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Alto Douro Vinhateiro

Favaios: o planalto que dá pão e vinho moscatel

É em Favaios, no concelho de Alijó, que os aromas do pão e do vinho moscatel se cruzam. Odores e sabores característicos dos “altos” onde, a cerca de 600 metros de altitude, se encontram algumas das melhores iguarias do Douro Vinhateiro.

Em Favaios, onde predomina a variedade de moscatel, há vinhas a perder de vista. Foto © DR

Diz o provérbio que “bom vinho escusa pregão; bom peso faz vender o pão”, mas não é pelo peso – apenas 270 gramas – que o Pão de Favaios amassado pelas mãos de Manuela Barriguda se vende à média de 400 por dia.

A padaria, uma das oito ainda em laboração, está situada na Rua do Capelão Morais e tem mais de 100 anos. O trabalho, por aqui, começa bem cedo. “Às 5 da manhã já estamos a amassar”, conta ao 7MONTES Manuela Fernandes, de 74 anos, que deve ao pai a alcunha de Barriguda. Com a ajuda da filha, Maria Assunção, prepara 40 pães de cada vez numa bancada, antes de levar ao forno por onde já passaram “alguns milhões”.

Diz-se que “depressa e bem, não há quem”, mas a rapidez e a mestria que Manuela emprega no manuseamento da massa, quase de olhos fechados, é de quem nunca fez outra coisa na vida: “já sou padeira desde que nasci”, recorda, lembrando a forma simples de produzir o pão. “Só leva farinha de trigo, água morna, sal e fermento de padeiro. Este é o verdadeiro Pão de Favaios!”, refere.

Pão de Favaios moldado pelas mãos de Manuela Fernandes. Foto © Filipe Ribeiro

Em pequena, a família de Manuela – os pais e sete irmãos – dividia-se entre a padaria e a lavoura. “O mais velho andava à frente dos bois e eu, depois de tratar dos mais novos, vinha para aqui ajudar a minha mãe. Ela obrigava-me a amassar o rolão*. Não era qualquer uma que podia tender**”, continua.

Foi a mãe que a ensinou a “tender” a massa. E é precisamente na forma (com quatro cantos, permitindo que seja partilhado com facilidade) que se distingue o Pão de Favaios, cuja massa, depois de lêveda, é estendida, dobrada, enrolada e, por fim, vincada. “Tome lá, agora é só barrar com manteiga e acompanhar com moscatel”, desafia a padeira, enquanto pega num pão acabado de cozer.

Este alimento, descoberto há seis mil anos pelos egípcios, é negócio de família desde há séculos em Favaios, onde em 1645 estavam registadas 22 padarias. Por sua vez, o vinho é outra iguaria preponderante na região. Aqui, o pão e vinho sempre andaram de mãos dadas, já que as padarias são paragem obrigatória, pela madrugada, dos trabalhadores das quintas do Douro.

 

Moscatel de Favaios é conhecido mundialmente

Adega de Favaios tem, sobretudo, vinho moscatel. Foto © Filipe Ribeiro

Em Favaios havia campos de trigo a perder de vista até meados do século XIX. A cultura deste cereal foi sendo substituída, gradualmente, por videiras de moscatel galego, uma variedade introduzida no Douro nas replantações que se sucederam à grave crise de filoxera***, que devastou a Região Demarcada entre 1860 e 1880.

É neste contexto que surge o moscatel Favaios. “Esta é uma zona de planalto e de terrenos férteis, favorável aos brancos, onde a casta moscatel galego predomina”, conta ao 7MONTES João Santos, da Adega Cooperativa de Favaios.

A adega foi criada em 1952 por meia centena de produtores, numa altura de intensa constituição de adegas cooperativas (surgiram mais de 30 em 19 municípios), por proposta da Casa do Douro. A primeira vindima de moscatel recolhida na cooperativa data de 1956.

Foi a crise da venda do Vinho do Porto, que teve origem na Grande Depressão de 1929, que desencadeou a produção de Moscatel do Douro, designação criada para distinguir os dois produtos. “Na altura, foi cortado o benefício nas terras mais altas (acima dos 500 metros). Como estamos a cerca de 600 metros, deixou de ser possível produzir Vinho do Porto a partir deste moscatel”, explica.

A cooperativa é mundialmente conhecida pelo vinho moscatel, que se vende principalmente sob a forma de minigarrafas de 55 mililitros, o Favaíto. Aqui vinificam-se seis milhões de litros/ano dos quais três milhões são de moscatel.

É no Núcleo Museológico do Pão e do Vinho, no centro de Favaios (Rua Direita), que se cruzam os dois produtos característicos dos “altos”. O núcleo, que integra a Rede do Museu do Douro, tem por missão “preservar, documentar, interpretar e divulgar as tradições, saberes e artefactos intimamente relacionados com o pão e o vinho Moscatel de Favaios”, no sentido de “perpetuar a memória coletiva destes produtos”.

Com um custo de entrada de dois euros, os visitantes são convidados a embarcar numa viagem pelo processo de produção do vinho Moscatel, com explicação da casta e do terroir, passando, depois, para a “feitura” do pão, desde o cultivo dos cereais até à cozedura da massa.

Os produtos terão lugar de destaque na Feira dos Vinhos e Sabores dos Altos, que se realiza em Alijó neste fim de semana (ver notícia aqui).

 

*Textura intermédia entre o farelo e a farinha.
**Dar forma ao pão.
***Inseto que ataca as raízes das videiras e mata a planta.

7MONTES é financiado pelo programa Local Media for Democracy do Journalismfund Europe www.journalismfund.eu

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