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Diretora do Festival Música na Paisagem

Matilde Loureiro: “Montesinho é um ambiente excecional para trabalhar a música”

Festival Música na paisagem acontece desde 2019 no Montesinho. Foto © Atilano Suarez

Debaixo de um enorme castanheiro, duas jovens músicas tocam uma peça de Mozart escutada por uma roda de oito dezenas de pessoas – é o Festival Música na Paisagem que desde 2019 acontece todos os anos na aldeia de Montesinho, no norte do conselho de Bragança. Em entrevista ao 7MONTES, Matilde Loureiro, diretora artística do festival, recorda como nasceu esta iniciativa que leva a música clássica aos lugares mais quotidianos da aldeia de Montesinho onde há “um ambiente excecional para trabalhar e aprender música”. Não é por acaso que este é o lugar que há quatro anos escolheu para viver com o seu marido, o pianista neozelandês, Jun Bouterey-Ishido.

 

7MONTES – Que objetivos tinham quando em 2019 se lançaram na criação do Festival Música na Paisagem?

Matilde Loureiro – A ideia inicial era trazer um grupo de músicos para a aldeia de Montesinho, num género de residência de artistas, e oferecer uma série de pequenos concertos para as pessoas da aldeia e de outros lugares, incluindo Bragança. Na altura falei sobre este projeto com a diretora do Teatro Municipal de Bragança (TMB), Helena Genésico, pensando que podíamos realizar um concerto no teatro. Ela pegou na minha ideia e, além de lhe ter dado o nome – Festival Música na Paisagem –, propôs transformá-lo num evento em Montesinho como um “concerto fora de portas” do TMB.

A primeira edição teve lugar na aldeia no final do mês junho de 2019 com vários pequenos momentos musicais ao longo do domingo. Começámos de manhã e acabámos às 19h00, tocando em diferentes espaços da aldeia. A partir daí temos realizado o festival todos os anos, mais ou menos nos mesmos moldes.

Matilde Loureiro é diretora artística do festival. Foto © Atilano Suarez

7M ­– E este ano quais serão principais características do Música na Paisagem?

M.L. – Este ano, o festival acontece a 7 e 8 de setembro [ver texto Beethoven no Música na Paisagem] vamos apresentar-nos num dia em Montesinho e no outro vamos tocar na Freguesia de Espinhosela, provavelmente na aldeia de Cova de Lua. Começámos a dar pequenos concertos em mais lugares do Parque de Montesinho. Há dois anos fui tocar, em junho, a uma escola primária de Bragança e no ano passado demos, em setembro, um pequeno concerto na aldeia de Vilarinho.

No futuro, gostávamos de tocar em mais aldeias da região e… fora do período do festival o que gostava era fazer algum trabalho com jovens e crianças que estão a aprender música. Montesinho é um sítio, um ambiente, excecional para trabalhar… o tempo aqui passa de modo diferente. Sentimos isso quando das residências: ensaiamos, depois vimos cá para fora, as coisas mudam e depois voltamos aos instrumentos… mesmo dentro de um só dia é como se houvesse vários dias, dá para digerir e aproveitar o que já está feito. E isso é bastante importante, é muito interessante, para quem está a aprender música.

7M ­– Em cinco anos de Música na Paisagem que mudanças nota?

M.L. – Mudou o sítio e mudou o público. Montesinho é uma aldeia muito envelhecida e por isso algumas das pessoas que nos acompanharam no início já não estão presentes. Mas, entretanto, outras pessoas, com ou sem ligação à aldeia, têm vindo. Isso é muito gratificante: vem gente de algumas das aldeias vizinhas, de Bragança, de Espanha e de outros países, até já tivemos, sentado no público, um casal de Israel.

Em relação à música que propomos, temos procurado oferecer sempre um programa variado, nunca é centrado apenas numa época, num compositor, ou numa instrumentação. No primeiro ano foi muito, muito, variado, depois houve um ano em que tocámos duas obras mais relacionadas (Bartók e Ravel) e já tivemos um festival inteiramente dedicado a Bach. As peças que tocamos têm também muito a ver com os músicos que acolhemos em cada ano.

Este ano vamos voltar a ter um quarteto de cordas – formação que já não apresentávamos desde 2019 – e vamos também fazer um quarteto de cordas com piano (viola, violino, violoncelo e piano) para tocar uma peça de Beethoven.

Músicos chegam de todo o lado para tocar na aldeia do Motesinho. Foto © Atilano Suarez

Músicos de todo o mundo descem à aldeia

 

7M ­– Quem escolhe os músicos?

M.L. – Sou eu. Eu escolho os músicos, mas o reportório é decido e trabalhado em conjunto. Durante meses vamos trocando ideias à distância e depois, quando nos encontramos em Montesinho, decidimos o programa definitivo. Como tenho conseguido juntar músicos que vêm de diferentes partes do mundo, por vezes não é fácil gerir diferentes expectativas e diversas formas de trabalhar. Temos convidado músicos da Nova Zelândia, de Inglaterra, França, Países Baixos… Num ano fomos oito músicos, mas habitualmente somos menos. Este ano somos cinco.

7M ­– E qual é a relação das pessoas da aldeia com os músicos e com o festival?

M.L. – Em Montesinho não há assim muito barulho, pelo que toda a gente ouve os ensaios. Nota-se logo uma diferença quando alguém está a tocar com uma janela aberta para a rua. Ensaiamos também dentro da igreja…. Enfim, é impossível passarmos despercebidos. Há umas pessoas mais entusiasmadas, outras menos interessadas. O facto de serem músicos relativamente jovens também muda o equilíbrio da aldeia. Mas somos bem recebidos. A população ajuda-nos muito, sobretudo durante o tempo da residência artística. Temos apoio nas refeições, oferta de preços de estadia reduzidos, espaços para ensaiarmos e, durante o festival propriamente dito, ajudam a preparar os sítios dos concertos e tudo o mais…

As pessoas da aldeia colaboram bastante nos dias de apresentação, no arranjo dos espaços, na receção do público, etc… Como o festival tem um lado um bocadinho artesanal – não temos palco e tocamos ao ar livre –, há sempre imprevistos. Tocar ao ar livre comporta riscos… já tivemos um trator a passar no meio de uma atuação, ou cair-nos em cima uma violenta tempestade…

7M ­– Por que razão não há mais iniciativas deste género espalhadas pelo país?

M.L. –Já há algumas iniciativas semelhantes… é verdade que o facto de eu ter uma relação com o lugar [viver na aldeia] tornou as coisas relativamente naturais, tornou tudo mais simples. Muita da atividade cultural está centralizada, o que faz com que seja difícil aos artistas saírem das cidades…

7M ­– Então, para termos mais ‘músicas na paisagem’ seria preciso que os artistas residissem, como a Matilde, na paisagem, i. é, em aldeias?

M.L. – Sim, isso faz uma grande diferença. Aqui em Trás-os-Montes conheço casos interessantes. Onde há músicos, ou outros artistas, a residir, nesses lugares nascem, depois, propostas de atividade cultural. É uma consequência, algo que vem na sequência.

Mas ainda há muitos preconceitos. Por exemplo, quando dizemos que tipo de música tocamos, as pessoas espantam-se: “Isso não é muito usual, porque nas festas das aldeias não é esse tipo de música que se ouve”. Pois não é. O que me faz um bocado de confusão, pois as bandas que vêm tocar às aldeias são ‘importadas’, não são de lá. Não é uma música do lugar. É uma indústria exterior, nem sequer é uma tradição, porque é uma moda que começou há um par de anos.

7M ­– E que apoios têm tido?

M.L. – Muito apoio da população de Montesinho, mas também do Teatro Municipal e da Câmara Municipal de Bragança, da junta de freguesia e da Antena 2, a que se juntou, este ano, a Fundação INATEL.

7MONTES é financiado pelo programa Local Media for Democracy do Journalismfund Europe www.journalismfund.eu

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