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Entre 26 de dezembro e 1 de janeiro

Bemposta: o chocalheiro manso virou bravo

Chocalheiro de Bemposta, Foto @ Rúben Castanheiro
Chocalheiro de Bemposta saiu à rua. Foto © Rúben Castanheiro

O ‘Chocalheiro de Bemposta’ saiu mais uma vez à rua. Foi de porta em porta e em cada casa fez uma vénia. Quem o viu passar, e este ano foram muitos, deu uma esmola aos mordomos. No final, tudo o que é a esmola reverte para a igreja. O chocalheiro fez o percurso pela aldeia e seguiu para Lamoso, outro lugar ali bem perto. O chocalheiro saiu à rua a 26 de dezembro e no dia 1 de janeiro. Nos dois dias é sempre a mesma coisa. A diferença é que no 26 é o manso e no dia 1 é o bravo. O manso é o fim de um ciclo, neste caso, fim do ano. O bravo simboliza o começo do ano.

Manso, ou bravo, mete sempre medo. A sua máscara infunde respeito. “É um ato de respeito, os miúdos têm medo, é normal, e é bom que tenham medo porque é uma tradição que desde pequenos, ano após ano, os marcará para toda a vida”, assume Vítor Curralo, um dos dirigentes da Associação Maschocalheiro de Bemposta, para quem o importante é que esta saída do chocalheiro continua a ser “um ritual feito pela comunidade”, pois, quando deixar de o ser, “esta tradição acaba, deixa de fazer sentido”.

“Assustadoras, misteriosas e fascinantes são as máscaras que andam à solta no inverno transmontano” escrevia o Expresso em 2022, citando a autarquia de Mogadouro. “A máscara mais antiga está no Museu de Etnologia de Lisboa e há outra réplica na Bélgica”, completa Vítor Curralo. O ritual tem raízes milenares e continua a “transformar pacatos rapazes em diabos, chocalheiros, zangarrões e caretos”.

Paulo Silva, emigrante e habitante da aldeia de Bemposta, teve a sorte de “apanhar o diabo” há cerca de vinte anos atrás, através das “mandas”, leilão em que a pessoa que licitar mais alto, oferecendo a quantia mais elevada, fica com direito a vestir-se, ou mandar outro, vestir-se de chocalheiro. Descobrir quem está por detrás do “mangão do diabo” é uma das expectativas que rodeia o ritual.

Já a Armando Silva, também habitante de Bemposta, calhou fazer de ‘guia’, há duas décadas, ou seja, ficou encarregue de guiar o ‘chocalheiro’, uma vez que o diabo é cego. A adrenalina que se sente ao participar desta tradição, que move o diabo entre a rua da Muga e a rua da Aparecida, é algo que só o povo de Bemposta consegue expressar e explicar.

A máscara do ‘Chocalheiro de Bemposta’ “tem duas maçãs, que simbolizam o fruto proibido e duas laranjas nos ‘cornos’, que significam abundância” vai explicando Vítor Curralo, “tem também uma serpente, que é um animal diretamente ligado à fertilidade e que está enroscada no sentido dos ponteiros do relógio, simbolizando a contagem do tempo”. Mas não acaba aqui a simbologia da máscara: “também tem pelos, que têm a ver com a passagem da adolescência para a fase adulta, e os queixos têm a forma de testículos”. É por isso que “quando o chocalheiro, ao correr e ao andar, se agarra aos queixos, dá a entender que, na passagem da adolescência para a fase adulta, fica pronto a constituir família”.

O fato que enverga dá pelo nome de ‘mangão’. Na parte traseira, leva uma bexiga de porco que significa riqueza. Tem desenhado um diabo ou, por vezes, uma caveira. E lá está, de novo, a serpente. “O ‘chocalheiro’ anda sempre com uma tenaz, de forma a poder defender-se, caso as pessoas se metam com ele e leva, na parte da frente do mangão, umas bolas a enfeitar, com o símbolo da Igreja, que é a cruz”, aponta Vítor Curralo que lembra “o chocalho tem três funções: ‘chocalhar’ as raparigas; avisar que se aproxima o mascarado e espantar os maus-espíritos”.

Chocalheiro de Bemposta. Foto © Rúben Castanheiro
Chocalheiro de Bemposta. Foto © Rúben Castanheiro

BEMPOSTA, MOGADOURO

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