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Paróquias de Jales caminham para criar laços

Comunidades vizinhas aprendem a “rezar com os pés”

Dezenas de fiéis de cinco paróquias participaram na peregrinação ao Santuário de Santa Isabel, em Jou, concelho de Murça. “Rezar com os pés” foi o lema da iniciativa lançada há 13 anos pelo padre Iolando Pereira para criar laços entre as comunidades das paróquias que tem a seu cargo. A última vez foi antes da pandemia, mas este ano voltou-se a caminhar.

Iolando Pereira é o pároco de Carva, Vilares, Alfarela, Vreia e Tresminas. Foto © Filipe Ribeiro

Ordenado em 2005, o Padre Iolando, de 47 anos, tem há quase duas décadas a responsabilidade de se desmultiplicar para chegar a tempo às diferentes celebrações que dinamiza nas cinco paróquias das Terras de Jales. Embora umas se situem do lado de Murça e outras do lado de Vila Pouca de Aguiar, a verdade é que, até meados do século XIX, as cinco constituíam a totalidade de um concelho. “As pessoas destas terras são todas muito parecidas na forma de ser”, partilha Iolando Pereira.

Natural do Pópulo, em Alijó, as missas dominicais que o pároco celebra em Carva, Vilares, Vreia de Jales, Alfarela de Jales e Tresminas estão dispersas pelo fim de semana. “Umas são ao sábado e outras ao domingo”, confirma, aludindo ao facto de algumas paróquias distarem, umas das outras, quase uma hora de viagem. A deslocação é feita sempre de carro por estradas municipais e o padre vê com agrado algumas melhorias que, ora as câmaras, ora as juntas de freguesia, vão realizando com o passar dos anos.

Defende uma Igreja aberta à comunidade, menos clerical. “Nós, sem os paroquianos, não somos nada. A Igreja não é só o padre. Ela não faz sentido sem as pessoas”, refere o pároco, dando como exemplo a iniciativa que organiza regularmente e que não envolve, apenas, pessoas que frequentam regularmente a igreja.

Admite, também, que há paróquias com um número reduzido de fiéis em territórios do interior do país, mas vê com muita dificuldade a redução de algumas missas dominicais. Em vez disso, é da opinião de que os leigos assumam mais responsabilidades nas paróquias. “Nós temos o nosso papel, enquanto padres, mas também queremos que os leigos sejam mais participativos. E participar na Igreja não é só ajudar na missa”, diz.

Grupo de Granja de Jales participou, na sua maioria, pela primeira vez. Foto © Filipe Ribeiro

Disso sabem as mulheres que se levantaram de madrugada com fé em participarem na peregrinação. A hora de saída e o local de encontro – no cimo da aldeia – para o início da caminhada, estavam marcados há vários dias. Mais para trás ficam os dias em que decorreram os ensaios para cantar no final da peregrinação o hino da aldeia de Granja de Jales, no concelho de Vila Pouca de Aguiar. O hino foi difícil de afinar pois já andava esquecido na memória ténue dos habitantes locais, na sua maioria idosos.

Vencendo os tempos e os contratempos, às 7h45 de sábado, dia 25 de maio, pela fresca, metia pés ao caminho um grupo de cinco mulheres que, à exceção de uma, se estreavam nas peregrinações das Paróquias de Jales. Esta é, desde 2011, a sexta que o padre convoca e a primeira após a pandemia. Tal como as anteriores peregrinações, tem por objetivo fomentar a confraternização entre as comunidades religiosas que são animadas pelo mesmo pároco. E mobiliza centenas de fiéis em romagem aos santuários da região. Podiam ter como destino, de modo rotativo, a igreja paroquial de outra comunidade. Mas não: o destino têm sido os santuários habitualmente situados em lugares ermos e altaneiros. O último foi à Nossa Senhora do Extremo (Vila Pouca de Aguiar).

“Na missa, o padre pediu-nos para rezarmos com os pés” – lembra Maria de Fátima, de 70 anos, que participa no encontro pela primeira vez – “Vamos andando e vamos rezando, em silêncio”. No mesmo grupo segue Maria da Conceição, de 68 anos, que já esteve nas cinco peregrinações anteriores. Conta que o caminho é sempre difícil, mas, para ela, “vale a pena o sacrifício”. “É a fé que nos move!” – explica.

“Rezar com os pés” é uma expressão associada à peregrinação a Fátima. O agora cardeal Tolentino Mendonça, no livro “Hipopótamo de Deus”, escreve, em referência aos peregrinos, que “a parte mais importante dos quilómetros que percorrem não está em nenhum mapa: eles caminham para um centro invisível onde pode acontecer o encontro e o renascimento”.

Primeira paragem foi em Ribeirinha, para o pequeno-almoço. Foto © Filipe Ribeiro

“O que Deus criou não deve o homem destruir”

Animado e de mochilas às costas, o grupo prossegue: “Não se esqueçam de vestir casaco. Na passagem pelo ribeiro faz mais frio”, alerta a mais experiente do grupo que, à frente, vai desbravando caminho por entre os trilhos da floresta: “despachem-se, senão vamos chegar atrasadas ao pequeno-almoço”.

O primeiro reforço da manhã, que aguardava os vários grupos em romagem, é servido na aldeia da Ribeirinha, a cerca de dois quilómetros a pé de Granja de Jales. Os mais distantes vinham da União de Freguesias de Carva e Vilares, no concelho vizinho de Murça. À chegada à Ribeirinha já levavam, nas pernas, mais de 10 quilómetros. Emília, da paróquia de Carva, saiu às seis da manhã, e Brígida, de Vilares, meia hora depois: “É um esforço que fazemos com todo o gosto. Já tínhamos saudades destes convívios” – contam as peregrinas, enquanto se abastecem de água e de bola de carne, servida num largo, à entrada da aldeia, em mesas improvisadas.

O padre Iolando, que acompanhou o primeiro grupo até à Ribeirinha, depressa se fez notar entre a multidão: “Vamos, vamos, senão atrasamos a missa. Já são nove da manhã”. Enquanto ajuda a distribuir o café, vai apressando as suas gentes. Em pouco tempo, arrumam-se as lancheiras, põem-se os casacos aos ombros e o grupo, agora maior, volta a fazer-se ao caminho.

Depois da passagem pelo ribeiro que separa os dois concelhos, uma subida íngreme até à aldeia de Penabeice desafiava os caminheiros. Ao longe, já se vislumbrava o Santuário de Santa Isabel, em Jou, num local ermo, mais elevado na paisagem. A caminhada estava, no entanto, longe de terminar.

“Era desta aldeia o casal que morreu naquele grande incêndio de há dois anos”, revela o Padre Iolando, em ritmo apressado, explicando as razões deste trajeto. “Quisemos que a mensagem deste ano fosse sobre a natureza. Este incêndio ceifou vidas, destruiu a agricultura e a paisagem destas aldeias. O que Deus criou, o homem não pode destruir. A natureza deve-nos fascinar, não podemos destruí-la”, reflete o pároco.

À medida que o grupo avança, o cenário torna-se mais desolador. Meses depois da tragédia, o trabalho de retirada do material lenhoso consumido pelas chamadas foi-se multiplicando, deixando a descoberto a paisagem inerte. Onde existia uma mancha contínua de pinhal, há agora um descampado onde é visível, apenas, terra queimada e alguns vestígios de pinheiros carbonizados que não foram retirados.

Peregrinos percorreram zona afetada pelo incêndio de 2022. Foto © Filipe Ribeiro

Conviver, partilhar a mesma mesa e cantar

Além do lema que acompanhou os fiéis, neste ano, o objetivo da peregrinação é igual a todas as outras: “Queremos envolver as comunidades e promover o convívio. Nestas caminhadas temos a parte da oração, que é muito importante, mas depois também há um momento de estarmos uns com os outros, de convivermos, de almoçarmos e de cantarmos. Quisemos, sobretudo, regressar às tradições das nossas aldeias”.

Recuperar o hino de cada uma delas é, para Iolando Pereira, “restituir parte da identidade cultural” de cada uma, que se vai perdendo à velocidade do envelhecimento populacional. “Há aldeias onde já só restam meia dúzia de pessoas. Como vamos preservar e respeitar a sua memória, quando desaparecerem?”, questiona o sacerdote.

Chegados, finalmente, ao santuário, foi hora de celebrar. Primeiro com missa campal pelo pároco de Jou, Marcelo Rodrigues, que iniciou a cerimónia com atraso. Depois, o tão aguardado almoço, com as mantas estendidas no chão e os farnéis espalhados pelos lugares à sombra – poucos para tantos fiéis – no santuário.

As cantigas tradicionais e os hinos de aldeias e freguesias foram animando a tarde ao ritmo das concertinas. O grupo de Granja de Jales foi vencendo a timidez e humedeceu as gargantas para dar voz ao hino que há muito se perdera e que reza assim: “E viva a terra da Granja / Somos um povo acolhedor / Recebemos toda a gente / Com simpatia e amor // E viva a Granja / Terra sem par / Tem um bercinho / Lindo, lindo de encantar”.

Finalmente, o convívio encerrou com a interpretação do tema “Lava, lava, lavadeira”, pela freguesia de Tresminas. Do lado da assistência, eram poucos os que não sabiam de cor a letra da cantiga que remetem para os seus tempos de juventude. E, assim, um dia de confraternização também serviu para avivar memórias.

Grupos entoaram hinos das aldeias durante a festa. Foto © Filipe Ribeiro
Centenas de fiéis juntam-se no santuário e assistem à festa. Foto © Filipe Ribeiro

Deitei meus olhos ao rio
Para ver teu brio
Estavas a lavar
(bis)

Lava, lava lavadeira,
Estás na brincadeira
Estás a namorar
(bis)

Minha mãe mandou-me à fonte,
Buscar água fresca
Para ela beber
(bis)

Encontrei meu namorado
Sentou-se ao meu lado
Foi lá para me ver
(bis)

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