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Dia Nacional dos Moinhos

Em terra de moleiros, já não se mói o grão como antigamente

Moinho de António Machado está na família há três gerações. Foto © Filipe Ribeiro

Diz o provérbio que “duas pedras duras não fazem farinha”. Na linguagem dos moleiros, não há ditado mais verdadeiro. “É necessário uma pedra mole sobre uma dura para que se possa moer os grãos que depois se transformam em farinha”, conta ao 7MONTES António Machado, moleiro em part-time que vive em Telões, no concelho de Vila Pouca de Aguiar.

Conhece, como a palma das mãos, aquele moinho instalado sobre o Ribeiro dos Moinhos há quase 200 anos. Mas António nunca foi moleiro a tempo inteiro. Nem ele, nem as gerações que o precederam. Dominavam, no entanto, a arte de ajeitar a mó, o pouso e o rodízio, peças principais de um complexo sistema de moagem cuja origem remonta ao século IV AC.

O moinho foi mandado erguer pelo bisavô de António, numa época de intensa produção agrícola. Desde que a água corresse no ribeiro, não havia dia ou noite em que o tramelo não se ouvisse. Nascido numa família de lavradores, a arte de António seria, todavia, diferente. Era escriturário. Dedicou parte da vida à fábrica de aglomerados de madeira da Tabopan que na década de oitenta do século passado labutava sem cessar, ali bem perto, na mesma freguesia onde nascera.

A Tremonha, o Tramelo e a Mó. Foto © Filipe Ribeiro

Durante décadas, o moinho serviu para abastecer de pão a casa agrícola no centro da aldeia. “Este moinho sempre esteve na família. Trabalhava para as despesas da casa, que era grande e tinha muitos animais”, refere o proprietário, de 76 anos, recordando os três alqueires de pão por semana que a mãe cozia para dar sustento aos trabalhadores que cultivavam as terras. Entre as mós eram predominantemente feitos em farinha os grãos de milho e de centeio, mas também os de cevada e de trigo. E ainda havia espaço para a grainha de uva que, depois de seca, era triturada para dar aos porcos.

Ao todo, “eram oito os moinhos de água” que, sobre o ribeiro que lhes deve o nome, transformavam o cereal em farinha até meados do século passado, “num tempo em que não havia padarias, nem panificadoras”, complementa Luís Sousa, presidente da Junta de Freguesia, onde, conta, também existia uma azenha, um moinho de roda. Hoje, restam apenas dois que, em funcionamento, servem para dar a conhecer o ciclo do pão aos mais novos e… para pouco mais.

Todos os anos, por ocasião do Dia Nacional dos Moinhos (7 de abril), a Rede Portuguesa de Moinhos promove a iniciativa “Moinhos Abertos”, uma forma de “dar a conhecer uma instalação que está cada vez mais em desuso, pela diminuição da pequena agricultura ou agricultura de subsistência”.

As escolas, mas também o público em geral, visitam por estes dias os dois moinhos de Telões, numa “oportunidade única de mostrar o processo que antecede a feitura do pão”, num fim de semana de portas abertas em que António aproveita, também, para moer uma ou duas sacas de milho, a pedido dos vizinhos. “Vou aproveitar para moer um saco, já que está a trabalhar”, acrescenta, em jeito de fim de conversa, enquanto deita o grão na tremonha.

Moinho de Telões tem quase 200 anos e ainda trabalha. Foto © Filipe Ribeiro

A saber…

: pedra circular que gira e mói o grão;

Pouso: pedra ou mó de baixo;

Rodízio: peça do moinho de água que faz rodar a mó no qual estão presas as penas;

Tramelo: peça que liga à tremonha que roda sobre si e gira com o movimento da mó fazendo trepidações para facilitar a saída do grão;

Tremonha: caixa em forma de pirâmide triangular invertida onde se deita o grão;

Alqueire: caixa aberta de madeira utilizada para medir quantidades de cereal. Corresponde, conforme as regiões e o cereal, entre 11 e 15 quilos de cereal.

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