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Para responder à realidade atual

Igreja Católica pretende “desescolarizar a catequese”

A catequese deve ser cada vez mais um processo de educação da fé em comunidade, de ensino não apenas da doutrina, em contexto de sala, mas também de abertura à vida, envolvendo as crianças e jovens nas atividades da Igreja, defende o padre Márcio Martins, responsável diocesano pela catequese em Vila Real. E estes são os objetivos do novo itinerário catequético proposto pela Conferência Episcopal Portuguesa.

Antigamente, “a primeira evangelização era feita pelos pais”, depois pelos padrinhos e pelos avós, labor que era complementado pela catequese, “para ajudar a guiar as crianças no caminho da fé”. A verdade é que hoje, as crianças “chegam à catequese como se não tivessem qualquer fundamento cristão na sua vida”. “A catequese é importante enquanto anúncio”, mas se fica por isso “perde-se aquilo que é a vivência em comunidade”, refere ao 7MONTES o padre Márcio Martins, diretor do Secretariado Diocesano da Educação Cristã em Vila Real.

Neste sentido, a Igreja propõe um novo itinerário, “que é um pouco diferente do que existia”. Passa por produzir novos conteúdos, em vários formatos, mas principalmente por “introduzir uma mudança de paradigma no que respeita à catequese”. “Os tempos mudaram. Se os catequistas partem de uma premissa errada, obviamente que o processo vai falhar. A ideia é olharmos para a catequese como um primeiro anúncio e não tanto como um complemento à educação cristã que era dada, primeiramente, em contexto familiar”, acrescenta.

Assim, este novo paradigma da catequese, segundo o responsável, “não é para desresponsabilizar os pais ou os padrinhos”, à luz do compromisso que assumem no batismo, “mas para complementar a formação”. Um dos objetivos é, essencialmente, “desescolarizar a catequese”, porque a doutrina na Igreja “não pode estar tão escolarizada e ligada tanto à escola como está hoje”.

Márcio Martins dá o exemplo do Natal e da Páscoa, períodos de forte celebração e que marcam o calendário religioso, em que as crianças, por força das férias escolares, interrompem a catequese: “Na Páscoa temos a visita pascal e um conjunto de atividades, nas quais é importante envolver as crianças e os jovens. Se temos uma catequese que, nas alturas mais fortes, fica em suspenso, então estamos a falhar na nossa missão. É uma inversão daquilo que a Igreja pretende”.

Paróquias já estão a receber os novos manuais da catequese. Foto DR

Quatro tempos no novo método para o ensino da fé

O responsável diocesano explica que o novo método, deste novo itinerário da catequese, terá quatro tempos: “Primeiro, o despertar religioso (até aos 5 anos); depois ,o tempo querigmático do primeiro anúncio, de iniciação da vida cristã (dos 6 aos 10 anos), que se conclui com a comunhão; o terceiro tempo (dos 10 aos 14 anos), que é aprofundamento mistagógico, em que se pretende que a fé não seja só teoria, mas que tenha uma dimensão experiencial; por fim, há um quarto tempo, o discipulado missionário, “o tempo da consciência da missão cristã, que terminará no sacramento do crisma”.

A Igreja pretende que esta fase final da catequese “seja uma ligação à vida na comunidade”, que não vai acontecer tanto em espaço tipo de sala de aula e que não terá, forçosamente, de ser a ritmo semanal. “Queremos ajudar os jovens a ter maior experiência cristã, como a simples visita a um idoso, a um lar, num processo de voluntariado”, refere Márcio Martins, apontando para que o ensinamento da catequese “não se resuma, apenas, a estar numa Igreja, a participar na eucaristia ou a rezar, mas fomente uma consciência missionária, de saída e de envolvimento na comunidade”.

Para apoiar esta mudança do ensino da fé estão a ser preparados novos materiais, adaptados à inversão do processo, uma vez que “os atuais já não respondem à realidade”. Do lado dos catequistas, o responsável diocesano pensava que ia haver mais resistência, mas, admitindo que “a mudança é sempre difícil”, sublinha que “a recetividade está a ser boa” pelo facto dos catequistas sentirem, ultimamente, que “os frutos colhidos da catequese já eram poucos”.

“Sabemos que os tempos mudaram. O que antigamente existia, hoje não existe. Não estou a querer diabolizar a realidade, ou este novo tempo. Ele é o que é. O que precisamos é de, neste tempo, encontrar uma nova resposta”, conclui o padre Márcio Martins.

O bispo de Vila Real e presidente da Comissão da Educação Cristã e Doutrina da Fé, António Augusto Azevedo, salientou, nas últimas jornadas de catequistas realizadas em Fátima no mês de outubro, que o novo itinerário foi “aprovado há pouco tempo pela Conferência Episcopal” e, por isso, “vai levar o seu tempo” até produzir os efeitos desejados. O bispo espera que os novos materiais possam “proporcionar aos mais jovens uma catequese mais viva” e sejam “uma proposta que vá ao encontro das necessidades da Igreja de hoje, das comunidades, desta nova geração, e também desta cultura em que [as crianças e os jovens] estão e do contexto familiar de que fazem parte”.

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