Assine

Carmo Cruz

O que é ajudar?

Carmo Cruz*. Foto DR

No momento em que o país se deslocou quase todo para as áreas do litoral, cada vez falamos mais do interior e dos territórios de baixa densidade populacional. As suas necessidades são muito diferentes das que Moçambique sente nas zonas mais afastadas dos centros urbanos. Em Portugal falamos de coesão territorial, para lá partimos com vontade de ajudar. Mas que quererá exatamente dizer ajudar?

Em Abril de 2006 andava eu por Moçambique, a trabalhar com as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, a expensas próprias. Tinha começada em 10 de Abril de 2004 e quando chegava a Maputo, a Irmã Susana dizia-me para onde ir e o que fazer. Em Invinha, a viver com as Irmãs e com o seu povo, uma pergunta começou a martelar-me de dia e de noite: Afinal, o que é ajudar?

Escrevia eu então no meu Diário do Gurué: “Estou no Moçambique profundo, que eu não imaginava existir, em pleno século XXI, embora saiba que estou a trabalhar num dos países mais pobres do Mundo. Para trabalhar é que vim. Para ajudar. Mas o que é ajudar?

Quanto mais me envolvo com o local e aprendo como vive esta população mais se me coloca esta pergunta. E ponho-me a pensar se estaremos, eu e os outros que por aqui andam, especialmente tantos jovens, a ajudar alguém. Mas a questão ainda é mais premente quando penso nas grandes ONG. Será que resolvem o problema da fome mandando para cá milho e farinha? Ou isso não servirá, antes, para pôr fim à já quase inexistente agricultura? Para quê cultivar, se posso ter de graça? E o que acontece ao comércio local, que não poderá competir com um produto a custo zero?

Para que se manda para aqui tanta roupa, muitas vezes inadequada, quando, depois, não há condições para a lavar, para a remendar? Quando ela se veste e nunca mais se despe senão quando desaparece no próprio corpo, por completo? Que remedeio eu se for visitar as pobres casas da vizinhança e lhes levar dois bens preciosos (um pedaço de sabão e uma caneca de sal) que lhes dão para dois dias? Não serão os dias seguintes ainda mais difíceis?

Então, o que se haveria de fazer?

Moçambique e outros países nas mesmas circunstâncias precisam menos de esmolas do que de trabalho, embora precisem mesmo de medicamentos, de ajuda médica, de instalações onde se possam tratar. O centro de saúde de Invinha não tem água, não tem luz (à noite trabalha-se à luz de uma vela), chove lá dentro, não tem quase remédios nenhuns. O que a Irmã Rosa, única enfermeira que lá trabalha, e pertencente à congregação, consegue fazer com o que tem, é qualquer coisa de inexplicável. Esta noite dormiu lá, no chão, numa esteira. O que ela faria no mesmo edifício com água e luz, sem ser a água da chuva a escorrer pelas paredes e em cima das três camas lá existentes, com Betadine, pomadas várias, analgésicos, vitaminas e pouco mais, seria certamente elevado exponencialmente.”

 

Aprender para poder ajudar

Agora que já dei um exemplo concreto, vou continuar com a minha linha de pensamento: esta população precisa de trabalho. Mas quem não tem educação, no sentido de instrução, não pode ser acusado de falta de iniciativa. Por que será que as ONG’, em vez de dar, não aplicam os seus donativos em estruturas educativas, agrícolas, empresariais, dirigidas durante um determinado período de tempo até formar trabalhadores e pequenos gestores? Já alguém pensou que, ao dar, estamos a retirar alguma dignidade ao ser humano que está à nossa frente?

Sei que, há algum tempo, uma dessas organizações, a Human People, foi muito criticada na Europa porque vendia as peças de vestuário que lhes tinham sido oferecidas. Aqui, no terreno, sei que fizeram e estão a fazer o que deve ser feito: vendendo, ainda que a preços pouco mais do que simbólicos, dão valor aos artigos e resguardam alguma dignidade do comprador. Com o dinheiro conseguido, investem em campos muito carenciados, como na promoção da criança e da mulher (escolas e formação) e na prevenção da doença, especialmente malária.

A ajuda de que os moçambicanos precisam é de poderem aprender. Então, ajudar será ensinar – a ler, a cultivar a terra, a coser roupa, a lavar, a ter iniciativa, a… Isso, sim, talvez seja ajudar. O resto é ilusão para calar alguma voz que grite dentro de nós. Mas para ensinar, é preciso primeiro aprender. Porque os moçambicanos não precisam necessariamente de aprender as coisas que eu sei. Uma das coisas que por aqui tenho comprovado é que, de facto, “de boas intenções está o inferno cheio”.

  • Professora

7MONTES é financiado pelo programa Local Media for Democracy do Journalismfund Europe www.journalismfund.eu

Escreva à redação

Subscribe To Our Newsletter

Subscribe to our email newsletter today to receive updates on the latest news, tutorials and special offers!