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Pitões da Júnias, Montalegre

Centro Interpretativo do Lobo Ibérico: para lá do ‘lobo mau’

Inauguração do Centro Interpretativo do Lobo Ibérico aconteceu a 19 de janeiro. Foto CM Montalegre

Não há mais de 400 lobos em Portugal, se não forem muito menos. Mas o lobo continua a ter um lugar particular no imaginário rural. Sobretudo a norte do rio Douro, em zonas perto da fronteira com Espanha, onde se concentram a maioria das alcateias. Para documentar a história desta espécie ameaçada e da sua relação com o homem, nasceu na semana passada, em Pitões das Júnias, concelho de Montalegre, o Centro Interpretativo do Lobo Ibérico

Além de apresentar as várias tipologias de fojos de lobo (armadilhas que as populações construíam para dizimar as alcateias) existentes na região do Barroso, no centro interpretativo é possível observar o lobo ibérico como espécie selvagem, parte integrante da paisagem e na sua relação com o homem, ontem e hoje.

O novo equipamento pretende, nas palavras da presidente da Câmara de Montalegre, Fátima Fernandes, “trazer uma nova atratividade para o território”, promovendo “o turismo e a investigação” e constitui uma “mais-valia para a valorização da espécie”. Hoje ainda é preciso, segundo ela, “contrariar a figura do lobo mau que nos incutiram desde pequenos” e afirmar que “não se trata de uma figura diabólica, mas de uma espécie selvagem que já existia no território antes da ocupação humana”, embora seja também necessário garantir “uma maior proteção do pastoreio”.

O Centro Interpretativo do Lobo Ibérico resultou de um investimento de mais de 300 mil euros, comparticipados a 85% por fundos comunitários, no âmbito do NORTE 2020. Está localizado em Pitões das Júnias, aldeia de montanha, sede de uma freguesia com 153 habitantes (Censos 2021), localizada a mais de 1.100 metros de altitude.

Espaço serve para documentar a história desta espécie ameaçada e da sua relação com o homem.

Território tem marcas de séculos de perseguição ao lobo

Com um enquadramento paisagístico único, de morfologias distintas, Pitões das Júnias é uma das aldeias mais visitadas do concelho de Montalegre e de todo o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG).  Prova de que o lobo desde sempre andou por estas serras é o número considerável de fojos de lobo, nas mais diversas tipologias, que marcam um passado de perseguição, batidas e caça do animal.

Ainda hoje são comuns os conflitos entre as comunidades rurais e os lobos, predadores de topo dos ecossistemas ibéricos e uma ameaça para a atividade agropastoril. Segundo o Grupo Lobo, em virtude da escassez das presas naturais, como os veados e cabras montanhesas, os animais passaram a alimentarem-se quase exclusivamente de animais domésticos. “Esta situação conduz à intolerância do lobo e à sua perseguição pelas comunidades rurais, o que colocou esta espécie em perigo de extinção no nosso país”, informa a organização.

Segundo a Liga para a Proteção da Natureza, em Portugal, esta espécie encontra-se distribuída apenas no Centro-Norte e Norte do país com duas populações distintas. Uma no território a norte do rio Douro, de maior dimensão, abrangendo cerca de 50 alcateias, que corresponde a 250 lobos (de acordo com dados do Censo Nacional de 2019/2021 do ICNF), que vivem em comunidade com a grande população do lado espanhol. Outra a sul do Douro, mais fragmentada e abrangendo apenas cerca de 10 alcateias e isolada das restantes populações. O efetivo populacional em Portugal variará entre os 200 e os 400 indivíduos, representando cerca de 15 por cento da população ibérica.

Fojo do Lobo do Avelar, em Montalegre. Foto CM Montalegre.

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