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FMUP em Mogadouro

Ateu ou cristão, qualquer um frequenta esta missão

Para entrar na Missão País, não é preciso ser-se católico praticante. Basta levar consigo a fé e o espírito de serviço. A iniciativa é desenvolvida em várias universidades e quer “inspirar gerações a viver a fé católica em missão”. Entre 11 e 18 de fevereiro, 59 jovens universitários viveram em Mogadouro, no distrito de Bragança, onde desenvolveram trabalho voluntário no lar de idosos e no centro infantil. O 7MONTES recolheu testemunhos de quem viveu esta experiência por “dentro” e de “fora”.

É por momentos de alegria e de emoção que os jovens encaram a missão. Foto © Rúben Castanheiro
É por momentos de alegria e de emoção que os jovens encaram a missão. Foto © Rúben Castanheiro

Pedro Branco e Catarina Carvalho foram os responsáveis pela logística e organização desta semana de missão que trouxe a Mogadouro, um grupo perto das seis dezenas de jovens, quase todos estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). Pelo meio, há ainda estudantes de Psicologia, das engenharias ou até de Comunicação, de diferentes universidades da região do Porto. Pedro e Catarina têm percursos muito diferentes e chegaram à missão por caminhos diversos.

Pedro é de Arraiolos, tem 24 anos e está a estudar Astronomia Astrofísica, na Universidade de Ciências do Porto. A sua primeira missão foi em 2020, e nessa altura dizia-se ateu, ou seja, a religião não lhe dizia nada. Tinha a intenção de fazer voluntariado, só não sabia como. A Missão País foi-lhe apresentada por amigo ’missionário’, que antes já o tinha incentivado várias vezes a ir à missa. E aceitou o convite para o que acabou por ser “uma semana de voluntariado intensa”.

A primeira reação foi de “estranheza”, sobretudo por estar com um grupo de pessoas católicas. Sentia um “chamamento” para algo mais. Durante essa semana, deu-se uma transformação total em Pedro. Diz mesmo que esse tempo foi o “início do seu percurso de fé”. Começou a ver a Igreja com outros olhos. Inseriu-se na comunidade do Centro de Reflexão e Encontro Universitário – Inácio de Loyola (CREU-IL) dos jesuítas, no Porto. Começou a ir à missa, fez a formação para o crisma. Durante um ano, procurou saber mais, interrogar-se e falar com padres. A partir daí fez-lhe sentido a presença de Deus e a falta que Ele fazia na sua vida: “Faltava-me algo e não dava conta”.

Hoje tem um grande carinho pela missão, pois deu-lhe “sentido” à vida. Deixou de “estar na vida só por existir” e começou a pensar que as pessoas devem viver com algum propósito. Em relação ao ritmo de oração dos ‘missionários’, diz que “estão todos no mesmo barco de espiritualidade”, embora uns terão evoluído mais rapidamente do que outros.

Já Catarina Carvalho é do Porto, tem 22 anos e está no quinto ano de Medicina, na FMUP. Participa na Missão País desde que entrou para a universidade, sendo este o seu quinto ano.  Conheceu a missão através de primas que já a tinham feito e que diziam ter de certa forma transformado as suas vidas. Isso levou-a a pensar em entrar na missão para a conhecer. Nos três primeiros anos, foi uma ‘missionária regular’, não tinha propriamente responsabilidades de logística. No ano passado, foi chefe de serviço, o que significava que teve de preparar a casa para acolher os ‘missionários’, cozinhar e fazer as limpezas. Agora foi chefe geral, o que implicou manter os contactos para a comunidade.

Este ano foi mais desafiante, devido à escolha de uma nova localidade depois de três anos seguidos de missão em Montalegre. Para valer a pena virem para o distrito de Bragança foi preciso falar com as pessoas da terra, explicar o conceito do projeto, e ao princípio nem tudo correu bem. Pensaram em desistir e ir para outro lugar, mas a persistência levou à colheita de “muitos frutos”. A escolha de Mogadouro vem na linha da preferência pelo interior e foi vista como uma “experiência enriquecedora” para os ‘missionários’. Permitiu o afastamento do dia a dia habitual e funcionou como uma forma de entrega à comunidade que vinham servir. “No interior, as pessoas estão mais isoladas, precisam de companhia e a ação consegue ser mais proveitosa”, refere Catarina.

Diz ainda que a missão muda completamente a vida dos que nela participam porque os ensina-os a viver a vida com outra perspetiva e, no fim da missão, quem participa ganha uma atitude para com os outros completamente diferente. “Passar uma semana a servir o outro, os outros, sem qualquer outra preocupação” fomenta a “abertura de espírito de ajuda ao outro”, conclui Catarina.

“Uma experiência extraordinária”

 

Martim Quitério e os restantes missionários, durante a visita a uma casa. Foto © Rúben Castanheiro
Martim Quitério, ao centro, juntamente com os restantes missionários, durante a visita a uma casa. Foto © Rúben Castanheiro

Segundo o 7MONTES apurou, a maioria dos jovens entrou para missão, através do “passa a palavra” de amigos ou familiares. Sejam quem seja que lhes falou da Missão País, a verdade é que  e todos se sentiram bem acolhidos pela simpatia e boa receção dos habitantes de Mogadouro.

Martim Quitério é de Aveiro, tem 21 anos, e é estudante de Medicina. Optou por não participar nos dois primeiros anos, mas acredita que a missão faz sentido. “Foi uma experiência extraordinária”, refere. A tarefa de Martim concentrou-se no “porta-a-porta”: com mais oito ou nove ‘missionários’ ia à casa das pessoas da vila, batia-lhes à porta e conversavam, fosse na rua ou na varanda. Quando eram convidados, entravam mesmo em casa das pessoas para lhes fazer companhia.

Um dos receios de Martim era não saber como seria o acolhimento, por ser o primeiro ano da missão em Mogadouro.  “Surpreendentemente, as pessoas foram muito recetivas e acolhedoras e a maioria estava muito à vontade para receber e ficar na conversa” com o grupo de jovens que lhes batia à porta. Martim diz que se “lhe enche o coração”, por ver que “arranca um sorriso” a uma pessoa que está sozinha e se abre para contar a sua história de vida e falar da sua experiência. “É sempre bom fazer companhia, nem que seja por pouco tempo”, refere.

Inês Cerqueira, à esquerda, em conversa com uma idosa, juntamente com outros missionários. Foto © Rúben Castanheiro
Inês Cerqueira, à esquerda, em conversa com uma idosa, juntamente com outros missionários. Foto © Rúben Castanheiro

Inês Cerqueira é de Vila do Conde, tem 22 anos, e como Martim, está em Medicina. Participou em várias iniciativas de voluntariado a nível internacional. Com o objetivo de “levar amor às pessoas e multiplicar as oportunidades de contacto”, decidiu fazê-lo no seu país. “Feliz e realizada”, é como se sente, por ter ido em busca do “desconhecido”. Em Mogadouro esteve com as crianças de algumas creches. Achou interessante, embora o seu objetivo inicial fosse o de trabalhar no lar, acabou por trabalhar com a faixa etária oposta. “Foi um desafio”, acrescenta Inês, pois não estava preparada para tal. “As crianças são um poço de ingenuidade, porque tudo o que fazem é reflexo daquilo que sentem”, refere.

Apesar da conversa não ser completamente fluida, as pequenas ações, os pequenos sorrisos e os pequenos olhares permitiram aos missionários interagirem com elas. A visita à Unidade de Cuidados Continuados foi um ponto alto da semana, algo que “aqueceu o coração dos ‘missionários’” pela relação que se construiu entre os mais novos e os mais velhos.

Maria Bacelar é do Porto, tem 18 anos, e frequenta o CREU-IL, um centro animado pelos jesuítas. Decidiu inscrever-se naquela que é a sua primeira missão, como forma de poder fazer voluntariado. Ao contrário de Inês, Maria nunca saiu do país para realizar trabalho voluntário, mas não descarta essa possibilidade, sobretudo a de o fazer como médica num país em desenvolvimento. Esteve no lar São João de Deus, onde se “enriqueceu” e “aprendeu”. No início, a experiência foi desafiante, porque não se sentia totalmente à vontade a falar com os idosos, mas “um sorriso, um aperto de mão, por vezes bastava para que os seus olhos brilhassem”.

Maria Bacelar, ao centro, num dos momentos de fraternidade entre os estudantes e os idosos. Foto © Rúben Castanheiro
Maria Bacelar, ao centro, num dos momentos de fraternidade entre os estudantes e os idosos. Foto © Rúben Castanheiro

“A presença de missionários pode trazer benefícios aos idosos”

A diretora do lar São João de Deus, Ana Carvalho, educadora social há cinco anos, diz ser “gratificante” poder receber jovens no lar, e reconhece que o contacto deles com os idosos é muito estimulante para estes. Apesar de ser um grupo grande que lhe entrou pela instituição adentro, tudo se passou com grande “conforto” e a presença das crianças constituiu um tempo de grande animação. Ana Carvalho tem pena que as crianças não visitem mais vezes o estabelecimento porque é “a reação dos idosos, quando estão com elas” é fantástica.

“A presença do grupo de missionários pode trazer benefícios aos idosos, não só emocionais, espirituais e sociais, mas também, através da interação social, de conforto e oportunidades de diálogo”, diz a diretora, “além de desafios”, pois, apesar do lar ser uma instituição católica, nem todos os idosos são católicos ou têm a mesma opinião sobre a religião.

Quem esteve quase sempre no lar foi a estudante do primeiro ano de psicologia, Eduarda Barbosa. Eduarda é de Braga, tem 18 anos e alguns dos seus amigos que participavam na missão diziam-lhe tratar-se de uma experiência incrível que tinha mudado a vida deles. “Senti isso neles, eu via a sua alegria”, disse Eduarda ao 7MONTES. Conhecia-os de um grupo de jovens ligado à Igreja e queria sentir o mesmo que eles. Inscreveu-se na missão, pela vontade de experimentar e fazer voluntariado de forma diferente. O contacto direto com as pessoas também a cativou. Em Mogadouro passou um dia na Unidade de Cuidados Continuados. Por estudar psicologia, queria saber se era capaz de encarar a história de vida das pessoas naquele contexto e como iria responder às situações que iria encontrar. Nem sempre correspondeu da melhor maneira. No entanto, foi-lhe útil perceber quanto as pessoas são diferentes e como as abordagens têm de variar de pessoa para pessoa.

Gabriel Valente é da Murtosa, tem 19 anos, e estuda Engenharia Eletrotécnica, no Instituto de Engenharia do Porto (ISEP). Este foi o seu segundo ano de missão. A anterior tinha sido uma experiência incrível e não hesitou em voltar a inscrever-se. Desde a infância que participa em atividades de voluntariado. O voluntariado é uma experiência “diferente porque há contacto direto com as pessoas que se pretende ajudar”, diz Gabriel para quem a missão não mexe só com as pessoas por onde passam, mas mexe com os próprios ‘missionários’. “Parece que vamos missionar, mas nós é que somos missionados”. A sua experiência em Mogadouro passou pelo convívio com pessoas com deficiência acolhidas no Espaço Mais. A “felicidade” que eles sentem, segundo Gabriel, “Não há dinheiro nenhum no mundo que a possa comprar” o facto de se ser testemunha da “felicidade que eles sentem” nas atividades desenvolvidas.

A Missão País regressa a Mogadouro em fevereiro de 2025 e depois voltará ainda no ano seguinte, dado que é costume manter-se durantes três anos seguidos no mesmo local.

A sincronia entre os jovens e os idosos, tornam os momentos ainda mais inesquecíveis. Foto Foto © Rúben Castanheiro
A sincronia entre os jovens e os idosos, tornam os momentos ainda mais inesquecíveis. Foto © Rúben Castanheiro

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