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Museu particular em Vila Pouca de Aguiar

As catedrais em madeira de Guilhermino Rodrigues

Em Vila Pouca de Aguiar há um museu que se destaca por ter uma coleção de réplicas de grande formato das principais catedrais da Europa e da América, incluindo detalhes arquitetónicos e decorativos, que o autor, Guilhermino Rodrigues, representou à escala… sem nunca as ter visitado.

Guilhermino Rodrigues reproduziu, em madeira, as principais catedrais da Europa e América. Foto © Filipe Ribeiro

Guilhermino Rodrigues, com 78 anos, não conheceu outro ofício que o de carpinteiro, apesar de trabalhar, além da madeira, o metal, o vidro e o granito. Há cerca de 30 anos este homem, que desde a infância se sabe dotado de uma extraordinária habilidade para esculpir madeira, vive com uma doença que lhe tolheu as mãos, que o limita fisicamente, mas não o impediu de construir, desde 2011, um conjunto de catedrais que na realidade nunca conheceu.

Como é habitual em grandes artesãos, o ofício espoletou precocemente em Guilhermino Rodrigues. “Lembro-me de ter 11 anos e de já gostar muito de engenhocas, principalmente projetos em madeira. Com essa idade, construí uma pequena serração. Funcionava que era uma maravilha, ninguém queria acreditar. Nem os meus pais, nem os professores lá da escola. Ficava tudo pasmado”, conta o artesão, que em pequeno já fazia reproduções de tratores, carros de bois, entre outras peças de artesanato.

Sagrada Família de Barcelona. Foto © Filipe Ribeiro

A partir dos 15 anos passou a trabalhar como aprendiz de carpinteiro, numa serração a sério, até iniciar o serviço militar obrigatório. Esteve nas colónias, e desde logo percebeu que tinha queda para a construção. Quando regressou a Portugal, após a guerra colonial, estabeleceu-se como encarregado numa empresa de construção e obras públicas.

Foi nesse período que ficou responsável, como carpinteiro, pelo lançamento da obra do Hospital de Vila Real, para além de quartéis da Guarda Nacional Republicana (GNR), de bombeiros, palácios da justiça, tudo pelo Norte do país. “Depois de conhecerem a minha forma de trabalhar, chamavam-me o ‘engenheiro da Alemanha’, sem nunca ter lá estado. Gosto de fazer as coisas bem, mas com rapidez. Ninguém era mais rápido do que eu a fazer alguma obra, fosse em madeira, em granito e até em metal”, relata.

Um dia, quando trabalhava os interiores de madeira de uma igreja, a convite de um pároco local, impressionou os responsáveis da Diocese de Vila Real, que rapidamente o convidaram a ser o carpinteiro principal do bispado. “Mobilei a Sé de Vila Real, restaurei móveis, fiz trabalhos impressionantes de carpintaria no edifício do seminário. Restaurei, por dentro, quantas igrejas e capelas havia na região”, enumera Rodrigues, concluindo com uma ponta de vaidade: “Os padres estavam rendidos ao meu trabalho”.

 

Catedrais construídas à escala, apesar de doença incapacitante

Basílica de São Pedro e Catedral de Nova Iorque (atrás). Foto © Filipe Ribeiro

Aos 50 anos, o artesão viu-se obrigado a abrandar, quando lhe foi diagnosticado artrite reumatoide, uma doença inflamatória que lhe afeta, sobretudo, as articulações das mãos, limitando-o nas suas atividades do dia-a-dia. Não deixou, porém, de trabalhar, “umas vezes mais depressa, outras vezes mais devagar”, mas sempre com a mesma motivação. “Depois de saber que tinha artrite, há quase 30 anos, ainda fiz os interiores de 37 igrejas e capelas”, atira.

Em 2011, em conversa com um familiar, foi desafiado a construir uma miniatura em madeira do Mosteiro da Batalha, uma peça de artesanato de elevado pormenor. Surgiu, depois, a ideia de reproduzir igrejas e catedrais à escala. O Mosteiro foi a primeira obra. Seguiram-se outras, maiores, mais ambiciosas e complexas: A Sagrada Família de Barcelona, as catedrais de Milão (Itália), Colónia (Alemanha), Quito (Equador) e Nova Iorque (EUA), a Notre-Dame de Paris e a Basílica de São Pedro em Roma. A que se somou a Igreja Matriz da sua paróquia, Telões, e a Catedral do Cristo Redentor, uma obra original, da sua autoria, com o mesmo grau de complexidade e dimensão.

De estilo neogótico e grandes vitrais, a Catedral de Nova Iorque foi a sua última reprodução, que levou vários meses a ser construída. “Foram precisas mais de 200 mil peças”, conta Guilhermino Rodrigues, enquanto remexe as ferramentas e os pedaços de madeira com os quais vai iniciar o próximo projeto: a Catedral de Canela, no Rio Grande do Sul, Brasil, edificada em tons distintos pelas diferentes pedras que lhe foram colocadas na fachada. O artesão vai manter esta característica na réplica em madeira, mas com os diferentes tons e qualidades que este material lhe oferece.

Início da construção da Catedral de Canela (Brasil). Foto © Filipe Ribeiro

Em quase todas as catedrais há detalhes difíceis de concretizar, como torres de elevado pormenor, figuras religiosas e até gárgulas, que exigem um grau espantoso de minúcia e dedicação. Para além disso, em quase todas elas há vitrais retroiluminados, de várias cores, à semelhança das originais, produzindo uma áurea de misticismo e luz, e sistemas sonoros que reproduzem, em várias línguas, os sons originais das orações no interior dos templos.

O artista já viu os seus trabalhos expostos diversas vezes, mas, devido ao valor incalculável das suas obras, não tenciona vê-las saírem do anexo junto à sua própria casa, a “catedral” onde guarda as suas obras-primas.

O museu de Guilhermino Rodrigues, a que chama de “Museu de Réplicas de Catedrais da Europa e América”, pode ser visitado, por marcação prévia, no lugar de Carrica, junto à EN2, em Vila Pouca de Aguiar.

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