transmontano, um lugar onde há tempo para gastar tempo.

É precisamente nestas terras que Saramago, feito viajante, começa o livro Viagem a Portugal: “Em Sendim, são horas de almoço. Que será, onde será. Alguém diz ao viajante: ‘Siga por essa rua fora. Aí adiante há um largo, e no largo é o Restaurante Gabriela. Pergunte pela senhora Alice.’ O viajante gosta desta familiaridade”.

É aqui mesmo, ao lado do Restaurante Gabriela, que encontramos a loja de Maria Suzana de Castro. É numa casa antiga, mas recuperada, em granito amarelo, que a artesã mantém viva a tradição e a cultura mirandesas, num espaço adornado de peças de burel, entre capas, vestidos, casacos, tapetes, malas e outros adereços.

“Trabalhei sempre de costura desde a minha infância. É o que faço e gosto de fazer”, começa por dizer ao 7MONTES, Maria Suzana, de 72 anos, que já conhecia e trabalhava o burel, mas que se dedica profissionalmente à arte há pouco mais de 20 anos. “Antigamente, a roupa era toda de lã. Não eram só os pastores que usavam o burel. Usava-se no campo e em casa”, acrescenta a artesã que justifica a sua utilização por este ser “um tecido mais grosso, mais quente e mais resistente”, numa altura em que “os invernos eram muito rigorosos”.

O modo de transformar a lã em burel é parte da cultura de Miranda do Douro “que nunca se perde… pelo menos enquanto houver pessoas”. “A nossa cultura é muito rica. É tão resistente como a terra”, afirma.

Loja no centro de Sendim tem capas, vestidos, casacos, tapetes, malas e outros. Foto © Filipe Ribeiro

Beber da cultura, transformar a cultura

A cultura também se transforma. Foi isso que a artesã fez, quando, juntamente com as duas filhas com quem trabalha, adequou o picado dos coletes dos pauliteiros e das capas mirandesas tradicionais a novas aplicações.

Pode mesmo dizer-se que o pináculo desse trabalho, todo ele feito em “ponto e surrobeco”, é a Capa de Honras Mirandesa. “Esse é o traje mais nobre. É muito antigo. Já vem do tempo medieval. Foi inspirado no casaco de inverno do pastor que se agasalhava para se proteger do frio. É o traje de gala dos agricultores.”

Todas as outras criações inspiram-se neste pedaço de cultura que se veste. “Tudo o que vê é da minha autoria. Às vezes estou na cama e penso num casaco. De manhã venho logo fazê-lo. Se sai chique e bonito, logo se vende. Mas se eu quiser fazer outro igual, já não sai”, diz, entre risos, a artesã que começou por fazer coletes de pauliteiros e peças para trajes regionais e etnográficos.

Capa de Honras Mirandesa (à direita). Foto © Filipe Ribeiro

As peças que faz, para além da capa, estão recheadas de motivos tradicionais, como os corações, as cornucópias, ou a folha de oliveira. “Não há molde nenhum, o molde sai da minha cabeça”, adianta, mostrando um sorrão, um saco em tecido onde os pastores levavam a merenda.

Para a história fica a entrega de uma Capa de Honras ao Papa Francisco, em 2019, feita por Maria Suzana e que mereceu o envio pelo Vaticano do respetivo certificado de bem recebido. Também o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi agraciado com uma Capa de Honras Mirandesa, em 2021, por ocasião das comemorações dos 476 anos de elevação de Miranda do Douro a Cidade. Este vestuário tradicional foi inscrito, em 2022, pela Direção-Geral do Património Cultural no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

O Festival Intercéltico de Sendim, uma marca forte da música e da cultura locais, veio dar um “empurrãozinho” ao burel e ao que de mais tradicional existe por estas terras, incluindo os gaiteiros e pauliteiros mirandeses. E também ajudou ao negócio de Maria Suzana de Castro: “O festival traz muita gente. Foi muito bom para Sendim. Começamos logo no início, há mais de 20 anos, a fazer lembranças em burel, como sacos de pauliteiros, alforges, e miniaturas para vender no festival.” Com festival, ou sem ele, uma ida a Sendim vale sempre a pena, pois além do restaurante recomendado a Saramago, é ali que fica a loja de burel de Maria Suzana de Castro.

Quadro com fotografia do Papa Francisco agraciado com a Capa de Honras. Foto © Filipe Ribeiro

7MONTES é financiado pelo programa Local Media for Democracy do Journalismfund Europe www.journalismfund.eu

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