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Alunos estrangeiros em Vila Real

Brasileiros na escola: a língua é a mesma, as dificuldades não

Alunos de nacionalidade brasileira são mais frequentes entre os estrangeiros nas escolas de Vila Real. Foto DR

A maioria dos alunos estrangeiros a estudar no Distrito de Vila Real vem do Brasil. Há, no entanto, uma forte presença de jovens oriundos de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). A língua pode ser um fator de inclusão, mas as diferenças culturais são barreiras com que os jovens em idade escolar esbarram com facilidade.

Na Escola Secundária Camilo Castelo Branco, em Vila Real, em 937 estudantes do ensino diurno e recorrente há 85 alunos estrangeiros (quase 10 por cento do total). Mas o que mais espanta é existirem, entre estes, 26 nacionalidades. Neste antigo liceu nacional a diversidade cultural vai desde a Suíça, Bélgica, França e Luxemburgo, até à República do Togo, Síria, Paquistão, Rússia, Índia, Perú, Nigéria, Argélia, Colômbia, Cuba, Geórgia, Marrocos e Vietname.

O país de origem maioritário é, com larga vantagem, o Brasil.  E desengane-se quem pense que a língua portuguesa que une os dois países separados pelo Atlântico, não é um obstáculo. “À partida, a língua não seria um obstáculo para eles. No entanto, os brasileiros têm alguma dificuldade em entender o nosso português”, admite Helena Correia, diretora da escola, que adianta que aqueles alunos, à chegada, “pedem aos professores para falarem mais devagar”. E para entenderem bem o português de Portugal precisam de um período maior de adaptação do que, por exemplo, os angolanos ou moçambicanos.

Além disso, “há uma grande diferença no grau de exigência a que veem habituados”. Por essa razão, de início “precisam de trabalhar muito” para acompanhar os restantes colegas.

 

Escola madrasta

Elza Pinto, docente do mesmo estabelecimento de ensino, refere que, em função da região de origem, “os brasileiros podem ter maior ou menor dificuldade em entender os professores em contexto de aula”. Se, por um lado, “é verdade que o português é a sua língua materna”, por outro, “há um défice de conhecimento em relação à gramática, literatura e cultura portuguesas”.  E as dificuldades não param aqui: “Há uma série de mecanismos da língua que são muito diferentes em Portugal. Há palavras cujo significado eles não entendem. Há outras que também se usam por cá, mas têm significados diferentes no Brasil.”

A docente, que há vários anos trabalha com alunos estrageiros, lamenta que os brasileiros sejam sucessivamente prejudicados na avaliação em exames nacionais, por não se aceitar outras variantes da língua a não ser a europeia. “Eles vão aos exames nacionais, no 9º ou 12º ano, e são penalizados com erros ortográficos por usarem a forma de escrever do Brasil”, denota Elza Pinto, dando como exemplo o uso do gerúndio ou a pronominalização, em que colocam o “lhe” antes do verbo (ex.: lhe dizer, em vez de dizer-lhe).

“Isto afeta-os em termos de autoestima”, considera a responsável, que acrescenta: “Veem para um país onde, para todos os efeitos, se fala a mesma língua deles e pensam que isso lhes pode facilitar a adaptação. Pensam que podem ser bem-sucedidos, mas depois a escola é madrasta para eles”.

Além da língua, os conteúdos podem ser muito diferentes para quem vem de outro continente. “Há matérias que são muito opacas para eles, por conhecerem pouco da história de Portugal”, e, dependendo do grau de ensino, “há autores ou obras literárias que vão entroncar na história e geografia de Portugal”, como, por exemplo, Os Lusíadas.

 

Questão cultural é barreira difícil de transpor

Thais Gaia Shuller, natural do Rio Grande do Sul, no Brasil, é mãe de dois filhos de 11 e 12 anos de idade. Em Portugal desde 2022, os jovens ingressaram nas escolas de Vila Real, no quarto e quinto anos de escolaridade, já o ano letivo se tinha iniciado. “Eles entraram em outubro, mas no Brasil estavam no final do ano, que começa em fevereiro. Por isso ficaram no ano que estavam quase a terminar”, recorda a mãe.

Mais do que as diferenças linguísticas, a mudança do sistema de ensino foi o que mais marcou os jovens estudantes, já que, no Brasil, “a carga horária em sala de aula é muito menor”. “Foi tudo muito rápido, chegaram numa terça e na sexta-feira seguinte já estavam na escola. Acabou por ser um choque para eles”, lembra Thais.

A encarregada de educação, em Portugal, mas que no Brasil se designa de tutora ou responsável legal, conta que a perceção da língua, para eles, “foi mais difícil devido ao sotaque e ao uso de certas expressões”. Contudo, “em pouco tempo se adaptaram” e “eles até já falam expressões bem portuguesas”.

Mas, por mais que se fale a mesma língua, “até para os adultos a questão cultural é a mais estranha”, o que dificulta a integração. “Eles gostam muito da escola, mas nem sempre foi assim. No início tiveram algumas dificuldades. Sofreram um pouco”, adianta Thais, dando como exemplo o caso do filho mais velho, que entrou diretamente para o quinto ano, um patamar de mudança significativas, com muitas disciplinas comparativamente ao 1º ciclo. Já o mais novo, que chegou no quarto ano, “teve mais tempo para se adaptar”.

De todas, “a língua portuguesa é a disciplina mais difícil”, considera. A culpa é das estruturas gramaticais, “que são bem diferentes”, ou do uso das segundas pessoas nos verbos: “o vós não existe na nossa prática diária. É muito difícil aprender para quem não está habituado a falar daquele jeito”.

A assimilação dos conteúdos e adaptação à língua não é a única dificuldade por que passam os alunos estrangeiros. Há preconceito e alguns comentários, por parte de colegas, que podem complicar a integração. “Como é evidente, eles já sofreram alguns preconceitos. Tinha vezes que, em vez de chamarem pelo nome, os colegas lhes diziam: ó brasileiro. E o problema não é usar a nacionalidade para chamar alguém, porque isso não é ofensa, o problema é o palavrão que vinha a seguir”, – lamenta a encarregada de educação, que continua: “por vezes ficavam muito chateados, mas depressa aprenderam a lidar com isso”.

Thais salienta, também, a “falta de preparação de alguns professores para gerir as diferenças culturais”, admitindo, porém, que “não é fácil lidar com quatro ou cinco nacionalidades diferentes dentro da sala de aula”. “É preciso que os professores tenham alguma sensibilidade para estas questões”, reconhece.

Todavia, defende que “o ensino português tem de se adaptar a esta nova realidade”. “Se Portugal quer ser um país acolhedor de emigrantes, as comunidades que os recebem, tal como o ensino público, têm de estar preparadas. É óbvio que se os alunos estrangeiros são integrados na escola pública é porque os pais querem que eles aprendam a língua e se adaptem ao modo de vida português”, finaliza.

Na Escola Secundária Camilo Castelo Branco, em Vila Real, há 85 alunos estrangeiros.

Aplicações e telemóveis a favor da inclusão

Com alunos de outras nacionalidades, que não a brasileira, o trabalho “foi igualmente desafiante”, lembra a diretora da escola, principalmente “por não falarem a nossa língua”. Neste caso, os alunos têm aulas de português fora da componente letiva “até melhorarem o entendimento da língua” na sua vertente falada e escrita.

Até ganharem à-vontade no uso da língua portuguesa o problema subsiste no contexto de sala de aula normal em que os conteúdos são dados totalmente em português. Helena Correia dá como exemplo o acolhimento recente de alunos sírios, em que durante as aulas os professores e os colegas tentaram, na medida do possível, realizar alguma comunicação com recurso a tradutores digitais. “Socorremo-nos de tudo para que os alunos, o mais rapidamente possível, possam aprender o português. Enquanto isso não é possível, os professores e também os colegas da turma tentam por intermédio do inglês utilizar as aplicações de telemóvel para que os alunos estrangeiros consigam acompanhar a matéria”, recorda, sublinhando a importância do “objetivo maior”: conseguir o mais rapidamente possível que “o aluno compreenda e fale português, para assim entender os conteúdos”.

Apesar de tudo, a diretora denota que “de uma forma muito saudável” os alunos de outras nacionalidades estão a ser “paulatinamente inseridos na cultura e na língua portuguesa”, referindo, aliás, que “há trabalhos e atividades em que conseguem manifestar a sua própria cultura”. “Há um intercâmbio muito grande que beneficia todas as nacionalidades”, finaliza.

A tendência é semelhante em outros estabelecimentos de ensino. Num dos maiores agrupamentos de escolas do Concelho de Vila Real, a frequência de alunos estrangeiros é maior no ensino pré-escolar e 1º ciclo. No agrupamento Morgado de Mateus, por exemplo, uma em cada cinco crianças é de outra nacionalidade. Através de e-mail, a direção da escola informa que a nacionalidade brasileira é a mais frequente, mas, nos últimos anos, “há número crescente de alunos oriundos de outros países e ainda de alunos de outras etnias”, facto que “promove a interculturalidade”.

Já nos concelhos de Vila Pouca de Aguiar e de Chaves, no mesmo distrito, por serem menos populosos, o número de estudantes estrangeiros em todos os graus de ensino é tendencionalmente menor, embora significativo em termos de percentagem. Em Vila Pouca de Aguiar, onde há 1.200 alunos a frequentar o ensino obrigatório, do pré-escolar ao secundário, há apenas 62 alunos (5% do total) de 13 nacionalidades, cerca de metade oriunda do Brasil. Número que parece pequeno, mas que levou a escola de Vila Pouca de Aguiar a criar um Gabinete Integrar para Incluir (GIPI).

Também em Chaves, seguindo o padrão registado noutros concelhos do distrito, na Escola Secundária Fernão de Magalhães, a maior do concelho, há 48 estudantes estrageiros, entre o 5º e 12º ano, num universo de cerca de 900.

De acordo com o último relatório do Conselho Nacional de Educação (Estado da Educação 2022) no ano letivo de 2021/2022, eram 79.796 os alunos estrangeiros que frequentavam o ensino básico em Portugal continental, o que representava um acréscimo de 13.993 alunos relativamente ao ano letivo anterior. Deste modo 9,3 por cento dos alunos que frequentavam o ensino básico tinham nacionalidade estrangeira. No mesmo ano letivo 26.059 alunos estrangeiros frequentaram o ensino secundário no Continente, representando 7,9 por cento da população total e tendo registado um acréscimo de 3 502 alunos face ao ano letivo anterior. Ou seja, nas escolas do continente em 2021/2022 estudavam 105.855 jovens de nacionalidade estrangeira.

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