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Filandorra - Teatro do Nordeste

Companhia “é exemplo da coesão regional na área da cultura”

Perto de completar 40 anos, a Filandorra – Teatro do Nordeste é uma companhia que reside e resiste no interior transmontano, onde a cultura “é um bem essencial”. Dirigida por David Carvalho, é um “exemplo de coesão na área da cultura”, num ano em que completa as 90 produções e mais de 5.000 espetáculos.

Elenco de Filandorra na estreia de "O Cerejal"
Elenco de Filandorra na estreia de “O Cerejal”. Foto DR

“O povo de Trás-os-Montes gosta muito do teatro. Faz parte da sua identidade cultural. E as autarquias, ao sentir que as pessoas gostam dos espetáculos teatrais, nos auditórios, nas ruas, nas aldeias, até nas feiras, chamam a Filandorra para dinamizar alguns eventos. Sem as autarquias, seria muito difícil manter este projeto”, reconhece David Carvalho, o principal mentor e diretor da companhia de teatro de Vila Real que já não anda longe dos 40 anos.

A Filandorra quer ser um “polo de dinamização cultural” e por isso desenvolve atividade descentralizada em mais de duas dezenas de municípios da região, com atividades itinerantes dirigidas às escolas e ao público em geral, espetáculos que saem diretamente do reportório da companhia. Já é muito mais do que era quando nasceu em 1986 a partir do Teatro de Ensaio Transmontano, integrando o Centro Cultural Regional de Vila Real, um espaço cultural sediado no centro da capital transmontana, de que em 1992 autonomizou.

David Carvalho lembra como nasceu o projeto, a começar pelo nome, “Filandorra”, que remete para a etnografia do Nordeste transmontano e “é verdadeiramente transmontano e culturalmente forte”. Foi inspirado numa obra publicada por Benjamim Pereira, sobre máscaras portuguesas, sobretudo da região, em que fala da Filandorra, com origem em Rio de Onor, Bragança. “A Filandorra está personificada num homem, vestido de mulher, com saia de burel, mamonas e um napperon de renda que esconde uma máscara. Ele surge a fiar a roca. Filandorra significa filar a Orra, do latim”, explica Carvalho.

Este peculiar mascarado surge inicialmente em Zamora, na Espanha, em festividades da Semana Santa. A personagem acaba por resvalar, por transumância, para a zona raiana de Rio de Honor. “Gostei do nome porque se traduz numa personagem enérgica e bailadora, que no Nordeste aparece nas festividades de dezembro e no Carnaval. Era um nome feminino, sonante e, por isso, ficou. É essa personagem que dá o nome à companhia. E esse nome está carregado de significado cultural”, reconhece.

Elenco da companhia Filandorra – Teatro do Nordeste. Foto DR

Formado em teatro, na década de 80, pela Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, e mais tarde em Paris, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, David Carvalho estava determinado em regressar à terra Natal para fundar uma companhia de teatro. Diz o próprio: “Sendo eu um jovem de cá [Vila Real], que gostava de teatro, faço formação na capital, mas há esse desígnio de tornarmos o interior mais ativo culturalmente, de democratizar e descentralizar. A Filandorra tem muito a ver comigo, porque fui o seu fundador e o criador, mas não estou sozinho. O teatro é, de resto, uma arte coletiva. Além do encenador e do diretor, há todo um conjunto de atores e de colaboradores.”

Hoje, na companhia cruzam-se atores com vários anos de experiência e jovens que vão saindo das universidades e das escolas profissionais para continuar um percurso que conta com 90 criações, muitas delas de teatro dirigido ao público infantil e de autores canónicos da literatura portuguesa. “Pegamos nos jovens espectadores a partir das escolas. Com autores reconhecidos, estudados enquanto literatura que depois passa a teatro, como Frei Luís de Sousa, Almeida Garret, Camilo Castelo Branco, Gil Vicente, etc… apostamos no reportório de autores consagrados. A nossa atividade assenta, por isso, na divulgação de autores dramáticos nacionais e clássicos universais e ainda na divulgação de textos para a infância e juventude, voltados para o desenvolvimento e a criação de novos públicos” – resume o diretor, que, neste âmbito, lançou com os escritores A. M. Pires Cabral, Marília Miranda e Alexandre Parafita uma linha de criação de nova dramaturgia centrada nos valores de identidade cultural Transmontano – Duriense.

Mas a companhia de teatro “não se aburguesou”, não perdeu o hábito de “ir ao terreiro das aldeias” e de se aproximar das pessoas. “O teatro é uma arte de fácil comunicação, muitas vezes feito nos largos, nas juntas, nos salões paroquiais e nas igrejas das pequenas comunidades… O teatro deu-nos este calor humano que não queremos perder”.

Protocolos com municípios compensam falta de apoio estatal

David Carvalho, diretor e encenador
David Carvalho, diretor e encenador. Foto © Filipe Ribeiro

No panorama atual das artes performativas, a Filandorra assume-se como “um condutor do desenvolvimento local” através da dinamização e sensibilização cultural das populações do Nordeste. David Carvalho lamenta, no entanto, a falta de apoios do Estado nesta área, em particular dirigido a companhias aqui sediadas e lembra o último concurso da Direção-Geral das Artes, em que a companhia, apesar de elegível, ficou de fora do financiamento. “Há uma descontinuidade do apoio na área cultura, o que é lamentável. Uns anos há, outros anos não há. É como ir a exame, tirar 15 ou 16, e depois não passar”, exemplifica.

Considerando a importância da cultura em municípios de baixa densidade, o diretor defende que, da mesma forma que a enfermagem e os cuidados de saúde são levados aos territórios mais deficitários, “também o elemento cultural de comungar com as comunidades é muito importante e deve ser mantido”. Vale, aqui, o apoio dos municípios do interior, que têm viabilizado o funcionamento da companhia, principalmente em anos em que os apoios estatais não chegam. “Sem as autarquias – repete – seria muito difícil manter a Filandorra neste momento.”

Até porque ter uma companhia de teatro obriga a manter um número mínimo de elementos. Neste caso, um total de 15 colaboradores, sendo 11 permanentes do quadro efetivo. “Não se podem criar reportórios nem reagir a um mercado tão grande geograficamente, sem ter um corpo de atores coeso. Da mesma forma que não se faz um jogo de futebol sem 11 jogadores em campo, também há mínimos para fundar companhias permanentes”, defende David Carvalho.

E terá sido essa permanência e a excelência a ela aliada que levaram a Secretária de Estado do Desenvolvimento Regional, Isabel Ferreira, a referir-se a julho do ano passado, em Freixo de Espada à Cinta, no centenário de Guerra Junqueiro, à Filandorra, como “exemplo da coesão regional na área da cultura”.

Outro aspeto da utilidade pública da companhia é a aposta na formação: “Formamos muitas pessoas ao longo do ano, através de escolas de teatro, a funcionar em Vila Pouca de Aguiar, Vinhais, Freixo de Espada à Cinta, e estão em desenho mais dois ou três polos de formação. Além disso, nos projetos com a comunidade, damos formação em trânsito, através de workshops que permitem uma relação muito próxima com os espetadores”.

Passados quase 40 anos da sua constituição, a Filandorra orgulha-se do reportório heterogéneo que oferece e como através dele promove a formação de novos públicos e consolida a sua posição no panorama regional renovando a rede de protocolos culturais que estabeleceu com grande parte dos municípios das regiões transmontana, duriense e até beirã.

VILA REAL

 

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