Assine

Miranda do Douro

Quem sabe mirandês ganha viagem até Frísia

Os estudantes que estudam mirandês podem ganhar uma viagem até à Frísia. Foto © DR
Os estudantes que estudam mirandês podem ganhar uma viagem até à Frísia. Foto © DR

Há dois alunos de Miranda do Douro que vão passar uma semana das férias da Páscoa com tudo pago e diversas atividades numa região dos Países Baixos. Chamam-se Noemi Esteves de Carvalho e João Barrosa Rodrigues e foram os dois melhores alunos do secundário em língua mirandesa. Ganharam por isso, o prémio anual atribuído por um casal luso-alemão.

O casal Fernandes reside atualmente em Lisboa. Aníbal, 71 anos, natural de Angueira, em Vimioso, diz ser um “mirandês nato” e para ele, “Miranda não é só Miranda do Douro, estende-se desde Freixo de Espada à Cinta até Bragança”. Os estudos levaram-no a ter de rumar até Lisboa, de onde observa a preservação do mirandês e o gosto crescente dos mais jovens pela língua. Vera Schmidberger Fernandes é originária de uma comunidade alemã na Baviera, (Munique) que tem o seu próprio dialeto. Ambos procuram cativar os “estudantes mirandeses” a aprender mais sobre aquela que é a segunda língua oficial de Portugal. E uma dessas iniciativas é esta bolsa para premiar dois jovens, que tenham média superior a 16 valores na disciplina de Mirandês. Noemi terminou com 18,9 valores de média e João teve média acima dos 17 valores. O nome dos alunos a premiar é apresentado pela direção do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro, tendo em conta as notas mais altas no final dos três anos curriculares do secundário (10º, 11º e 12º).

Apesar de ter deixado o Nordeste transmontano ainda muito jovem, Aníbal nunca perdeu ligação às suas raízes. A desertificação do território e o avanço dos media fizeram-no pensar que “a língua mirandesa estava em perigo” e achou extraordinário – “fiquei sensibilizado”, diz – ver como os jovens se estavam a inscrever numa cadeira de opção que não oferece qualquer contrapartida curricular. De facto, nos últimos anos, cerca de 80 por cento dos alunos do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro optou por se inscrever na disciplina.

“Eles inscrevem-se por amor, ou, como se diz em mirandês, por ‘proa’”, diz Aníbal.  Essa atitude fê-lo ir às “poupanças” para premiar os dois melhores alunos de mirandês. Os dois premiados deste ano “falam muito bem e têm bastante orgulho no mirandês”, acrescenta Aníbal.

Em vez de dar um prémio monetário, “o objetivo desta bolsa – explica Aníbal Fernandes – é proporcionar aos jovens a oportunidade de conhecer o mundo, porque se calhar muitos deles nunca andaram de avião ou de TGV”. Mas a viagem não é apenas passeio, sem mais. É uma proposta bastante cultural, na medida em que o destino escolhido é um território em que também se fala uma língua minoritária. Mas na escolha de Leeuwarden, região dos Países Baixos, onde se fala frísio, há outros fatores.

“Mostraram-se bastante abertos a acolher os nossos estudantes e têm uma língua minoritária muito bem apoiada”, refere Aníbal, depois de ter tentado negociar igual colaboração com Galiza e na zona dos Pirenéus.  Na Frísia vive-se um “orgulho enorme” pela língua, o que permite sustentar uma academia da língua e publicar manuais, livros e conteúdos para professores. Os estudantes portugueses irão ser recebidos na Fryske Akademy e poderão dar-se conta de como é diferente o tratamento ali dado a uma língua local em comparação com o que se passa com o apoio ao Mirandês em Portugal.

“Com esta viagem, eles poderão perceber as diferenças entre um país que apoia realmente a língua minoritária, algo que, em Portugal, ainda não acontece por parte das entidades nacionais e municipais”, afirma Aníbal que defende o mirandês não para ser só “aclamado”, como se fosse um “adereço”, mas para se dar a conhecer como sendo um “tesouro”.

Para isso, diz ser importante que o Governo “promulgue e publique o Decreto-Lei da Carta Europeia para as Línguas Regionais ou Minoritárias” e que a nível local “se publiquem os editais e tudo o que envolva Miranda, em mirandês”.

Em relação ao prémio anual para os alunos de Mirandês, “só o tempo dirá” quantos anos durará, contudo: “Enquanto eu viver, estará garantido, mas espero que os meus descendentes possam pegar nesta ideia e continuar a aplicá-la e a melhorá-la” – termina Aníbal.

Escreva à redação

Subscribe To Our Newsletter

Subscribe to our email newsletter today to receive updates on the latest news, tutorials and special offers!