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Moças solteiras preparem-se

Ó diabo, vem aí o Carnaval!

É impossível traçar uma geografia completa do Carnaval em Trás-os-Montes tantos são os lugares que o vivem com grande intensidade e muita autenticidade. O Entrudo nestas terras não foi contaminado pelo seu congénere brasileiro. Vive nas figuras da morte, do diabo e do careto ou mascarado. Em alguns lugares começa logo no Domingo Magro, noutros entra pela Quarta-Feira de Cinzas.

Em várias aldeias dos municípios de Vinhais, Bragança, Macedo de Cavaleiros (sobretudo em Podence), Moncorvo, Vimioso e Montalegre e em Lazarim, no Alto Douro, os rapazes voltam a vestir-se de caretos, com máscaras e roupas coloridas. E saem à rua para ‘chocalhar’ as raparigas solteiras.

A Morte, o Diabo e a Censura já estão prontos para sair para a rua em Bragança. Foto: CM Bragança

‘A morte, o diabo e a censura’ pelas ruas de Bragança

Em Bragança, no dia 10 de fevereiro (sábado), as principais ruas da cidade enchem-se de tradição, cor, música e animação, com o Carnaval dos Caretos, no mesmo fim de semana em que o município organiza o Festival do Butelo e das Casulas. Os caretos, com os seus fatos coloridos, máscaras e chocalhos, saem às ruas para assustar as raparigas solteiras e dançar ao som de música tradicional. Os trajes típicos desta celebração são feitos por artesãos, para ocultar a identidade daqueles que dão vida aos caretos. O desfile termina com a Queima do Diabo, a acontecer no Largo do Castelo de Bragança, às 18 horas.

No dia 14 de fevereiro (quarta-feira), nas ruas do centro histórico, ‘a morte, o diabo e a censura’ saem à rua, recriando uma tradição secular da cidade. Há referências históricas desta tradição que datam de 1870. Neste dia, homens disfarçados de morte, diabo e censura perseguiam e castigavam as raparigas donzelas com cintos pelas ruas da cidade. Elas espicaçavam os mascarados e escondiam-se nas casas para impedir o castigo.

Em Podence, Macedo de Cavaleiros, os caretos saem à rua no domingo e na terça-feira, percorrem as ruas da aldeia e de terras vizinhas para ’chocalhar’ as mulheres. Também na terça-feira são representadas pelas ruas da aldeia as ‘cerimónias dos casamentos’, organizando-se verdadeiros cortejos nupciais. O ritual dos ’casamentos’ ou ‘contratos de casamento’ realiza-se ao início da noite de sábado e só termina quando a sátira tiver ‘casado’ todas as moças solteiras da terra.

Carnaval regressa a Podence. Foto: CM Macedo de Cavaleiros

Em Vinhais, escapa-se à ‘morte e aos diabos’

Na Quarta-Feira de Cinzas, em Vinhais, saem à rua os diabólicos mascarados, chamados diabos, e a terrífica personagem da morte, que é única e só sai neste dia. Anda sempre acompanhada por um séquito de diabos e executa rituais que lhe são exclusivos. O povo acompanha toda a movimentação destes personagens e vai-se divertindo com as suas artimanhas.

Ainda no concelho de Vinhais, em Vila Boa de Ousilhão, os ‘máscaros’ que outrora animavam a Festa de Santo Estevão, nos dias 25 e 26 de dezembro, agora saem à rua no Domingo Gordo e na Terça-feira de Carnaval. Antigamente, no Santo Estevão, os ‘máscaros’, ou caretos, percorriam as ruas da aldeia e faziam as suas habituais tropelias. O dia terminava com a ‘galhofa’ e um baile tradicional. Os caretos continuam com os seus rituais, agora no Carnaval. Atuam em regra em pequenos grupos que, dispersos por diferentes locais, acabam por tomar conta da aldeia à procura das suas vítimas, as moças solteiras.

Em Alfândega da Fé são esperadas centenas de foliões para celebrar o Entrudo nas ruas da vila. Haverá dois dias de desfile e um conjunto de iniciativas para as celebrações do Entrudo que, neste ano, tem como tema principal os 50 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974.

Ainda no distrito de Bragança, é de realçar as festividades em Santulhão (Vimioso), com o julgamento do Entrudo na Terça-feira de Carnaval, e em Cardanha (Moncorvo), no sábado, dia 10 de fevereiro, que se caracteriza pelo careto de máscaras de lata, com rendas brancas e um lagarto, que em tempos eram trabalhadas pelos latoeiros locas. Da iniciativa faz ainda parte a Queima do Entrudo, ritual de expiação dos pecados, de expurgação e purificação da comunidade.

Carnaval em Pitões das Júnias. Foto DR

Em Vila Real, há Rusga Tradicional em Agarez

No distrito de Vila Real, embora com menos caretos e menos diabos à solta, há, no entanto, eventos tradicionais de Carnaval dispersos por vários concelhos. Em Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre, o Carnaval começou a celebrar-se no Domingo Magro. Continua no próximo sábado, dia 10 de fevereiro, com os Caretos e Farrapões a visitar as casas dos vizinhos a partir das 22 horas. No Domingo Gordo, as festividades iniciam após o ‘tocar dos cornos’, que anuncia o Entrudo da Aldeia, e à noite há nova visita dos caretos e farrapões. O Entrudo de Pitões termina na terça-feira de Carnaval, com o pão a cozer no Forno do Povo, para delícia dos visitantes. Ainda em Montalegre, em Outeiro celebra-se o Entrudo Folhateiro, em que os trajes típicos são feitos à base da espiga do milho. O grande desfile está marcado para as 14h do próximo domingo, seguido da Queima do Entrudo.

Em Vila Pouca de Aguiar, na segunda-feira de Carnaval, dia 12 de fevereiro, há uma tradição que se cumpre na aldeia de Cidadelhe de Aguiar, designada pela festa da farinha, que inclui rusga, desfile e correrias pela aldeia, num cenário de grande folia, que ocorre entre o final da tarde e as 23h00.

A fechar o programa de festas na região, em Agarez, uma pitoresca aldeia do concelho de Vila Real, em plena serra do Alvão, no Domingo Gordo e Terça-feira de Carnaval há Rusga Tradicional, a partir das 14 horas, cuja celebração encerra no dia 13, à noite, com o Enterro do Entrudo.

Por fim, não seria possível viver o Entrudo em Trás-os-Montes sem a sua gastronomia mais genuína, o cozido. Prato à base de perna de porco curada com grelos ou nabiças, a orelha e o entrecosto de porco, a carne de vitela, o chouriço, o grão e as batatas cozidas. Assim, nos dias 11 e 13 de fevereiro, os restaurantes convidam os apreciadores de boa gastronomia transmontana a deliciarem-se com o tradicional cozido à portuguesa. Um prato que não é exclusivo dos restaurantes e se prepara em quase todas as casas transmontanas. Só falta bater: “Entre quem é!” (Miguel Torga).

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