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Oficina em Montalegre

O burel ganha nova vida e novas cores ao ritmo da máquina de costura

Carlos Medeiros trabalha o burel em Montalegre. Foto © Filipe Ribeiro

Na Rua do Polo Norte, em Montalegre, foge-se ao “frio glaciar” ao entrar na Oficina do Burel, um conceito de loja que reinventou um produto típico do Barroso. As cores garridas e quentes contrastam com o castanho-escuro tradicional das capuchas, capas de burel que, durante séculos, foram usados pelos pastores.

O conceito começou a surgir há 12 anos pelas mãos de Carlos Medeiros. “Sempre gostei de ‘bricolar’. Tinha muito jeito para trabalhar com as mãos”, recorda ao 7MONTES o costureiro e criador de peças originais, que vão desde saias, casacos, calções, estojos, malas, boinas e almofadas, até pequenos acessórios, como porta-moedas ou bandoletes.

Formado em animação e produção artística, pelo Instituto Politécnico de Bragança (IPB), Carlos trabalhou durante alguns anos como animador turístico e foi absorvendo a cultura e a produção artesanal de alguns locais por onde passava. “O artesanato era uma área que me fascinava”, reconhece.

A partir de uma antiga máquina Singer, da avó, que encontrou inativa em casa dos pais, o autodidata, de 41 anos, lançou-se para um mundo de tecidos e cores, que inicialmente não incluía a lã. “Comecei por fazer umas ‘brincadeiras’ com retalhos de tecidos, ajustava a minha própria roupa… mais tarde, pelo desafio de manter e reinventar a tradição, decidi apostar no burel”, acrescenta.

Antigamente, em Montalegre, como em todas as terras serranas, “cada casa tinha o seu próprio rebanho e tratava da sua lã, que transformavam em burel”. Reconhecido pela resistência e durabilidade, “as qualidades do burel provêm do seu particular processo de fabrico”, que é longo, mas que confere ao tecido características únicas. “A lã, depois de lavada, é cardada, fiada e torcida (com roca e fuso), etapas que convém serem executadas pela mesma pessoa para que o fio tenha sempre a mesma espessura e textura”. Daí segue “para tear onde é urdida”. Após a tecelagem, é colocada no pisão, uma máquina que bate e escalda a lã de modo a tornar o pano mais compacto e resistente.

A “costura com arte” surge da imaginação fértil de Carlos Medeiros, que foi disruptivo ao ponto de não ser consensual. “Há pessoas que se chocam, porque conhecem o burel tradicional das capuchas, de cor castanho-escuro. Eu trabalho mais com o vermelho, o azul, o verde, o rosa… Cores garridas que criam impacto”.

Com a abertura da loja, em 2016, com o apoio da mulher, Carlos abriu as portas do burel ao mundo. A par do território nacional, já fez peças para a Suíça, o Luxemburgo, a França e a Finlândia. Normalmente trabalha por encomenda e à medida, mas no espaço de venda que tem em Montalegre exibe peças únicas para diferentes usos. “Há um problema aqui na loja… é difícil escolher!” – ri-se o proprietário.

Depois de séculos a proteger os pastores do frio, da chuva e da neve, o burel de Montalegre ganha, agora, o estatuto de “produto de moda” para ser usado, por quem quiser, no dia a dia, conforme quiser.

Ver galeria.

Oficina do Burel tem loja e espaço de trabalho. Foto © Filipe Ribeiro

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