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Freixiel, Vila Flor

O leilão de São Sebastião saiu num dia de nevoeiro

Domingo de manhã o grupo é maior, mas tem de enfrentar o nevoeiro cerrado, como se o Sebastião fosse outro que não o santo. Foto @Rúben Castanheiro
Domingo de manhã o grupo é maior, mas tem de enfrentar o nevoeiro cerrado, como se o Sebastião fosse outro que não o santo. Foto @Rúben Castanheiro

O povo de Freixiel saiu mais uma vez à rua, para cumprir a tradição local do leilão de São Sebastião. Um grupo de dezenas de pessoas, acompanhadas de um trator com reboque, percorre as ruas. Recolhe os donativos dos habitantes, que dão aquilo que colhem ou que podem oferecer. Sábado à tarde dão a volta aos becos e a algumas ruas mais deslocadas. Domingo de manhã o grupo é maior, mas tem de enfrentar o nevoeiro cerrado, como se o Sebastião fosse outro que não o santo.

Por volta das 8h30 de domingo, 28 de janeiro, os que pretendem ajudar na recolha dos produtos e donativos da terra, juntamente com a junta fabriqueira, reúnem-se no Pavilhão Multiusos. Daí, saem até ao topo da rua Queimada e regressam ao pavilhão. Pelo meio, vão percorrendo todas as casas. Dividem-se tarefas. Um “vai ao azeite”, outro “vai aos ovos”. Por se tratar de uma aldeia bastante envelhecida, são cada vez menos as casas habitadas. E muitos dos que nelas vivem já não podem trabalhar e já nem produzem as suas hortícolas. 

Terminada a volta, é hora de organizar, num pequeno círculo, dentro do pavilhão, os produtos que ofereceram. Desde azeite, batatas, ovos, abóboras, feijões, cebolas, fumeiro, bolos, até chegar aos famosos ‘segredos’. Os ‘segredos’ são presentes de conteúdo desconhecido, escondido por invólucros exteriores de imaginação caprichada.

A roda dos produtos completa, prontos para serem arrematados. Foto @Rúben Castanheiro
A roda dos produtos completa, prontos para serem arrematados. Foto @Rúben Castanheiro

Como vai ser tudo leiloado, os ‘segredos’ são um engodo. Atiçam “a expectativa e a curiosidade natural do ser humano: o que estará lá? o que não estará? será mau? será bom? será uma partida?…” – assim os define Gracinda Peixoto, de 68 anos, ex-professora, reformada, que dedica os seus tempos à escrita e é membro da Assembleia Municipal de Vila Flor. 

Antigamente, “eram as moças solteiras que os faziam”, acrescenta Bruno Pires, de 45 anos, agricultor e artesão, que divide o seu tempo entre o campo e a Rota Saber Fazer. Como agricultor, também contribuiu com produtos, mas, este ano, na sua condição de artesão, decidiu oferecer uma peça artesanal, um espanta-espíritos, feito de conchas, de madeira e em pau. 

Antes e depois do almoço, Isidro Pires, 49 anos, ex-padeiro, está encarregue de “tocar o sino”, avisando, primeiro, o fim da volta e da recolha e, depois, o início do leilão. Daniel Pinto, agricultor, já há 25 anos que faz a arrematação. É também, há 20 anos, sacristão. Antigamente, o leilão realizava-se no adro da Igreja Matriz. Mais tarde, com o envelhecimento da aldeia, passou por uma sala da casa paroquial, antes de chegar ao Pavilhão. 

Os ‘segredos’ são um engodo. Atiçam “a expectativa e a curiosidade natural do ser humano. Foto @Rúben Castanheiro
Os ‘segredos’ são um engodo. Atiçam “a expectativa e a curiosidade natural do ser humano. Foto @Rúben Castanheiro

Já ninguém oferece “a língua do porco”

Daniel é o “homem do microfone”. É ele quem anuncia o valor inicial de cada peça, em quanto vai o lance e quem, no fim, o arrematou. Começa sempre pelos “segredos”, depois vai a produtos como massa, arroz e leite, ao vinho e algum queijo, passa pelo azeite, olha para as laranjas, as cebolas e as batatas, antes de chegar aos produtos mais valiosos do leilão: o fumeiro e os bolos. 

Antigamente, havia outras tradições. Adélia Borges, de 70 anos, reformada, ex-professora e dona, em conjunto com o marido, de um comércio, ainda se lembra de “arrematarem a língua do porco”. Na altura da matança do porco, tiravam a língua, preparavam-na e guardavam-na para a doarem ao leilão onde era arrematada por altos valores, tudo em honra de S. Sebastião ser o santo protetor e guardião dos animais. Hoje, como não há criação de porcos, a tradição caiu em desuso.

No leilão não participam apenas pessoas da aldeia. Há quem venha de Vila Flor e de aldeias próximas para ver os produtos e arrematar os que mais lhes caem no gosto. 

Daniel é o “homem do microfone”. É ele quem anuncia o valor inicial de cada peça. Foto @Rúben Castanheiro
Daniel é o “homem do microfone”. É ele quem anuncia o valor inicial de cada peça. Foto @Rúben Castanheiro

O tradicional “despique uns com os outros”, refere Bruno, dá outro entusiasmo a esta tradição, porque ninguém sabe quem vai acabar por ficar com o produto. Além disso, é “motivo de encontro e de convívio”, dizem Adélia e Gracinda. Já Bruno Pires, aproveitou para “arrematar laranjas”, que, segundo ele, “dão-lhe para um mês”. O que destaca nelas é o “cheiro que trazem” por se tratar de produto caseiro. 

Todas as pessoas com quem o 7MONTES falou não querem deixar “morrer a tradição”, mesmo com o envelhecimento da população e incentivam os poucos jovens da aldeia a continuarem com o leilão de São Sebastião. E garantem “enquanto os idosos tiverem força e vontade, esta tradição não morrerá”. 

O leilão em honra de S. Sebastião é o único rendimento, além dos ofertórios, que a Igreja tem. Mais uma razão para que no ano que vem a população de Freixiel volte à rua para honrar a tradição, uma das poucas tradições que ainda perdura nesta aldeia do concelho de Vila Flor.

O "desvendar do segredo". Foto @Rúben Castanheiro
O “desvendar do segredo”. Foto @Rúben Castanheiro

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