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Tradição de Quaresma

Encomendação das almas ecoa nas noites da aldeia de Carlão

Mulheres de Carlão juntam-se nos pontos mais altos para cantar às almas. Foto © Filipe Ribeiro

Uma dúzia de mulheres vestidas de negro, de tochas em punho na penumbra da noite, reza e canta no ponto mais alto da aldeia de Carlão, concelho de Alijó, para, de forma audível, reduzir as penas das almas que sofrem no purgatório. O ritual repete-se aos sábados ao longo da Quaresma. É a encomendação das almas – uma tradição ancestral, de base popular, mas profundamente religiosa, que ainda se mantém em algumas localidades transmontanas.

A tradição foi reavivada em 2019, depois de uns anos em que caiu em desuso, graças a um grupo de mulheres que se junta durante a Quaresma, aos sábados à noite, para “cantar às almas”. “Queremos preservar esta tradição que é muito antiga”, diz António Oliveira, presidente da Junta de Freguesia de Carlão e Amieiro.

O envelhecimento da população e o êxodo rural, sobretudo por causa da emigração, têm “deixado cair” algumas tradições que, para o autarca, “importa preservar”.  “Temos pouca gente, que é maioritariamente idosa, e as tradições vão-se perdendo. Estes costumes vão desaparecendo, mas é importante preservar as tradições antigas”, ressalva.

Os conceitos de céu, purgatório e inferno fazem parte da religiosidade popular e estão muito enraizados nos meios mais rurais. É neste espaço que o ritual da encomendação das almas se mantém enquanto prática de culto, para “interceder pelas almas dos antepassados que estão a sofrer no purgatório”. Tradicionalmente, os grupos que percorriam a aldeia em oração eram mistos, ou só de mulheres. Vestidos de negro, saíam de casa a altas horas da noite e paravam em vários pontos da aldeia para rezar em conjunto. “Pede-se a salvação das almas do purgatório, para que passem à Glória”.

Isaura é uma das impulsionadoras do grupo. Foto © Filipe Ribeiro

Isaura Diogo, que lidera o grupo de uma dúzia de mulheres, a sua maioria ainda jovem, lembra que a oração, em locais elevados, tem por intenção primeira “pessoas que sofreram mortes trágicas ou repentinas e, na agonia, não tiveram tempo para se preparar para a passagem para o outro mundo”.

Para que a oração seja audível em toda a aldeia, o grupo percorre os sítios mais altos, que devem ser “em número ímpar” (cinco, sete ou nove) e “sem nunca andar para trás”. “Costumamos subir às fragas ou a sítios altos, onde as pessoas não nos vêm, mas de onde somos bem ouvidas”, lembra Isaura.

Antigamente, na aldeia, havia vários grupos de oração que incluíam também homens. “Hoje, infelizmente, não temos nenhuma voz masculina que nos acompanhe. Não porque não possam participar, mas porque, apesar do apelo, não querem”, acrescenta.

A encomendação das almas em Carlão acontece até à Quinta-Feira Santa (noite em que se cantam os martírios) e não é rezada no Sábado de Aleluia (dia 30 de março) por este já fazer parte das celebrações de Páscoa.

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