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França, Bragança

As alheiras com ligação bastante familiar

O processo de cura tipicamente caseiro, através do fumo da lareira, faz com que o sabor e o paladar sejam “diferentes”. Foto @DR
O processo de cura tipicamente caseiro, através do fumo da lareira, faz com que o sabor e o paladar sejam “diferentes”. Foto © DR

Quem se dirige para os lados do Parque Natural de Montesinho, não consegue ficar indiferente à paisagem. Há sempre algum pastor a quem pedir indicações. E no meio de curvas e contracurvas se chega a França, não saindo de Portugal, e ao local onde se fabricam as alheiras. Maria de Lourdes e o seu irmão Alberto Fernandes decidiram em 1992 lançar-se no negócio. Alheiras já as faziam em casa desde os tempos de infância. Agora era precisar pensar grande. E assim fizeram. Hoje produzem e vendem anualmente mais de 12.000 kg de alheiras. E alguns dos seus produtos são exportados para França e não estamos agora a falar da aldeia.

Liliana Esteves é filha e sobrinha dos proprietários. Tinha nove anos quando a mãe e o tio lançaram a empresa. Estudou em Bragança, mas a vontade de aprofundar os seus conhecimentos levou-a para outros ares, onde se especializou. Começou a trabalhar, mas, graças a um conjunto de circunstâncias, em que os “santos da casa afinal fazem milagres”, acabou por regressar, fruto do “carinho pelo negócio familiar”. Após ponderar e pensar, juntamente com Maria e Alberto, se seria uma mais-valia para o negócio, decidiu voltar à aldeia. É ela quem, agora nos seus 40 anos, trata das burocracias, das HCCP (Execução de Programas de Controlo de Higiene e Segurança Alimentar), das faturações e outras funções necessárias ao bom funcionamento da empresa. 

Prende-a a França não só o negócio familiar, mas também “a qualidade de vida que existe no interior” aliada com os acessos fáceis a cidades como Madrid, Valladolid e Puebla que tornam as deslocações em férias mais agradáveis. O rio Sabor, que atravessa a pequena aldeia de França vindo dos montes que a rodeiam a norte e a oeste, também ajuda a prender quem ali vive.

Para Liliana, a grande particularidade das alheiras da SoFrança – assim se designa a empresa familiar – reside na matéria-prima e no tempo de cura. Feitas com pão caseiro, produzido na fábrica sem levedura, carne de porco, carne de galinha, azeite, orégãos, pimento, um pouco de picante e conservante e, claro, com tripa natural e de porco, diferenciam-nas no sabor e na consistência. A “mistura de água e vinho”, o facto de “levar bastante carne” e terem “pouca gordura e toucinho” torna o fumeiro da casa muito “homogéneo”, porque, comenta Liliana, há outras zonas do país em que os enchidos “levam só água e noutras só vinho”, variando no paladar. 

As alheiras, à espera de serem penduradas no estendal. Foto @DR
As alheiras, à espera de serem penduradas no estendal. Foto © DR

A procura que têm conhecido deve-se, não duvida Liliana, a essa “questão de sabor” que é reconhecido pelo “paladar das pessoas” e mais do que reconhecido, “muito apreciado”. E é esse apreço que, através do ‘passa-palavra’, tem ajudado ao reconhecimento deste fumeiro é o que tem sido muito eficaz na divulgação.

Já no que toca ao tempo de cura, que é de uma semana, o facto de ela ser tipicamente caseira, através do fumo da lareira, faz com que o sabor e o paladar sejam “diferentes”. O processo de encher e de apertar é feito com máquinas, porque é muita a produção, o que torna impossível encher e apertar manualmente. A única coisa que se faz à mão é desfiar as carnes e preparar a massa. 

“De madrugada, coze-se a carne, numa panela com temporizador. Por volta das 8h da manhã começam a desfiar a carne cozida, e durante o dia enchem a dose, entre volta 300 a 400 kg, o que dá à volta de 1.500 a 2.000 alheiras”, explica Liliana. 

Além de alheiras, a SoFrança também produz butelos, chouriças, sejam normais ou para assar, salpicões e azedos. Vendem sobretudo para intermediários na zona litoral-norte, como Porto, Viana do Castelo e Fafe, além de exportarem para França. A única feira a que costumam deslocar-se é a feira do Butelo, em Bragança, no mês de fevereiro. 

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