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Gracinda Marinho

Padeira deu vida a Pitões das Júnias e reacendeu o forno do povo

Gracinda abriu a Padaria Pitões há 20 anos, quando regressou de França. Foto © Filipe Ribeiro

No cimo da aldeia de Pitões das Júnias, em Montalegre, a presença de carrinhas de distribuição e o cheiro a pão, pela manhã, denunciam a padaria que, de portas escancaradas, convida à entrada do visitante. Lá dentro, no meio do rebuliço, somos recebidos por Gracinda Marinho, a alma da Padaria Pitões, na qual trabalha, desde que esta abriu, há 20 anos.

Gracinda nasceu em França. É a mais nova de dez irmãos. Filha de pais emigrantes, veio para Pitões das Júnias aos seis anos. A família passou a dedicar-se à lavoura, que era a base da economia deste território. “O meu pai, que era carpinteiro-marceneiro, nunca se adaptou àquela vida em França. Ele gostava mesmo era de estar aqui”, explica Gracinda ao 7MONTES.

Em Pitões das Júnias, depois de fazer a escola primária, ajudou os pais até à idade adulta. A vida era dura. “Caminhei oito anos na serra com as cabrinhas. O meu magistério foi ali. Não me arrependo. Fui feliz”, atira a padeira de 53 anos.

O destino levaria Gracinda a voltar para França, aos 18 anos. “Os meus irmãos quiseram tirar-me desta vida do campo”, continua e acrescenta: “mas quando vinha de férias quase morria para ir embora. A gente da minha terrinha fazia-me falta. E eu queria era ser livre”.

Foi aí que, com o marido, que, entretanto, conheceu em França, e os três filhos menores, resolveu regressar. “Quando abri a padaria, depois de vir da França, as pessoas ficaram preocupadas comigo – ‘ó minha filha, vais abrir uma padaria em Pitões? Vais desgraçar a tua vida’ – diziam”.

Gracinda não hesitou. A motivação de fazer o que gosta na terra onde cresceu falou mais alto. “Sou mesmo filha de Pitões. Isto é a minha vida. Para me tirarem daqui é muito difícil”, salienta a padeira, de rosto sorridente e conversa fácil, que confessa: “a padaria trouxe movimento à aldeia”.

É verdade que, há 20 anos, “Pitões não era o que é hoje”, mas a paixão pela terra e ânsia de ver crescer o pão no forno, fizeram de Gracinda uma mulher empreendedora. Hoje conta com mais de uma dezena de funcionários e a ajuda dos três filhos.

Gracinda reacendeu o Forno do Povo depois de décadas de inatividade. Foto © Filipe Ribeiro

Forno do Povo reacendeu a alma da aldeia

Mais tarde, com a padaria estabelecida e a facilidade em pôr “as mãos na massa”, Gracinda fez “ressuscitar” o forno comunitário, que voltou a cozer pão de centeio depois de décadas de inatividade. “Eu cresci com o forno do povo, a casa dos meus pais era mesmo ali. Quando regressei a Pitões, não conseguia ver aquilo parado e decidi dar-lhe vida”, conta.

Depois de recuperado, com a ajuda da Junta de Freguesia e o apoio da câmara, a padeira devolveu a alma ao forno comunitário, que passou a receber excursões. “Os turistas ligam-me a perguntar quando abre o forno. É normal. Não há nada como o pão cozido neste forno. É qualquer coisa de especial. A própria pedra dá-lhe uma côdea diferente”, refere.

Este forno, que, se falasse, “contava muitas histórias”, traz à memória os tempos da infância, numa época em que “as famílias eram numerosas e toda a gente cozia pão”. Hoje, numa terra onde a tradição “ainda é o que era”, Gracinda deu-lhe vida e dinâmica graças ao pão que alimenta o espírito de quem a visita.

Pão de centeio é o mais procurado em Pitões das Júnias. Foto © Filipe Ribeiro

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