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Escritor, etnólogo e investigador

Alexandre Parafita ao 7MONTES: “a região transmontana está carregada de espiritualidade”

Trás-os-Montes é uma região onde “o homem na sua relação com a natureza e subjugado pelas inquietações do sobrenatural” alimentou um património imaterial “carregado de espiritualidade”, que está ameaçado de extinção, diz, em entrevista ao 7MONTES, Alexandre Parafita, escritor, etnólogo e investigador no Centro de Estudo em Letras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Alexandre Parafita

Filipe Ribeiro – Ao longo dos últimos anos tem recolhido muita informação sobre a etnografia transmontana. Há ainda muito trabalho a realizar neste âmbito?

Alexandre Parafita – Sem dúvida que há. A região transmontana, desde os povoados serranos do Marão e Alvão, às terras do Barroso e recantos raianos de Vinhais e Bragança, ou aos territórios mágicos do Planalto Mirandês e Alto Douro, é toda ela carregada de espiritualidade, onde o homem, na sua relação com a Natureza e subjugado pelas inquietações do sobrenatural, sempre alimentou um imaginário muito rico no domínio do património imaterial. É aqui que reside uma boa parte dos meus trabalhos enquanto etnólogo.

 

FR – Percebe-se, por isso, que Trás-os-Montes é terreno fértil para recolha de lendas e contos populares. Este património imaterial está a perder-se?

AP – Está claramente em risco de extinção. Todo o trabalho para resgatar esse património é uma luta contra o tempo. Não só estão a desaparecer aceleradamente os primitivos narradores da memória, aqueles que tradicionalmente transmitiam às novas gerações os seus saberes e a sua vivência cultural, como também estão a desaparecer os contextos rurais que alimentavam grande parte da literatura oral tradicional.

Já não se fala das segadas, desfolhadas, malhadas, lagaradas ou torna-geiras onde fluíam as peças do romanceiro e cancioneiro. E ao extinguirem-se os fiandeiros e os convívios à lareira, desaparecem as lendas e os contos populares que tinham aí o seu espaço de eleição.

Por outro lado, os smartphones e outros entreténs modernos mataram os jogos tradicionais infantis onde imperavam as cantigas, lengalengas e rimas de jogos. E com os novos modelos civilizacionais, vemos também extinguirem-se as práticas creenciais de cariz popular associadas à medicina popular, ou aos antigos rituais de morte, e assim desaparecem as rezas e orações populares, fórmulas de superstições e outros jogos verbais…

 

Alexandre Parafita
Escritor em recolha de histórias nas aldeias transmontanas

FR – É para que não se perca toda esta memória coletiva que há anos que faz a recolha e estudo de histórias, lendas e contos?

AP – Faço-o para preservar e valorizar o melhor que posso esse manancial cultural. Tenho encontrado um país dominado pela celeridade obsessiva da vida moderna, onde há cada vez menos lugar para os guardiões da memória e para o convívio com eles. Inquieta-me o abandono da vida rural e especialmente o desaparecimento das franjas da população que se têm assumido como guardiões da nossa cultura imaterial profunda.

Muitos desses intérpretes, pessoas bastante idosas, vou procurá-los em lares de terceira idade e sei que vão levar com eles, quando partirem de vez, o saber e o conhecimento que trouxeram das gerações precedentes.

Às vezes sinto-me recompensado por ver que vou conseguindo atingir alguns dos objetivos que persigo. Outras vezes sinto-me extremamente frustrado por ver essas pessoas, essas bibliotecas vivas, mas decadentes, a desaparecerem irremediavelmente, sem que haja, de quem de direito, uma vontade sistemática, assumida, em salvaguardar os seus testemunhos para memória futura.

 

FR – Mas os seus trabalhos, enquanto etnólogo, não incidem exclusivamente na região transmontana… 

AP – Enquanto investigador colaborador do CLEPUL, um centro de investigação da Universidade de Lisboa, fui um dos responsáveis pela criação do Arquivo e Catálogo do Corpus Lendário Português, sob os auspícios da Fundação para a Ciência e Tenologia, o que permitiu identificar e legitimar cientificamente mais de 3000 lendas de Portugal. Ainda no âmbito desse centro de investigação, publiquei em 2019 a obra Lendas e Mitos dos Castelos de Portugal, um projeto desenvolvido desde o Minho ao Algarve e que contemplou também o lançamento do Castelos de Portugal – Roteiro de Lendas, em sete publicações com as edições de fim de semana do «Jornal de Notícias». Publiquei também a Mitologia Popular Portuguesa. São trabalhos que me levam a viajar por todo o país.

 

Chocalheiro de Bemposta. Imagem: DR
Chocalheiro de Bemposta. Imagem: DR

FR –Se recuássemos no tempo, que iríamos encontrar como expressões tradicionais da época festiva do Natal, do final do ano velho e início do novo?

AP – Nos natais genuínos transmontanos, um dos símbolos maiores é a “murra” a arder nos terreiros, celebrando o fogo purificador, herdeiro dos antigos rituais do solstício de inverno que assinalavam a chegada de um novo ciclo fertilizador sobre a Terra. Nas aldeias transmontanas o conceito de família não se fecha nas paredes de uma casa. A família é toda a comunidade. E não é de estranhar que assim seja, pois, porta sim porta não, todos são parentes. Por isso, a festa começa com a consoada em casa e completa-se na comunidade à volta da “murra”.

Mas há também o culto dos mortos ainda presente em muitas tradições natalícias transmontanas. Algumas, especialmente em comunidades rurais do norte do distrito de Vila Real, são suportadas pela crença de que, na noite de Natal, os mortos da família regressam às casas que habitaram em vida para participarem na reunião familiar. Na noite de consoada, sentam-se à mesa os familiares vivos, mas o espírito de todos os familiares mortos vem também compartilhar o repasto. Não há muitos anos, anotei que, em algumas aldeias, a mesa não é levantada até à primeira refeição do dia seguinte, porque durante a noite os espíritos estão presentes e pretendem alimentar-se. No dia seguinte, os alimentos que sobram são aproveitados para nova refeição, conhecida por “roupa velha”.

Noutras comunidades, mais para o nordeste transmontano, no distrito de Bragança, também o Diabo tem o seu lugar na tradição do Natal, sendo personificado numa figura sinistra designada por “Velho Chocalheiro, que sai às ruas no dia 26 de dezembro e também no dia 1 de janeiro. O mais conhecido é o “Chocalheiro de Bemposta”. Representa a figura do demónio que, por castigo, após o Natal, anda pelas ruas com os seus chocalhos a balançar no traseiro, pedindo esmola para Nossa Senhora e o Menino Jesus.

 

FR – Lançou, recentemente, “Lendas e Contos Populares Transmontanos, vol. 1”. O que é este livro?

AP – É um livro incluído num projeto em que estou a trabalhar chamado “Tesouros da Memória”. São 215 lendas e contos populares transmontanos, resgatados da memória dos seus narradores e acompanhados do respetivo estudo histórico-antropológico. Neste primeiro volume, são contemplados os concelhos de Bragança e Vinhais.

Reúne lendas de lugares, de capelas, alminhas e cruzeiros, milagres, aparições da virgem, tesouros em ruínas de castros e castelos, mouros guerreiros e mouras encantadas, lobisomens, bruxas, almas penadas, trasgos e demónios. E também contos populares de toda a espécie: contos religiosos; contos de animais; contos de encantamento; contos jocosos e anticlericais. E estou a desenvolver o trabalho de pesquisa no terreno, com vista à publicação do segundo volume. Espero publicá-lo até final de 2024.

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