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Classificado pela FAO

Barroso: há seis anos Património Agrícola Mundial

O Barroso foi classificado, há seis anos, como Património Agrícola Mundial, uma distinção única no país que “enche de orgulho” um povo que manteve inalteradas, durante séculos, as práticas e rituais de exploração dos recursos. As entidades locais esperam, no entanto, que o selo vá além do reconhecimento e pedem mais apoios das instituições públicas.

Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) atribuiu selo ao Barroso em 2018. Foto DR

“As tradições que o Barroso mantém na relação com o ambiente em atividades como a agricultura, a silvicultura e a pastagem” estão na base do reconhecimento pela Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) do território que compreende os concelhos de Montalegre e Boticas, no distrito de Vila Real, como Património Agrícola Mundial. A distinção, atribuída em abril de 2018, foi a primeira e única a classificar um espaço rural português.

A FAO argumentava então que, do ponto de vista cultural, “os habitantes do Barroso desenvolveram e mantiveram formas de organização social, práticas e rituais que os diferenciam da maioria das populações do país em termos de hábitos, linguagem e valores”. “Isso resulta das condições endógenas e do isolamento geográfico, bem como dos limitados recursos naturais que os levaram a desenvolver métodos de exploração e uso consistentes com sua sustentabilidade”, acrescentava aquela organização das Nações Unidas.

Do lado dos produtores, a Cooperativa Agrícola do Barroso, com sede em Montalegre, que se dedica a apoiar a atividade agrícolas em zonas rurais, reconhece que o certificado “veio acrescentar valor aos produtos do Barroso”. Nuno Sousa, que preside à organização, admite ao 7MONTES que, apesar da certificação das Nações Unidas, há produtores que “ainda não perceberam a importância deste selo” na promoção do território.

Em termos práticos, no âmbito do Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), este Património Agrícola Mundial, único em Portugal, permite aceder a duas medidas de apoio financeiro a áreas comunitárias (baldios) e a produtores agrícolas e pecuários. Esta mais-valia, que “compensa diretamente quem está no território”, é, também, para o presidente da COOPBARROSO, uma forma de responsabilizar os agentes locais, determinantes para a manutenção deste selo.

 

Autarcas pedem mais apoio aos agricultores

No Barroso, os autarcas locais reconhecem a importância do selo, mas querem uma majoração dos apoios aos agricultores. Fernando Queiroga defende que o selo de Património Agrícola Mundial “é motivo de orgulho”, sublinhando a importância da classificação atribuída pelas “mais-valias que traz à região”. Nesse sentido, o território, segundo o autarca de Boticas, “atrai cada vez mais visitantes pelas caraterísticas únicas dos produtos endógenos de grande qualidade, como a Carne Barrosã ou o Mel de Barroso”.

Já Fátima Fernandes, presidente do município de Montalegre, em declaração ao 7MONTES, refere que o distintivo da FAO “significa o reconhecimento de um trabalho secular que aliou o conhecimento empírico à modernidade”, baseado no “respeito pela natureza, saber ancestral e resiliência”. Desejava, contudo, que o selo fosse “mais valorizado pelas instituições nacionais e europeias”, e que o incremento de alguns apoios diretos “não é suficiente, dado o custo inerente à produção em territórios mais desfavorecidos”, como este.

Numa viagem recente ao Parlamento Europeu, em Bruxelas, onde foi recebida pela eurodeputada e membro da Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural, Isabel Estrada Carvalhais, a autarca pediu “uma majoração dos apoios concedidos ao Barroso para a valorização do território e das comunidades”. Também foi solicitada uma audiência com o novo ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, a quem irá pedir um “olhar atento” para a região.

“Esta marca distintiva deve ser objeto de outro olhar, designadamente em relação aos baldios”, reclama. Os territórios comunitários, mais comuns no Norte do país, são áreas de propriedade coletiva que servem de pasto permanente para os produtores pecuários. Fátima Fernandes lamenta que na Europa “não percebam este registo territorial” quase exclusivo de Portugal. “Temos de sensibilizar os eurodeputados para esta realidade. Os subsídios aos territórios em que prevalece o minifúndio devem ser atribuídos em termos de produção e não de área”, defende.

Recentemente, o concelho foi afetado pela redução de quase 40 por cento da área de baldio elegível para efeitos de apoios à pecuária. A autarca lembra que a floresta, que contempla áreas de baldio, “também é importante para os produtores”, e que o selo da FAO “diz respeito a todo o sistema agro-silvo-pastoril”.

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