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Cerveja Judia e Gin Judio

Na serra da Padrela, há castanha Judia que se bebe

A Judia é uma variedade de castanha versátil que, em Carrazedo de Montenegro, dá origem a duas bebidas artesanais: a cerveja e o gin. A ideia é de Lino Sampaio, empreendedor e produtor do concelho de Valpaços, onde existe a maior mancha de castanheiro judio da Europa.

Lino Sampaio é produtor de castanha e criou a cerveja Judia. Foto © Filipe Ribeiro

Começámos o dia na serra da Padrela, um planalto que se eleva a mais de mil metros de altitude. Nesta montanha, por entre a pureza da vegetação e a rudeza dos afloramentos graníticos, é possível vislumbrar a maior mancha de castanha judia da Europa. A chegar a Carrazedo de Montenegro, no concelho de Valpaços, com soutos a perder de vista, somos convidados a entrar no atelier de Lino Sampaio, que pertence à quarta geração de produtores e vendedores de castanha. Dentro dos armazéns Morais e Companhia, uma das empresas mais antigas do país na exportação deste fruto seco, somos rodeados por motivos e adereços que remetem para a produção de cerveja artesanal. “A cerveja, tal como a castanha, é mesmo daqui”, lembra o produtor e empreendedor de 48 anos.

Contam os antigos que esta variedade de castanha, que se distingue pelo brilho, qualidade e capacidade de preservação, foi trazida pelos judeus em tempos que não podem precisar. Desde então, a produção foi crescendo em Trás-os-Montes, região responsável por cerca de 80 por cento da produção nacional de castanha. Trata-se de um produto de excelência, que, em tempos idos, constituía um nutritivo alimento, substituto do pão e fazendo parte da dieta dos transmontanos em tempos muito anteriores à introdução da batata.

Judia, Martainha e Longal são as variedades de cerveja. Foto © Filipe Ribeiro

Lançada em 2018, a cerveja artesanal “Judia”, com sabor a castanha, foi criada para “colocar o produto num patamar superior”. “Hoje, a castanha, enquanto produto transformado, tem um valor acrescido”, refere Lino Sampaio, que recorda “antigamente, servia para alimentar os porcos”. “Houve uma mudança drástica no consumo e no aproveitamento da castanha”, ao longo dos anos, o que faz deste produto “um dos mais valorizados” entre os frutos secos.

Na Padrela, onde os cerca de 7.000 hectares de soutos produzem, anualmente, dezenas de milhares de toneladas de castanha judia, a maioria é vendida a fresco e destina-se principalmente ao mercado externo, onde é transformada. O valor acrescido não fica, por isso, na região. São projetos como o de Lino Sampaio que permitem aumentar o valor deste produto e dinamizar a economia local.

O facto de o empreendedor e responsável pela cerveja “Judia” ser agricultor “não diminui em nada o valor do produto”, muito pelo contrário, até lhe confere maior “propriedade”. “A minha intenção foi criar algo de qualidade. Não pretendia fazer cerveja só por fazer”, refere o produtor, que tem um cervejeiro, com unidade em Vila Real, que produz a cerveja, artesanalmente, “com matérias-primas de alta qualidade”.

Inicialmente sob a marca “Judia”, Lino Sampaio “atreveu-se” a registar outros dois segmentos: a Martainha e a Longal, duas variedades de castanha produzidas em Portugal. “As coisas correram bem e a reação do mercado não podia ser melhor”, indica Lino Sampaio, que desde 2018 tem percorrido o país em feiras, festivais de cerveja e concursos de qualidade. E até já ganhou prémios: foi medalha de ouro num concurso de cervejas artesanais em 2019, na Feira Nacional de Agricultura.

A sua cerveja artesanal pode ser encontrada na internet, em lojas de produtos gourmet, distribuídas um pouco por todo o Norte do país, ou em bares e restaurantes, alguns até com estrelas Michelin, como é o caso do G Pousada, em Bragança, do chefe Óscar Geadas.

 

Não há Judia sem Judio

Gin Judio surgiu em 2023. Foto © Filipe Ribeiro

Muito recentemente, em julho de 2023, a “Judia” voltou a inovar e introduziu uma bebida nova, na sua vertente masculina: o gin “Judio”. “Ultimamente, o projeto da cerveja já não me dava o mesmo gozo que preciso para me ‘alimentar’ neste mundo da produção de castanha. Penso que, quando temos uma profissão que está ligada à natureza e ao campo, somos mais criativos do que noutra atividades. Foi nesse contexto que surgiu o gin”, conta.

Lino Sampaio sublinha que a recetividade a este novo produto foi “superior ao esperado” e que aqui, tal como na cerveja “Judia”, quis dar um cunho identitário da sua terra. No rótulo pode ver-se desde a Igreja de São Nicolau, de Carrazeda de Montenegro, à mancha de castanheiro judio e à serra da Padrela, com a silhueta da montanha. “Esta ligação ao território confere uma identidade própria ao produto”, realça.

Trata-se de um gin com uma garrafa exclusiva, que remete para o ouriço, e uma composição que inclui o zimbro, com mais de 50 por cento, como em qualquer gin, e um segundo componente que são as castanhas da Padrela. “É algo distinto e fácil de beber”, acrescenta.

De sabor característico, o Gin Judio pode ser servido simples, ou misturado com água tónica, casca de limão, hortelã ou manjericão.

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