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Miranda do Douro

Atenor: o burro também faz voluntariado

O lugar onde os burros dormem. Foto @Rúben Castanheiro
O lugar onde os burros dormem. Foto @Rúben Castanheiro

É nos planaltos de Atenor, no concelho de Miranda do Douro, entre rochas e lençóis de água, que se situa a Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA). Dezenas de burros animam o lugar. São animais em que se destaca “a homogeneidade da espécie: fortes, corpulentos, robustos, com boa estrutura óssea, castanhos, pelo comprido e cabeça longa”, assim os define Miguel Nóvoa, principal animador da associação.

Um dos principais objetivos da AEPGA, quando foi criada em 1998, era o de “encontrar os valores naturais que pudessem ser dinamizados na região, daí trabalhar e potencializar o Burro de Miranda”, conta Miguel Nóvoa, médico veterinário, licenciado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e na associação desde 2002. Hoje, os burros de Miranda andam nas bocas do mundo e são frequentemente alvo de reportagens e notícias. 

A criação de burros é integrada na “gestão da paisagem”, sendo utilizados em tarefas agrícolas, como a limpeza de lameiros ou de terrenos incultos, e para lavrar campos de batatas ou o grão-de-bico e também como origem de fertilizante para estrumar as terras.

Apoiar os criadores na gestão do livro genealógico dos animais desta raça autóctone é outra das funções da AEPGA, que se desdobra em atividades para incentivar jovens estudantes a imaginarem novos conceitos que, integrando o burro de Miranda possam aliar a agricultura à sustentabilidade, e à biodiversidade, levando a sociedade a contribuir para esses novos projetos. 

Neste campo, as campanhas de voluntariado têm um papel importante de atração de jovens como Daniela Andrade, médica veterinária de Esposende, que veio para Atenor em resposta a uma dessas campanhas e que aqui ficou, ajudando os novos voluntários a instalarem-se e tratando da comunicação da associação. 

Este ano, a principal campanha ocorre no âmbito de um programa do Corpo Europeu de Solidariedade , o ‘Erasmus +’, que oferece a jovens europeus dos 18 aos 30 anos, individualmente ou em grupo, a possibilidade de viverem uma experiência de voluntariado num país da União Europeia. Os jovens têm direito a algumas ajudas financeiras, de subsídio de alimentação e o alojamento é facultado pela organização. Há quatro vagas: duas para estrangeiros e duas para portugueses, porque, segundo Daniela Andrade, “é importante envolver a comunidade portuguesa”.

O voluntariado de longa duração é, porém, o mais querido. Conhecer os burros e os seus comportamentos, ganhar à vontade no seu trato, identificar as suas necessidades e antecipar os seus humores são tudo práticas que, diz Daniela, “requerem o seu tempo” e são a única forma dos voluntários ganharem autonomia própria e poderem dar um verdadeiro apoio à organização.

Contudo, há campanhas de voluntariado capazes de integrar qualquer pessoa que demonstre interesse nisso. Normalmente, abrem vagas para quatro voluntários, sem limite de idade, com o mínimo de 16 anos, têm a duração de uma semana e acontecem três ou quatro vezes por ano. Os voluntários acompanham o dia-a-dia do trabalho com os animais, acompanham algum tipo de comportamento anormal e verificam se é necessária alguma intervenção veterinária. Alimentam os burros, dão-lhes comida e bebida, limpam os espaços, fazem ‘as camas’ e vigiam os espaços onde os animais se sentem melhor. Além destas tarefas, fazem a manutenção do centro, contribuindo, por sua iniciativa, para que este seja “um espaço mais verde”, diz Daniela Andrade. 

A hora da alimentação coloca sempre em alvoroço esta espécie. Foto @Rúben Castanheiro
A hora da alimentação coloca sempre em alvoroço esta espécie. Foto @Rúben Castanheiro

“Levar um abraço de um burro dá muita confiança” 

A adaptação a este dia-a-dia depende de cada pessoa. Umas, vindas do litoral com pouco contacto com a realidade do meio rural e interessadas em conhecer algo diferente, começam, habitualmente, por ter mais receio da proximidade com os burros, pois nunca tiveram grande contacto com um animal de grande porte. Mas à medida que vão conhecendo os comportamentos e os sinais que o burro dá, ao fim de uns dias, já se sentem mais tranquilas junto dos burros. É um processo rápido e facilmente se entra na rotina. 

Carolina Valentim, de Vila Praia de Âncora, é uma jovem estudante de mestrado em Direito, na Universidade de Coimbra, que decidiu fazer um ano sabático e dedicar-se à vida campestre e à experiência com o burro. A procura de uma mudança de ares e o desejo de “preencher um amor antigo pelos animais”, trouxe-a até Atenor, através da Associação Juvenil de Deão. Optou pelo voluntariado “dentro de portas” porque acha importante conhecer, antes do estrangeiro, o que de melhor há no território nacional e a realidade do interior do país. Em Teixeira, que fica a 2,4km de Atenor, vai vivendo esta aventura. A receção e o acolhimento das pessoas da terra levaram-na a participar no Cantar dos Reis pela aldeia de Teixeira. 

Na fase de adaptação, havia uma certa estranheza. Sentia-se como um peixe fora d’água, porque não tinha noção para onde ia, nem como iria ser. Depois da fase de ambientação, de arrumar as bagagens, concluiu que não havia melhor sítio para estar. Nos primeiros quinze dias da sua estadia, a maior conquista de Carolina foi dominar “quase todos os nomes dos burros”. 

“O que faz toda a diferença são as pessoas e o gosto com que recebem quem vem de fora. “Mas levar um abraço de um burro, dá muita confiança, vontade de ficar, de fazer mais e melhor”, conta Carolina, que valoriza “a paz do planalto” como forma de alcançar um “enriquecimento pessoal”. Vai ficar nove meses e depois regressará ao seu mestrado. Se tiver oportunidade, apadrinhará um burro. Mas infelizmente o seu burro preferido – o “Guimarães” – não está disponível para apadrinhamento. Incentiva todos a virem visitar os burros e trazer-lhes um miminho, mas o seu apelo é este: “Apadrinhem-nos, mas venham cá ver os vossos ‘afilhados’, pois é aqui que se percebe que eles são uma marca identitária do território mirandês”.

Os momentos de fraternidade entre burros e voluntários, tornam estas iniciativas mais enriquecedoras. Foto @Rúben Castanheiro
Os momentos de fraternidade entre burros e voluntários, tornam estas iniciativas mais enriquecedoras. Foto @Rúben Castanheiro

ATENOR, MIRANDA DO DOURO

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