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Gonçalo Baptista*

Que papel pode voltar a ter a ferrovia em Trás-os-Montes?

*Engenheiro mecânico. Especialista em ferrovia.

A ferrovia deixou de estar presente na região de Trás-os-Montes em 2008, ano em que foi encerrado o último troço da linha do Tua, entre Tua e Carvalhais, para a construção da barragem da foz do Tua. Decisão errada que o debate sobre o Plano Nacional Ferroviário (PNF) pode em parte corrigir.

Encerrar aquele troço da linha do Tua foi, a meu ver, um grande erro, pois poderia ter sido equacionada a construção de um novo traçado que permitisse a continuidade da ligação deste concelho de Trás-os-Montes à região do Alto Douro e à Área Metropolitana do Porto, através da linha do Douro. Apesar desta solução ferroviária não ser competitiva com a alternativa rodoviária oferecida pela Autoestrada A4 e pelo Itinerário Complementar IC5, ela continuaria a desempenhar uma solução complementar. De facto, a existência do interface rodoferroviário em Mirandela, facilitaria a ligação entre várias povoações através de vários meios de transporte, quer do ponto de vista do turista que visita o Alto Douro e pretende ir a Trás-os-Montes, quer para as populações que vivem na região.

Mas o futuro não parece tão sombrio. Com o início da discussão do Plano Nacional Ferroviário (PNF) e a ideia de levar a ferrovia a todas as capitais de distrito, Trás-os-Montes poderá voltar a estar presente na Rede Ferroviária Nacional.

A Associação Vale d’Ouro decidiu apresentar uma ideia de como se poderia levar a ferrovia a Bragança. A proposta passa pela construção de uma linha de alta velocidade que ligaria o Aeroporto Francisco Sá Carneiro a Zamora, atravessando os concelhos de Amarante, Vila Real, Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança. Cabe dar parabéns aos envolvidos nesta proposta pelo excelente trabalho que realizaram.

O PNF tem outra abordagem. Propõe a construção de uma linha convencional (atingindo os 200 km/h em certos troços), saindo da linha do Douro em Penafiel, para ir ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro e, na outra direção terminando numa ligação a Zamora.

As duas abordagens são diferentes entre si, principalmente a nível técnico: alta velocidade ou linha convencional? Na minha opinião, a melhor abordagem será uma linha convencional, porque permite maior aproximação aos centros urbanos e responde melhor às deslocações pendulares das populações, quer entre concelhos quer dentro dos mesmos através de comboios regionais, fazendo paragem em todas as aldeias, vilas ou cidades próximas da linha. Através do uso do serviço Intercidades esta solução pode também oferecer viagens rápidas entre as cidades de Bragança, Macedo de Cavaleiros e Mirandela e a Área Metropolitana do Porto e de Lisboa, podendo, assim, ajudar a travar a desertificação do Interior.

Outro ponto positivo desta solução é a sua utilização para o tráfego de mercadorias. A população só se fixa nos territórios que lhe oferecem condições para viver e trabalhar e uma linha de comboio potenciará a competitividade da região ao ligá-la ao Porto de Leixões com um meio de transporte de alta capacidade. Como ambas as propostas permitem esse tráfego, não vou listar a diferença entre elas.

O turismo pode também vir a conhecer um forte impulso com a construção desta linha. A possibilidade de comboios diretos ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro e a possibilidade de reabertura da linha do Corgo, prevista no PNF, são duas grandes vantagens que esta solução oferece. Sublinhe-se a interconexão com o interface de Vila Real e a ligação em Mirandela ao troço ainda possível de explorar da linha do Tua, retomando o metro de Mirandela.

Então que papel pode voltar a ter a ferrovia em Trás-os-Montes? Pode ter um papel de dinamização económica, através da potenciação do turismo e da indústria e da fixação da população. E contribuir também para a descarbonização, através do uso de comboios elétricos e da diminuição da dependência do automóvel particular. Pode e deve ser integrada com o meio rodoviário, que ajuda a expandir as vantagens a outros concelhos mais pequenos, mas não muito distantes, através do uso da IP2 e do IC5.

*Engenheiro mecânico. Especialista em ferrovia.

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