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Na Cumieira

Assassinato do Padre Max foi há 48 anos

Maximino Barbosa de Sousa, mais conhecido como Padre Max, foi assassinado próximo da Cumieira a 2 de abril de 1976, num ataque bombista que também vitimou a estudante que o acompanhava. Ela teve morte imediata e ele viria a falecer no dia seguinte, no Hospital de Vila Real. Esta semana, completam-se 48 anos deste crime associado à extrema-direita, mas que não teve condenados.

O padre Max e Maria de Lourdes, assassinados a 2 de abril de 1976, perto de Vila Real. Foto: Direitos reservados

Na noite trágica do dia 2 de abril de 1976, o Padre Max, de 32 anos, e a estudante Maria de Lurdes Correia, de 18 anos, estavam a sair da Casa da Cultura da Cumieira (atual Junta de Freguesia), a escassos quilómetros de Vila Real, depois de uma aula em regime pós-laboral com trabalhadores-estudantes. De regresso a Vila Real, ao quilómetro 71 da Nacional 2, uma bomba colocada no interior do Simca 1000, de cor amarela, explodiu, vitimando os dois ocupantes.

Ao 7MONTES, Vera Constantino, uma antiga aluna do Padre Max no Liceu de Vila Real, conta que a sociedade vila-realense, na época, era “bastante conservadora” e que o clérigo, que tinha vivido “efusivamente” o Maio de 68 em França, tinha uma visão do ensino e da Igreja muito “avançada”. “O Padre Max era uma pessoa muito carismática e tinha uma forma diferente de ver o ensino e a religião. Ele tinha umas ideias arrojadas, mas conseguia mobilizar os jovens. Cativava bastante os seus alunos. Era fascinante a forma como ele dava as aulas”, recorda a agora professora de 66 anos, formada em Antropologia, a residir no sul do país.

Vera Constantino nasceu e cresceu em Moçambique. Na sequência da revolução, foi obrigada a regressar a Portugal, juntamente com a família, tendo-se fixado em Trás-os-Montes, onde a mãe tinha raízes. A fim de terminar o liceu, foi viver para Vila Real. “Quando cheguei, senti que tinha retrocedido. Não sentia a escola nem a Igreja da mesma maneira”, refere, acrescentando que ter conhecido o Padre Max, na altura, a marcou bastante do ponto de vista espiritual.

O Padre Max “promovia nos jovens cristãos uma pastoral que os levasse a vivências da fé no mundo em que se inseriam”, continua, referindo que os jovens eram “mais livre de muitos preconceitos que determinavam a vida religiosa recomendada como padrão inviolável e dentro das paredes paroquiais”. Além disso, “incentivava à liberdade de opinião, de partilha de questões e de tomada de iniciativas dentro ou fora das aulas”. “Abria a fascinante biblioteca pessoal aos alunos, deixava-os ir lá a casa contactar com ela e emprestava com entusiasmo livros”, acrescenta.

Em Vila Real, além de ensinar Português e Francês, o Padre Max dinamizava um grupo da Ação Católica, composto por jovens, através do Método de Revisão de Vida, Ver-Julgar-Agir, ligado à Juventude Escolar Católica (JEC). Na Cumieira, realizava um trabalho de intervenção cultural e de alfabetização para adultos junto da comunidade. “Gostavam muito dele e o impacto era muito grande. Era muito estimado e defendido por quem usufruía das atividades, muito criticado e hostilizado por quem se sentia ameaçado com a ascensão cultural desses beneficiados. Em Vila Real, algumas pessoas começaram a achar, até, que estava a ir longe demais”, continua Vera Constantino.

As hostilidades começaram a sentir-se de forma mais intensa. Tanto na escola, como na Igreja, “havia fortes movimentos de extrema-direita que o hostilizavam”. Na comunidade católica era, inclusive, “rejeitado pelos padres”. “Ele já tinha recebido várias ameaças e temia pela vida. Ao perceber o risco que corria, foi falar com o Bispo de Vila Real, que admirava o seu trabalho, mas que não lhe manifestou publicamente o seu apoio”, recorda a antiga aluna.

O carro em que seguiam Padre Max e Maria de Lurdes. Foto: Direitos reservados

Candidato pela UDP

A fim de procurar apoio político fora do círculo eclesiástico, decidiu vincular-se à União Democrática Popular (UDP). Acabou por ser candidato independente a deputado, pelo Círculo de Vila Real, às primeiras eleições livres para a Assembleia da República, realizadas no dia 25 de abril de 1976, tendo já nessa altura abandonado a carreira religiosa. Para Vera Constantino, a associação do Padre Max ao partido de esquerda, de ideologia marxista e socialista, “só precipitou ainda mais a perseguição”. “Tudo ficou pior a partir daí”, diz.

O crime aconteceu pouco depois de se tornar público o seu ingresso nas listas da UDP e os autores, associados à extrema-direita, nunca foram condenados. O processo chegou mesmo a ser arquivado em 1991. Só 23 anos depois, em 1999, na sequência de um longo processo judicial, com 15 volumes e mais de 4000 páginas, foi lida a sentença. Ao Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) foi atribuída a autoria moral do atentado à bomba, mas os alegados executantes, que eram conhecidos, não foram condenados por falta de provas. Os fatos ocorridos na Cumieira tiveram repercussões em todo o país e a frase “Quem matou o padre Max?” repete-se em pichagens onde a luta política foi mais intensa.

Maximino Barbosa de Sousa foi sacerdote, professor e ativista político. Nasceu em Choupica, no concelho de Ribeira de Pena, a 28 de abril de 1943, um dos cinco filhos de pais emigrados em França, país onde absorveu, enquanto jovem, os ideais do Maio de 68.

Cumpriu a formação religiosa no Seminário de Vila Real e, em 1967, celebrou missa nova em Fátima. Seguiu a carreira eclesiástica e colaborou no setor estudantil da Ação Católica Portuguesa, em 1971. Foi professor em liceus de Lisboa, Setúbal e Vila Real, mas também no ensino para adultos na Cumieira (Santa Marta de Penaguião). Fixou-se em Vila Real após a revolução de 1974.

Desde abril de 2014 que dá o nome a uma rua na capital transmontana.

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