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Freixo de Espada à Cinta

A seda ainda passa pelas mãos

Sónia Lopes, a trabalhar o fio na máquina de tear. Foto @Rúben Castanheiro
Sónia Lopes, a trabalhar o fio na máquina de tear. Foto © Rúben Castanheiro

As peças artesanais de seda que as mãos de Sónia Lopes, Júlia Brás e Otilde Tavares criam no Museu da Seda e do Território são tão naturais como a matéria-prima produzida pelos bichos-da-seda de que cuidam naquelas instalações de Freixo de Espada à Cinta. A seda é por elas “extraída, torcida, lavada e trabalhada nos teares” diz Sónia, a porta-voz do grupo, mostrando os artigos que melhor se vendem: porta-moedas, carteiras, porta-óculos, porta-lápis, sabonetes, saquinhos de cheiro.

Sónia e Otilde conheceram-se numa ação de formação desenhada pelo Centro de Emprego e pela Câmara de Freixo, aproveitando o saber de uma formadora conhecedora da arte e da criação dos bichos-da-seda. O gosto de Sónia pela seda desenvolveu-se ao longo do tempo dessa formação que incluiu cinco anos dedicados à tecelagem. “Trabalhar é que dá gosto”, afirma, reconhecendo que muitas das capacidades adquiridas e a sua noção das artes da seda foram ganhas a tratar do bicho-da-seda, da matéria-prima e a confecionar os produtos finais: “a prática ajuda muito a entender a teoria…” 

Otilde fez a mesma formação. Gostou e continua a querer dedicar-se à seda. Júlia há mais de duas décadas que trabalha no museu, mas começam-lhe a faltar as palavras. Através da leitura dos lábios vão comunicando umas com as outras. “É super-profissional”, assim a descrevem Sónia e Otília, que frequentam o mesmo espaço desde os tempos em que, há duas décadas, o museu ainda era uma associação.

Num mundo onde as máquinas dominam, a maior parte do trabalho desenvolvido por Sónia Lopes, Júlia Brás e Otilde Tavares é manual. A particularidade desta seda é ser tratada 100 por cento de forma artesanal e em Freixo dizem que este é o único território que ainda a trata assim. 

Júlia Brás, enquanto vai costurando as peças. Foto @Rúben Castanheiro
Júlia Brás, enquanto vai costurando as peças. Foto © Rúben Castanheiro

Tratar do bicho até à seda

Inaugurado em 2015, o Museu da Seda e do Território tem espaços dedicados exclusivamente à produção, do início ao fim, do ciclo do bicho-da-seda, ao tratamento, tecelagem e costura da seda. O processo de criação do bicho-da-seda exige ser preparado com muita antecedência. Os ovos, libertados no ano anterior pela borboleta, são colocados num sítio fresco. Entre o fim de fevereiro e o início de março, são postos a “eclodir”, coincidindo com o início da rebentação das folhas da amoreira, o alimento fundamental dos bichos. Nos primeiros dias estes não comem, “só sugam a seiva” das folhas. Em crescendo são colocados em tabuleiros especiais que “sobem” para outro andar onde os espera uma armação apropriada.

No início, os ovos estão todos depositados nas folhas, mas os bicos quando nascem, não nascem todos no mesmo dia. “Nascem meia-dúzia hoje, meia-dúzia amanhã”, explica Sónia. Nas primeiras semanas essas diferenças parecem irrelevantes, contudo, a pouco e pouco, tornam-se notórias. O horário de vigília impõe-se então ao horário de trabalho. Nesse período não há dias de folga porque os bichos têm de comer todos os dias. 

A certa altura é preciso escolher. “Agarrar no bicho e distribuir do pequeno para o maior” é a solução para os distinguir. Assim, conseguem percecionar quais estão mais próximos da “fase final”. O último tabuleiro da fila é o que indica a passagem dos 40 dias e o facto de já não precisarem de comer, pois já estão a constituir casulos. Ficam “esquecidos”.  A partir daí, começam a dar mais alimento aos primeiros da fila, pois, quanto mais alimento se lhes dê, mais “rico” é o casulo.

É nessa altura que se deparam com um “dilema”: deixar a borboleta furar o casulo ou congelar o casulo para tirar a seda. Como o foco é “extrair a seda”, na maior parte das vezes optam por congelar os casulos. 

Quando não é essa a opção, à medida que vão nascendo, as borboletas são colocadas noutro tabuleiro, forrado a papel branco. Nesse período acasalam, libertam os ovos e morrem. Os casulos são secos durante dois ou três dias e demolhados em água a 90 graus. Para os deslaçar utilizam uma escova de carqueja, uma escova rija, capaz de extrair o fio do casulo molhado, coisa impossível de fazer com as mãos. O fio tem de passar pelo meio do sarilho, trabalho que requer duas pessoas, porque enquanto uma desenrola, a outra tem de estar sempre a dar à roda. É um trabalho que não se faz todos os dias. 

O fio tem de passar pelo meio do sarilho, trabalho que requer duas pessoas. Foto @Rúben Castanheiro
O fio tem de passar pelo meio do sarilho, trabalho que requer duas pessoas. Foto © Rúben Castanheiro

Posteriormente, passa pelo urdidor, o local onde se prepara a teia. A teia varia de tamanho em tamanho. Pode ser uma maior ou outra mais pequena, mediante o tipo de trabalho que se vai executar. Nos cilindros do urdidor, desenrola-se a teia, e nos primeiros três do lado direito, é que está o segredo. “Levam umas cruzes, mas é preciso saber como se fazem”, conta Sónia, antes de desmanchar a teia e refazê-la. Cada teia leva doze novelos. Cada casulo dá à volta de 1000 metros, pelo que são precisos milhares de casulos para se fazer uma teia.

No piso de baixo fica a loja, onde se vendem os produtos. E vendem-se mais do que nas feiras onde levam os mesmos artigos. A diferença reside no facto de as pessoas depois de terem ouvido as explicações das visitas-guiadas saírem do museu com uma ideia totalmente nova sobre o que é o bicho-da-seda. Nas feiras, as pessoas “veem, olham e andam”, refere Sónia, ao contrário, na loja do museu mostram mais interesse em saber como é que “se fazem os sabonetes ou saquinhos”. 

As almofadas e as colchas já não se fabricam porque seria preciso um elevado número de casulos e “nem o edifício está adequado para tal”, remata Sónia. 

Posteriormente, passa pelo urdidor, o local onde se prepara a teia. A teia varia de tamanho em tamanho. Foto @Rúben Castanheiro
Posteriormente, passa pelo urdidor, o local onde se prepara a teia. A teia varia de tamanho em tamanho. Foto © Rúben Castanheiro

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