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Azeite DOP Trás-os-Montes

Cooperativas dizem que o preço do azeite “é justo” para os produtores

Em Trás-os-Montes os olivais começam a adaptar-se à mecanização. Foto © Filipe Ribeiro

Os grandes produtores de azeite em Trás-os-Montes, com Denominação de Origem Protegida (DOP), admitem que o aumento substancial do preço nos últimos meses aconteceu “num curto espaço de tempo” e provocou alvoroço no mercado. Mas o preço atual “é justo para o produtor”. Sobretudo porque o azeite DOP da região é produzido em regime extensivo que nada tem a ver com a produção intensiva que é predominante no Alentejo.

A escalada do preço “começou um junho do ano passado” e está diretamente relacionada com a “falta de água na primavera em determinadas regiões, em particular na Andaluzia”, região de Espanha que é responsável por colocar no mercado “cerca de 40 a 45 por cento da produção mundial de azeite”.

Francisco Vilela é presidente da Cooperativa de Murça. Foto © Filipe Ribeiro

Francisco Vilela, da Cooperativa dos Olivicultores de Murça lembra que países periféricos da europa, como a Turquia ou a Tunísia, que são importantes produtores mundiais, “proibiram a exportação em grosso para fora do país, o que agudizou ainda mais a questão do preço”.

“Normalmente temos um ano de boa produção seguido de um ano de contra-zafra. A partir do momento que se previu, em 2023, que havia escassez de água e a floração não era boa, os grandes grupos começaram a comprar e a antecipar problemas de abastecimento no mercado”, explicou o dirigente associativo.

Outra situação que contribuiu para a subida do valor do azeite foi “a conjuntura mundial inflacionista”, resultado do pós-pandemia e das guerras no mundo, “a que a agricultura não está imune”. “Os custos subiram: o gasóleo, os fitofármacos, a mão de obra… tudo subiu. E o azeite não foi exceção”, conta.

Ainda assim, Francisco Vilela considera que “o valor é inteiramente justo”. “Os estudos indicam que o valor do azeite, numa agricultura de montanha, como a nossa, deve andar acima dos dois euros por litro. O valor atual é justo, principalmente numa cooperativa em que 80 por cento do valor das vendas vai diretamente para os bolsos dos agricultores. Só há sustentabilidade do setor se existirem produtores”, acrescenta.

A Cooperativa dos Olivicultores de Murça, que comercializa azeite certificado “Porca de Murça”, tem, atualmente, cerca de mil associados e na última colheita recebeu mais de três milhões de quilos de azeitona, de que resultou uma produção de meio milhão de litros de azeite. “Somos uma família grande, mas com pequenos produtores”, refere.

 

DOP é garantia de qualidade

Cooperativa produz meio milhão de litros de azeite. Foto © Filipe Ribeiro

“A aposta deve ser na qualidade e não na quantidade”, indica Francisco Vilela, que defende a mais-valia da DOP Trás-os-Montes, uma denominação que identifica um produto originário de um local ou região que assenta num caderno de especificações e com determinadas propriedades organoléticas. No caderno de especificações da DOP Trás-os-Montes estão, por exemplo, as quatro variedades mais comuns (verdeal, madural, cobrançosa e cordovil), “para manter estável o perfil do azeite”.

Estas indicações geográficas permitem definir “as práticas agrícolas comuns, tradicionais da região”, estabelecendo um conjunto de regras de produção, “para que todos criem um produto semelhante”, num território em que não é possível a cultura intensiva do olival. No entanto, “é preciso comunicar devidamente ao cliente que a DOP Trás-os-Montes é uma garantia de qualidade” e que, por essa razão, “tem um custo mais elevado”.

Outra propriedade do azeite DOP Trás-os-Montes é a estabilidade oxidativa, “o que faz com que o produto dure mais tempo”. “O azeite não é como o Vinho do Porto, que fica melhor com a idade. O azeite, com o tempo, rancifica. E o azeite que tem mais estabilidade é o de Trás-os-Montes porque é feito, sobretudo, com as quatro qualidades da DOP”.

Gama de produtos da marca Porca de Murça. Foto © Filipe Ribeiro

Francisco Vilela defende que as ajudas (e não subsídios) do Estado e da União Europeia devem ter em conta o modo de produção em Trás-os-Montes, em que cada árvore deve ter uma área de proteção de 24 metros quadrados e “não há um compasso de intensificação da produção”. “O que se pretende é que seja um olival em regime extensivo, mas esse modo de produção tem um custo acrescido”. Daí que os produtores sintam um “descontentamento generalizado em relação à Política Agrícola Comum”, pelo facto de não considerar os custos de uma agricultura mais sustentável, do ponto de vista ambiental, mas “com menores resultados”.

 

Mais hectares, mas menos produtivos

Paulo Ribeiro é presidente da AOTAD. Foto © Filipe Ribeiro

A mecanização do olival, em particular nas plantações mais recentes, tende a mitigar os custos de produção, em particular da mão de obra, mas, mesmo assim, em termos de custos, “nada tem a ver com a cultura que existe no sul do país”, considera Paulo Ribeiro, presidente da Cooperativa de Olivicultores de Valpaços, que também preside à Associação de Olivicultores de Trás-os-Montes e Alto Douro (AOTAD), entidade gestora da DOP, que abrange uma boa parte dos concelhos rurais, com produção olivícola, dos distritos de Vila Real e de Bragança.

Esta cooperativa, a maior da zona DOP, com 1800 associados, coloca cerca de dois milhões de litros de azeite no mercado, parte dos quais certificado, sob a marca “Rosmaninho”, que “é identitária da região” e que “dá uma garantia de qualidade” ao consumidor. Aqui trabalham, a tempo inteiro, 15 pessoas, mas na altura da transformação do azeite em azeitona o número de trabalhadores sobe consideravelmente.

A produção, em Valpaços, já foi maior, mas Paulo Ribeiro admite que “o olival tem aumentado no concelho, embora seja menos produtivo, por hectare, do que era antigamente. “As oliveiras são mais pequenas porque estão preparadas para a colheita mecânica, não têm tanta copa, logo a produtividade é menor. Há menos olivicultores, mas com uma área maior, porque se profissionalizaram”, explica.

O responsável considera que o aumento do preço do azeite foi “significativo”, mas “não deixa de ser justo” para regiões como a de Trás-os-Montes. “Este azeite tem o custo que tem porque é bom e obedece a um conjunto de regras, que são uma mais-valia para nós e para o consumidor. Em cada garrafa ou garrafão há um número que identifica o lote e a proveniência do azeite”, refere.

Cooperativa de Valpaços vende azeite certificado sob a marca Rosmaninho.

Paulo Ribeiro lamenta, no entanto, que o público não consiga, por vezes, distinguir um produto de Trás-os-Montes, certificado com o selo DOP, de outro que está no mercado, muitas vezes porque “há uma usurpação da marca”, o que gera confusão no consumidor. “Nós somos o maior produtor de azeite da DOP Trás-os-Montes, mas há quem coloque à venda azeite com a indicação de Valpaços, Murça, do Douro ou mesmo de Trás-os-Montes sem qualquer certificação. Para ser DOP tem de ter o selo. As pessoas têm de perceber a diferença, porque um azeite sem o selo, ainda que diga que é de cá, pode vir de qualquer lado, até de Espanha”, acrescenta o dirigente.

A valorização deste azeite no mercado tem sido um desafio, mas Francisco Vilela simplifica: “quem consumir azeite DOP está a consumir sumo de fruto 100 por cento natural, porque é feito só de azeitonas espremidas, com benefícios para a saúde”.

Com uma produção da ordem das 140 mil toneladas, estima-se que Portugal seja o sétimo maior produtor mundial de azeite e o quarto da Europa, atrás de Espanha, Itália e Grécia. A produção nacional tem crescido ligeiramente, a cada ano, impulsionado, sobretudo, pelos olivais em regime intensivo do Alentejo. “A última campanha nacional, de 2023/2024, foi a segunda maior em termos de produção”, confirma o responsável da Cooperativa de Murça, adiantando que o setor “vale mais de mil milhões de euros” e, por isso, “é demasiado importante para a balança comercial do país”.

Atualmente, o preço do Azeite DOP Trás-os-Montes varia entre os 10 e os 12 euros por litro.

Linha de engarrafamento da Cooperativa de Valpaços. Foto © Filipe Ribeiro

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