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Uva, Vimioso

Palombar: o pombal em outra língua

Um dos 45 pombais que marcam a aldeia de Uva, em Vimioso Foto @ Rúben Castanheiro

À primeira vista, o que salta aos olhos de quem chega a Uva, uma pequena localidade de meia centena de pessoas no concelho de Vimioso, são as 45 casas iguais, espalhadas pelos planaltos da aldeia. Quem não as conheça, fica na dúvida do que são aquelas casas, muito típicas para aqueles lados. São nada mais, nada menos, do que pombais tradicionais, que, para as gentes daquela terra, significavam “riqueza”, termo utilizado por Violeta Vilaça, dirigente da organização ambiental Palombar.

Reconstituir esses pombais, como forma de preservar um dos monumentos da região, é um dos trabalhos desenvolvidos pela organização. Por alguma razão adotaram o nome de Palombar que deriva do mirandês e significa pombal. A pomba é uma das espécies a que dedicam maior atenção, embora também as águias e os abutres pretos estejam sob a sua vigilância, através de projetos em parceria com empresas nacionais e internacionais. A gestão do habitat das espécies em perigo e o aumento da disponibilidade alimentar são duas atividades de atenção diária.

Violeta Vilaça tem 40 anos. Estudou Engenharia do Ambiente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Habita em Caçarelhos, que fica a 12 km de Uva. Trabalha desde 2018 a tempo inteiro na Palombar, mas desde jovem que se interessa pelo meio rural e pela biodiversidade. Esta, é mesmo uma “paixão” de Violeta.

Violeta Vilaça, Palombar, durante a visita a um dos pombais de Uva. Foto @ Rúben Castanheiro
Violeta Vilaça, Palombar, durante a visita a um dos pombais de Uva. Foto @ Rúben Castanheiro

Criada sem fins lucrativos no ano 2000, a Palombar tem como missão “conservar a biodiversidade, os ecossistemas selvagens, florestais e agrícolas e preservar o património rural edificado, bem como as técnicas tradicionais de construção”, relembra Violeta Vilaça que aponta a recuperação dos pombais como uma aplicação concreta desse esforço para preservar o património com recurso a técnicas tradicionais.

Pombais há-os de muitas formas. Há uns completamente redondos, que têm o telhado em forma de ferradura, mas também existem outros que são todos em forma de ferradura, com a parte dianteira totalmente lisa. Existe ainda um terceiro tipo, menos comum na região, de desenho quadrado. Entre todos, a Palombar costuma recuperar um a dois por ano, através de campos de trabalho, dois por ano, que duram quinze dias cada um.

‘Pombinho’, ‘borracho’, águias e muros

Já o interior dos pombais esconde o seu segredo. É revestido com vários buracos, que serviam para as pombas fazerem o ninho. No centro, está a mesa, que, em época baixa de comida, servia para deixar o alimento para as pombas. Os dejetos caiem para o chão e eram chamados de ‘pombinho’. Localizadas em pontos específicos do ninho, existiam também pedras, saídas para fora da parede, que funcionavam como escadas, para que as pessoas pudessem alcançar os ninhos, para retirar os ‘borrachos’.

O ‘pombinho’ e o ‘borracho’ são dois dos derivados da pomba que os habitantes de Uva costumavam usar para consumo. O ‘pombinho’ era utilizado como “fertilizante para estrumar a terra, para renovar o solo para as culturas”. O ‘borracho’ é “a cria das pombas, importante na antiga dieta alimentar”. Atualmente, na aldeia de Uva, já não é tão comum utilizarem-se, quer um quer outra.

Interior de um pombal, onde se observam os vários ninhos de pombas. Foto @Rúben Castanheiro
Interior de um pombal, onde se observam os vários ninhos de pombas. Foto @Rúben Castanheiro

Alimentar a águia bonellis, que está em perigo de extinção, através de comida – pombos, coelhos e perdizes – é agora uma função nova de alguns dos pombais recuperados.  Além da bonellis, também a águia-caçadeira é uma espécie que paira por Uva. É uma ave migradora que regressa no mês de março e que faz o ninho nas searas, nascendo as crias antes das segas, entre o mês de junho e de julho. Para preservar as crias, quando não obtém uma resposta positiva do agricultor, a Palombar monitoriza os ninhos em jaulas de climatização, até que as águias possam ser autossuficientes.

Ensinar a construir muros de pedra seca é outra atividade da organização. Estes são muros “construídos só com pedra, sem nenhum tipo de massa”, explica Violeta. A sua particularidade reside na arte de se amontoarem pedras, umas em cima das outras, e estas calçarem-se por si próprias. Para isso, a Palombar propõe trabalhos de grupos e oficinas em que estimula a aprendizagem das técnicas de construção locais, seja através da pedra, do barro, da cal, da telha, ou até da madeira.

Os muros de pedra seca são feitos apenas com pedra, sem qualquer tipo de massa. Foto @Rúben Castanheiro
Os muros de pedra seca são feitos apenas com pedra, sem qualquer tipo de massa. Foto @Rúben Castanheiro

Por estes dias, a organização conta com um grupo de cinco voluntários: quatro vindos do serviço civil italiano e um do corpo europeu de solidariedade. Contudo, não foi possível ao 7MONTES falar com nenhum deles, porque não se encontravam em Uva, na sede da associação. Voluntários e colaboradores da Palombar dispõem de habitações na aldeia o que facilita o convívio com os habitantes e permite uma melhor observação e uma maior proximidade com as espécies que sobrevoam e caminham pelos terrenos de Uva.

 UVA, VIMIOSO

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