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Sínodo 2021-2024

Diocese de Vila Real: nem todo o clero confia no processo de sinodalidade

Reunião de apresentação da síntese da segunda fase da consulta sinodal. Foto © Diocese de Vila Real

“Ficou patente a urgência da conversão à sinodalidade, embora se note uma certa desconfiança no processo, até do próprio clero”, lê-se na Síntese da Segunda Fase da Consulta Sinodal que a Diocese de Vila Real enviou à Conferência Episcopal Portuguesa como contributo para o relatório nacional a entregar à secretaria-geral do Sínodo dos Bispos.

O coordenador da equipa sinodal da diocese, padre Márcio Martins, refere, a propósito do envolvimento da Igreja local que “ainda há algumas paróquias que não têm demonstrado interesse pelo processo”, indicando que menos de 200 das 264 paróquias de Vila Real se envolveram na consulta.

O documento em que se apresentam os resultados da consulta ficou concluído na segunda semana de março, resulta das respostas enviadas pelas paróquias, secretariados diocesanos, movimentos e pela reflexão feita no conselho presbiteral e retém seis temas centrais: sinodalidade; jovens; pobres e imigrantes; doentes e idosos; o papel da mulher e dos leigos; sacerdotes.

Para caminhar no sentido de tornar o modo de ser e de viver da Igreja verdadeiramente sinodal sugere-se “a criação de espaços eclesiais de escuta de cariz sinodal, a nível paroquial e arciprestal, bem como a implementação em todas as paróquias do Conselho Pastoral”, de modo que “as decisões da vida das paróquias sejam tomadas em comunhão e partilha”. No mesmo sentido, o documento afirma ser “premente também que os Conselhos Económicos paroquiais apresentem as contas, como forma de promover um clima de confiança e corresponsabilidade nas comunidades.” A este propósito, Márcio Martins lamenta que nem todas os conselhos apresentem contas, mesmo sabendo que “há duas instâncias a quem devemos prestar contas todos os anos: ao povo e à diocese. Devia ser normal a apresentação regular de contas em todas as paróquias”, defende.

O relatório aponta para que a Igreja “deixe de ser tão clerical, burocrática e legalista e seja mais espiritual, aberta, atenta, acolhedora, samaritana e fraterna”, algo que o responsável pelo processo sinodal enfatiza, realçando a importância de alguns momentos da vida da comunidade partirem da iniciativa dos paroquianos, não estando tão dependentes do pároco.

 

Novos ministérios e novas unidades pastorais

No ponto sobre o papel da mulher e dos leigos, é referida a necessidade sentida da criação de novos ministérios, como o do acolhimento ou o da caridade, e a concretização dos recém-instituídos pelo Papa Francisco: leitor, acólito e catequista. “Há algum trabalho nas paróquias que pode ser feito por pessoas da comunidade. É complicado um padre, ao domingo, por exemplo, preocupar-se com quem vai fazer as leituras nas missas”, comenta o Márcio Martins, acrescentando, em relação ao acolhimento, que no decorrer da pandemia havia leigos a ajudar na organização dos fiéis na missa, conduzindo-as para os lugares seguros, etc., prática de acolhimento que depois se perdeu. “Era bom manter essas equipas”, diz. E o relatório reforça: “Os sacerdotes devem ser libertados de funções que podem ser exercidas por leigos, para se centrarem no essencial da sua missão.”

Uma das questões mais controversas do documento diz respeito “à reorganização do território pastoral”, com a eventual “supressão de algumas paróquias, o agrupar de outras, e a criação de unidades pastorais”. O coordenador da equipa sinodal reconhece, a este respeito, que há realidades díspares na Diocese de Vila Real. Há casos em que uma aldeia, que não é paróquia, tem muito mais habitantes do que outra, que é paróquia e onde se celebra missa todos os domingos. E “há hábitos e costumes que mudam de paróquia para paróquia, não podemos simplesmente juntá-las sem atender às especificidades culturais de cada uma”.

Daí que o padre Márcio Martins defenda que “a criação de unidades pastorais, a acontecer, tem de atender a alguns critérios”, envolvendo, inevitavelmente, as comunidades. “Não é necessário, apenas, converter o clero a essa realidade, temos também de convencer as pessoas”, refere, advertindo que a realidade atual, de despovoamento dos territórios rurais, vai obrigar a uma reflexão séria sobre a organização das paróquias.

A Síntese da Segunda Fase da Consulta Sinodal da Diocese de Vila Real servirá, em conjunto com as sínteses enviadas por todas as outras dioceses do país, para a redação do relatório que a Conferência Episcopal Portuguesa entregará a Roma no âmbito do processo que conduzirá à realização da segunda assembleia-geral do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade que decorrerá no Vaticano durante o mês de outubro deste ano.

 

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