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Atenor

No ‘santuário dos burros’ o leite vira sabonete

Bárbara Fráguas é mentora do projeto Tomelo, que vende sabonetes à base de leite de burra. Foto © Filipe Ribeiro

Atenor é ‘o santuário dos burros’. Quem o diz é Bárbara Fráguas, natural do Porto, que chegou ao nordeste transmontano em 1995 para trabalhar na área da biologia. Depressa se apaixonou “pela paisagem, pela natureza e pelas pessoas” e, desde então, fez de sua casa o planalto mirandês. E agora é ali, em Atenor, que fabrica sabonetes e cremes de leite de burra.

“Cheguei aqui há 30 anos, quando terminei o curso de biologia. Vim trabalhar na inventariação e conservação de aves de rapina, como a águia-de-bonelli, abutre-do-egito, ou o abutre-preto. São algumas das espécies mais ameaçadas”, conta Bárbara ao 7MONTES.

Seis horas de viagem, uma parte dela por Espanha, separavam o Porto de Miranda do Douro. O território, ainda inóspito e pouco conhecido, cativou, no entanto, a recém-licenciada em biologia que rapidamente se fez empreendedora. “Não havia pessoas de fora, muito menos turistas. Mas as pessoas eram muito acolhedoras, isso ajudou-me e cativou-me bastante”, acrescenta.

Pode dizer-se que Bárbara Fráguas e o marido, José Jambas, foram pioneiros na monitorização e conservação da fauna – em especial as aves de rapina – na região de Miranda e no Douro Internacional. Mas foi aos asininos que depressa se afeiçoaram. O trabalho que desenvolveu junto destes animais de raça autóctone contribuiu para a criação da Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA), fundada em 1998 para apoiar os criadores na gestão do livro genealógico do burro-de-miranda [ver 7MONTES]. “Foi graças a mim que a associação se fixou em Atenor. Acabei por ficar a trabalhar com a associação nos primeiros anos”, conta a bióloga.

 

Cosméticos naturais de leite de burra

Há sabonetes com aroma de azeite, limonete, mel, alfazema, amêndoa e lírio do vale e cremes para mãos, corpo e rosto. Foto © Filipe Ribeiro

Mas o que é a Tomelo e como surge? Bárbara Fráguas responde: “É um projeto criado em 2006, que esteve na génese de iniciativas de valorização da região transmontana, sobretudo nos concelhos de Vimioso e Miranda do Douro, que comercializa uma linha cosmética – sabonetes e cremes – à base de leite da única raça autóctone asinina portuguesa, atualmente ameaçada de extinção”.

Importa dizer que, pouco antes, o casal tinha investido na requalificação de um núcleo habitacional em Atenor – aldeia de apenas 80 habitantes – que converteram para turismo e ecoturismo. É a Casa da Ti Cura, projeto que alia o alojamento em espaço rural com a criação de animais, em especial do burro. O espaço integra, ainda, uma horta em modo biológico e um antigo pombal.  Paralelamente às casas rurais, o casal criou a Oriolus, empresa de animação turística, que organiza visitas com observação de aves em abrigos.

Loja de sabonetes da marca “Tomelo”. Foto © Filipe Ribeiro

A Tomelo foi fundada em 2006, mas apenas em 2009 surgiram no mercado os primeiros sabonetes de leite de burra. “Tínhamos visitado projetos semelhantes na França, Bélgica e Itália e tive conhecimento dos elevados benefícios deste produto”, refere Bárbara, que depois de alguma investigação, decidiu apostar na valorização do leite de burra. Na época, “ainda não havia nada do género em Portugal. Como já trabalhávamos com a raça autóctone do burro-de-miranda, contribuindo para a preservação e promoção desta raça, foi mais fácil”.

O leite “é muito importante devido à sua constituição, porque atua sobre a produção do colagénio, que é responsável pela restituição das células da pele”. Os sabonetes estão disponíveis em seis aromas diferentes – azeite, limonete, mel, alfazema, amêndoa e lírio do vale – e os cremes são para mãos, corpo e rosto.

Mas os benefícios não se ficam por aqui, já que “o leite é um excelente produto até para consumo humano”. “Em Portugal isso não existe, mas já se usa noutros países. Este leite é o mais parecido, na sua constituição, ao leite da mulher. É muito utilizado em hospitais pediátricos, quando há alergias a leite de vaca, por exemplo”, explica Bárbara, que refere que na vizinha Espanha, mesmo ali ao lado, “já se fazem queijos e iogurtes”. “Apesar de ser um leite pouco gordo, é muito bom”, finaliza.

Santuário para burros também tem um pombal tradicional do Planalto Mirandês. Foto © Filipe Ribeiro

7MONTES é financiado pelo programa Local Media for Democracy do Journalismfund Europe www.journalismfund.eu

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