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Paridade na pastorícia

Em Lamas, já há tantas pastoras como pastores

No concelho de Ribeira de Pena a pastorícia é uma das atividades predominantes. É um mundo de homens em que as mulheres tentam impor-se. Em Lamas, na freguesia de Alvadia, há, no entanto, paridade na pastorícia. Ao todo, são mais de uma dezena de criadoras, mulheres que sempre andaram à frente do rebanho a “arrepiar caminho”.

Cândida cuida de vacas, cabras e ovelhas e é uma das pastoras de Lamas, Alvadia. Foto © Filipe Ribeiro

Em Lamas, Alvadia, os dias deste mês de maio parecem lembrar dezembro, tal é o nevoeiro que, abraçado à chuva, esconde a montanha e humedece os lameiros. A terra, por aqui, é de pastoreio, com mosaicos verdejantes e rebanhos dispersos pela encosta da serra. Nesta época do ano, a noite dá lugar ao dia pelas 6 da manhã, mas a essa hora Cândida Gonçalves, de 45 anos, já “pensou” o gado que rumina, com parcimónia, na corte antes de sair para o monte.

“Levanto-me às 5 da manhã. Tem de ser, há muito para fazer antes de ir trabalhar” – diz Cândida, referindo-se ao trabalho numa instituição social, através da qual presta apoio domiciliário a utentes das três aldeias desta freguesia do concelho de Ribeira de Pena: Lamas, Alvadia e Favais. No seu modo de ver as coisas parece que pensar o gado não é trabalho!

A pecuária é, para ela, uma atividade complementar: “É um extrazinho”. “Tenho oito vacas galegas, algumas cabras, ovelhas e também porcos. Estes são três, são arraçados de reco bravo, mas são mansos, chamo-lhe russos”, indica a produtora, enquanto abre a cancela para mostrar animais. Todos eles têm um nome, mas os das vacas são os mais curiosos: laranja, castanha, cereja, pera, banana, amarela, janota e galega.

As cabras são “monas”, ou seja, não têm cornos. “Prefiro assim porque não turram tanto com as outras. O pior é quando elas andam a escornar. Assim não se magoam”, acrescenta Cândida, que se diz “parteira de vacas”, além de tratar da sanidade dos próprios animais: “Também dou injeções. Faço um bocadinho de tudo. Tem de ser!”.

Há 20 anos que anda “de porta em porta” pela freguesia. Em casas dos utentes, já idosos, “dá um jeito à casa”, remedeia-lhe o almoço e às vezes até lhes vai cavar a horta. “Faço o que eles precisam. Eu sou como uma família para eles”, refere. No final do dia, pelas seis da tarde, antes de em casa adiantar o jantar vai tratar do gado, nas cortes, que “come todos os dias, como nós”.

Silvina cuida de oito vacas maronesas e conta com a ajuda do marido para guardar 200 cabras. Foto © Filipe Ribeiro

À saída da aldeia, prestes a recolher uma manada de gado maronês, encontramos Silvina Carvalhinha, de 32 anos. Há 12 que acompanha as vacas no monte, um trabalho “duro”, ao qual já se acostumou. “É sempre duro, mas temos que fazer alguma coisa pela vida”, refere a produtora, que lamenta os apoios escassos para esta raça autóctone. Além das vacas, que são oito, mantém um rebanho de 200 cabras de raça bravia, mas aí conta com a ajuda do marido.

Cândida casou aos 16 anos, era jovem, mas não se arrepende. O marido trabalha na construção e, sempre que pode, vai ajudá-lo. Tem “duas filhas e um netinho”. Depois de casar, há quase 30 anos, ainda emigrou para a Bélgica, onde esteve durante quatro anos a trabalhar na agricultura. “Aprendi de tudo, sei andar de carro, trator, mota e bicicleta, não há nada com rodas que me meta medo”, conta Cândida, com o habitual sorriso que a acompanha no dia a dia: “das cinco da manhã às onze da noite é sempre a andar!”.

Ao todo, na aldeia, estão registadas 12 criadoras de animais, entre vacas, cabras e ovelhas, mulheres “de pulso” que retiram o domínio nos homens no que ao gado diz respeito.

Em Lamas, aldeia de Ribeira de Pena, há tantos pastores como pastoras. Foto © Filipe Ribeiro

 

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