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Come na 2

Projeto turístico do Douro liga a gastronomia à olaria tradicional

Há um projeto turístico em Santa Marta de Penaguião que concilia gastronomia, património e saberes ancestrais ligados à produção de cerâmica. Chama-se “Come na 2” e nasceu pelas mãos de Alberto Tapada e o filho, Manuel Tapada, na Cumieira, localidade rasgada pela Estrada Nacional nº 2.

Espaço que acolhe workshops de olaria possui elementos identitários da região
Espaço que acolhe workshops de olaria possui elementos identitários da região. Foto © Filipe Ribeiro

Poucos quilómetros separam a cidade de Vila Real da vila da Cumieira, no concelho de Santa Marta de Penaguião, mas a distância é suficiente para se aperceber a diferença na paisagem. Ao chegar à vila erguida num cume, pela EN2, mergulhamos imediatamente no Alto Douro Vinhateiro, que se distingue pelos socalcos de vinhas a perder de vista. Não admira, por isso, que o Come na 2 tenha conseguido ligar este património mundial à rota da Estrada Nacional 2, criada em 2016 para valorizar a via que atravessa Portugal de norte a sul.

Manuel Tapada é um dos mentores do projeto
Manuel Tapada é um dos mentores do projeto

O projeto turístico, focado na produção de louça artesanal, nasceu em 2015 com o nome de “Soenga”, que designa a técnica de cozedura e de escurecimento de peças de cerâmica, utilizada desde há séculos em várias localidades da região. “A ideia surgiu da tese de mestrado do meu pai, apresentada em 2013, sobre o método tradicional de produção de cerâmica que existe em Vila Real (Bisalhães) e que hoje é Património Imaterial da UNESCO”, conta Manuel Tapada, de 34 anos, formado em Ciências da Comunicação.

O projeto manteve a sua génese, mas evoluiu, anos mais tarde, para Come na 2, ligando a cerâmica à mítica estrada e à gastronomia. “Inicialmente, o projeto estava apenas vocacionado para a aprendizagem do processo de moldes e de cozedura do barro, através da organização de trabalhos em grupo. Mais tarde, quisemos adicionar a gastronomia, o museu e os passeios. Foi então que passou a chamar-se Come na 2”, lembra o Tapada mais novo.

A referência à “N2” é notada logo que entramos na sala de workshops de cerâmica, destinada aos turistas. Com a ajuda de rodas de oleiro, aqui fazem-se marcos, semelhantes aos da estrada, mas também vasos, potes, copos ou canecas. Todo o processo, desde o molde, à secagem, passando pela cozedura, é feito “em casa”. “O projeto está muito ligado à N2, isso nota-se logo pelo stock de peças que temos”, acrescenta Manuel Tapada, que há pouco tempo produziu marcos em barro para a concentração anual do Moto Clube de Faro.

 

Museu As Idades da Tera tem amostras de rocha de todo o país

Sala do Centro Interpretativo também acolhe grupos para eventos gastronómicos. Foto © Filipe Ribeiro

Em 2018 surgiu o centro interpretativo As Idades da Terra, onde é visível um mapa geológico português, cortado a meio pela EN2, com referência às diferentes rochas e argilas que ela bordeja ao longo dos seus mais de 700 Km. Na cerâmica, há uma coleção de vários tipos de argila, de tonalidades diversas, para se perceber a diferença cromática entre elas; uma coleção de 40 motivos, inspirados na natureza, que eram usados na decoração de peças de barro; e uma recolha de exemplares de 30 centro oleiros, entre Portugal e Espanha. Há, também, um altar romano, associado à humanização, encontrado na Cumieira, e louças (talhas) usadas na casa agrícola/vinhateira, que nasceu em 1786.

Manuel Tapada lembra que, desde Verin a Penacova, ou seja, ao longo de toda a falha sísmica que atravessa a Galiza e o Norte de Portugal, culminando no litoral do país, e que também passa na Cumieira, “era produzida louça negra”. “Na nossa região havia mais de 50 oleiros, hoje há cerca de meia dúzia. Aqui mesmo, na Cumieira, essa tradição já se perdeu, mas há, na toponímia, indícios desse passado esquecido: temos o lugar da Senga, a aldeia de Fornelos ou até a do Barreiro”, refere Manuel Tapada.

Algumas peças produzidas no atelier são alusivas à EN2
Algumas peças produzidas no atelier são alusivas à EN2. Foto © Filipe Ribeiro

É por causa dessa associação entre a Cumieira e uma falha geológica que proporcionou uma forte tradição na produção de louça negra, que se “procurou ter em exposição peças representativas de vários centros oleiros, algumas delas históricas, por estarem associadas aos últimos ciclos de produção desses centros”.

É também no centro interpretativo, numa mesa de seis metros de comprimento, ao centro, que são servidas as refeições, quase sempre destinadas a grupos, e só acessíveis através de reserva prévia. Propõem três pratos que não descoram a tradição nem os produtos da região: cachaço de porco no forno com batatas e castanhas; vitela assada, também acompanhada de batatas e castanha; e o prato mais distinto, arroz malandrinho de vários tipos de cogumelos silvestres, com calda de vitela maronesa.

Come na 2 é um Agente Estrela da Rota da Nacional 2, distinção criada pela Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2,  integra a Rede Museus do Douro.

Ver galeria completa:

Cerâmica antes da secagem

 

CUMIEIRA, SANTA MARTA DE PENAGUIÃO

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