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Hélder Afonso, diretor da Pastoral dos Ciganos

“Os políticos não podem ter medo de apresentar propostas concretas para as minorias”

Hélder Afonso é diretor da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos (ONPC). Padrinho de três crianças de etnia cigana, quer combater o nomadismo, integrando os ciganos nas comunidades locais, dar-lhes mais acesso à saúde pública, em particular às mulheres, e contrariar o estigma e os preconceitos de que as minorias não querem trabalhar e só querem receber contribuições sociais. E desafia os dirigentes políticos a terem coragem para “apresentar propostas concretas para as minorias”.

Hélder Afonso é diretor nacional da Pastoral dos Ciganos. Foto © Filipe Ribeiro

São 11 da manhã em Mouçós, Vila Real, na sede da Junta de Freguesia. O atual presidente, Hélder Afonso, atende um casal de ciganos no Espaço Cidadão, um serviço descentralizado do Estado, para os ajudar a preencher uma candidatura de apoio à habitação. Para ele, como depois dirá, é preciso fazer tudo para favorecer a integração tranquila das comunidades ciganas e nesse sentido “é necessário avançar com algumas políticas públicas de apoio aos ciganos. Os dirigentes políticos não podem ter medo de apresentar propostas concretas para as minorias”.

A abrir a nossa conversa, pede desculpa pela demora e lamenta que algumas famílias ciganas sejam excluídas de medidas de apoio, como o Vale Eficiência, porque não têm casa, ou quando têm, ela não está registada. Se, antigamente, a população cigana era culturalmente nómada, o responsável acredita que atualmente esse nomadismo é “forçado”.

“Hoje há um nomadismo forçado em algumas comunidades ciganas porque os bairros, vilas ou cidades onde estão inseridos não os querem”, começa por dizer o diretor da ONPC, nomeado em novembro do ano passado, que aceitou o cargo “como cristão e como obrigação de fazer acontecer as coisas”.

Hélder Afonso acredita que, atualmente, “os ciganos são nómadas quase por obrigação” e que só não têm casa “porque não podem”. “Há alguns casos em que as comunidades ciganas construíram casas. No entanto, se as casas são clandestinas, e se a situação não for regularizada, não há hipótese de aceder aos apoios oficiais, governamentais ou das próprias autarquias, para a reconstrução ou melhoria da habitabilidade”, lamenta, informando que em Vila Real existe, apenas, um grupo de ciganos que vive há vários anos em acampamento, mas que está prestes a ser realojado.

Nesse sentido, um dos objetivos da pastoral passa por “conhecer a realidade” atual e fazer um diagnóstico de como vivem os ciganos em Portugal. Depois, perceber em que medida “a Estratégia Nacional para a Habitação pode contribuir para a sua integração”.

Existem, provavelmente, “50 ou 60 mil ciganos em Portugal”. Hélder Afonso admite não ser possível inteirar-se da realidade de todos os ciganos, mas pretende visitar todas as Dioceses e falar com os bispos para que sejam criados, onde não existe, secretariados de apoio às minorias étnicas. “O que se passa em Vila Real é diferente da realidade, por exemplo, no Alentejo ou na região de Setúbal, onde há bairros de ciganos, que já visitei, com mais população do que a minha freguesia”, recorda o professor de Educação Moral, com formação em Teologia e Ciências Religiosas.

Na saúde, Hélder Afonso pretende que a comunidade cigana seja mais acompanhada, em especial as mulheres, que “não fazem planeamento familiar, nem pré-natal” e acabam por “não ser observadas numa fase particular da sua vida adulta”. “Não há, por exemplo, um acompanhamento das grávidas no serviço público de saúde, muitas vezes porque elas não querem. Sabemos que existe um complexo, por parte da mulher, em ser vista por uma pessoa estranha. Eu compreendo isso, mas tenho insistido e chamado a atenção para a importância dos cuidados de saúde”, refere, defendendo que “é necessário avançar com algumas políticas públicas de apoio aos ciganos. Os dirigentes políticos não podem ter medo de apresentar propostas concretas para as minorias”.

Um outro aspeto muito importante é que “os filhos dos ciganos estejam integrados na escola”. “Faço questão, por altura das matrículas, de relembrá-los de que é preciso matricular os filhos na escola e fazer o pré-escolar. É importante chegaram bem preparados à escola”.

 

Valorizar o trabalho da pessoa cigana

Um dos problemas da comunidade cigana é ser acusada de viver de prestações sociais, um estigma que Hélder Afonso quer contrariar, a começar pela sensibilização dos próprios ciganos. “É evidente que muitos recebem prestações sociais, porque isso é um direito que toda a gente tem. Mas os ciganos não podem aceitar apenas os direitos, devem ter em conta os deveres de viver em sociedade. Nesse sentido, eu tenho feito alguma pedagogia junto deles”, conta, acrescentando que “a sociedade precisa de lhes dar competências e entender a sua cultura, assim como eles a nossa”. De resto, na junta de freguesia a que preside, a União de Freguesias de Mouçós e Lamares, Hélder Afonso já teve dois ciganos ao serviço, ao abrigo dos contratos ‘Inserção +’, do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).

A aposta passa, também, pela “valorização do trabalho”, uma vez que eles “são muito bons no trabalho que fazem”, por exemplo “na arte da cestaria, nos trabalhos manuais, quadros, pinturas, na venda ambulante, até nas roulottes de comida”. “É necessário potenciar estas capacidades e sensibilizá-los para o seu aproveitamento. Por isso, digo-lhes muitas vezes: ‘prestem atenção, vocês são alvos fáceis, são apontados como gente que não quere trabalhar, e muitas vezes por culpa vossa’”.

Por fim, a pastoral dos Ciganos quer ser integrada na Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC), do Alto Comissariado para as Migrações, e colaborar com o Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig) para que seja realizado um censo mais rigoroso e obter dados estatísticos de como estas comunidades vivem em Portugal.

“Quando a Pastoral dos Ciganos surgiu, em 1965, com o Papa Paulo VI, a realidade era totalmente diferente. Sem qualquer apoio social, sem direitos, completamente excluídos socialmente. Hoje, felizmente, não é assim, mas ainda há um longo caminho a percorrer”, finaliza.

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