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Filipe Ribeiro

Pelas “rudes penedias”

Rio que encontra passagem entre as rochas no Parque Natural do Alvão. Foto ©️ Filipe Ribeiro
Rio que encontra passagem entre as rochas no Parque Natural do Alvão. Foto ©️ Filipe Ribeiro

Depois de deixarmos para trás a cidade de Vila Real, subimos a encosta da Serra do Alvão como quem escala o Monte Evereste. Nem a altitude, nem a inclinação se assemelham, mas há alguma coisa nestas serranias que nos dificulta o avanço, como se a montanha quisesse travar a chegada de visitantes casuais. Mas subimos, vencendo o que nos trava pela expetativa do que nos espera mais adiante.

A primeira paragem é em Lamas de Olo, em pleno Parque Natural do Alvão, já depois da barragem construída na década de 40 do século passado para dar sustento ao regadio dos campos agrícolas. Aqui, encontramos os primeiros ‘’residentes”: um grupo de vacas maronesas, espécie autóctone de bovino que pasta livremente, criada em modo extensivo e semi-estabulado. Mas se mergulharmos mais fundo na serra, para os lados de Arnal, encontramos maronesas em estado praticamente selvagem, que calcorreiam a encosta sem oposição, e que recolhem, sozinhas, antes do cair da noite. Diz-se que a vaca é mesmo daqui, descendente do auroque, um antepassado já extinto, imortalizado nas gravuras rupestres do Vale do Côa. É do Alvão, mas tem nome que deriva do Marão, a serra mesmo ao lado. “Alvanesa” seria um nome pouco adequado a esta espécie de gado, que outrora era apelidado de serrano, penato ou carreiro.

Em Lamas de Olo, no lameiro junto à Estrada Municipal 313, elas mostram-se confortáveis com a presença do visitante. Há uma, diz o pastor, que se acerca mais do que as outras. É a vaca que lidera a manada, com a missão de proteger ou alertar o grupo em caso de perigo, uma característica desenvolvida há séculos pela presença do lobo, que partilha este território com o gado.

Vacas maronesas que se detêm pela presença de um visitante. Foto ©️ Filipe Ribeiro

Seguimos caminho em direção à aldeia de Barreiro, já no concelho de Mondim de Basto, por uma estrada que, durante anos, foi motivo de luta por parte das populações, que exigiam a pavimentação de escassos 800 metros em direção a Vila Real. As providências cautelares da Quercus, associação ambientalista, foram a principal causa do impasse, que mereceu, inclusive, a intervenção do então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Foi terminada em 2015, após parecer favorável do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), que autorizou a obra em cubo de granito, entre agosto e fevereiro, durante a luz do dia, para minimizar os impactos sobre o lobo-ibérico e a borboleta-azul, espécies da fauna selvagem “alvanesa”.

Ao fim de cerca de um quilómetro, chegamos à estrada de alcatrão. É quase como um encontro com a civilização. Não vimos lobos, nem borboletas, apenas “rudes penedias”, como diz o título do livro de Salvador Parente, padre de Vila Real, dedicado às fragas e lajedos que circundam a sua terra, Águas Santas.

É Camilo Castelo Branco quem vê lobos por estas bandas. Em Contos e Textos, relata que em Samardã, na encosta do Alvão, “nas noites nevadas, as alcateias dos lobos descem à aldeia e cevam a sua fome nos rebanhos”. “Foi ali que eu me familiarizei com as bestas-feras; ainda assim, topei-as depois, cá em baixo, nos matagais das cidades, tais e tantas que me eriçaram os cabelos”, escreve. Na Samardã ainda existe um fojo, memória edificada de tempos idos, que se traduz em “uma cerca de muro tosco de calhaus a esmo onde se expunha à voracidade do lobo uma ovelha tinhosa”.

No Barreiro também não vimos gente, mas havia gado. Cabra-bravia, também ela autóctone, dispersa pela serra, em tons castanho-alaranjado, que se confunde com a paisagem granítica. Espalhados pela aldeia estão alguns espigueiros – aqui diz-se canastros. Marcas de um passado em que a produção de cereal cobria as necessidades do homem e do gado. Hoje não é bem assim.

Em Ermelo, as casas são de granito e os telhados de xisto. Foto ©️ Filipe Ribeiro

Descendo a encosta, chegamos pouco depois a Fervença e a seguir a Ermelo, que dá o nome às famosas fisgas, cascatas de elevado interesse paisagístico e geológico. Com um desnível de cerca de 200 metros, vão desembocar nas piocas, cavadas nas rochas pelas águas do rio Olo.

Tabuleta à entrada de Ermelo. Foto ©️ Filipe Ribeiro

Miguel Torga, nos seus diários, em 1959, ao contemplar as fisgas, diz sentir “um misto de espanto e terror”: “a contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atração dos outros”, relata o autor duriense.

À chegada a Ermelo, aldeia que já foi vila e concelho, uma pedra de xisto detém a marcha ao visitante. Convida a conhecer a história da aldeia e a partilhar, noutra laje, a história do visitante e a razão da sua chegada. Aqui, as casas de granito cobertas por telhados de xisto dominam a paisagem.

Saindo dela, chegando ao cruzamento com a Estrada Nacional 304, termina esta viagem pelo Parque Natural do Alvão, não sem antes percorrer uma das estradas com uma das panorâmicas mais belas da Europa, que na primavera é dominada por tons amarelos e lilás, oferecidos pela flor da carqueja e pela urze.

Turistas assinalam passagem por Ermelo em placas de xisto. Foto ©️ Filipe Ribeiro

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