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Viver numa aldeia ‘isolada’

Recursos, energia e coragem para gozar o silêncio e o território

Por: Rui Loureiro*

Vivemos em Portugal, um país pequeno, numa zona do continente europeu muito transformada pela atividade humana. Por cá, não existem lugares longínquos a centenas de quilómetros de outros lugares. Mas morar numa aldeia da Terra Fria – Montesinho –, a 1000 metros de altitude, no final duma estrada, a cinco quilómetros de outro povoamento, não é comparável a viver na Amazónia, mas é diferente de morar em Lisboa.  Vir viver para aqui implica coragem, recursos e energia.

Trás-os-Montes apresenta algumas características próprias que lhe conferem um certo isolamento. É um território de baixa densidade demográfica e a distância aos grandes centros mais povoados da Península é da ordem das várias centenas de quilómetros. E as únicas vias de comunicação são as estradas… o comboio continua a ser um sonho longínquo!

Em Montesinho não há movimento. Nesta aldeia não “passam” carros, eles vêm cá, e são poucos. A população residente ronda as 30 pessoas: não há “movida”. Não há comércio: café só na Casa do Povo à hora do almoço e no Café Montesinho ao fim de semana. Não se ouvem motores, exceto alguma roçadeira, um ou outro trator, ou os sopradores de castanhas, em outubro. Esta ausência de movimento e o respetivo silêncio podem, eventualmente, incomodar algumas pessoas. Outras sentem-nos como uma leveza súbita, uma ‘despressurização’. Não há pressão!

Mas viver aqui não implica estar alheado do mundo. Nesta aldeia há fibra ótica, internet de boa qualidade. A situação é excecional e decorre do facto da fibra passar por aqui até uma mini-hídrica próxima. Existe um projeto para fornecer 5G às zonas rurais, mas para já, aldeias como esta são exceções. Viver aqui implica, pelo contrário, ter capacidade para absorver mais informação, sem ruído, e estar mais e mais bem informado, mais ligado ao mundo.

Essa ligação também se faz pelos encontros interpessoais quando se passa por um vizinho e se dá dois dedos de conversa. Os trasmontanos são “sossegados”, ocupados nos seus afazeres, algo reservados, mas gostam do contacto com o próximo. A vida por aqui era muito dura (“nove meses de inverno e três de inferno”) e o tecido social tinha de ser eficaz e eficiente. A necessidade de sobrevivência impunha o comunitarismo. Hoje já não há neve, e apesar de ainda haver frio, as condições são muito mais amenas. A maior parte das práticas comunitárias são lembranças que se vão esbatendo à medida que os mais velhos partem. Mas ainda existe a cordialidade e a dedicação.

Imagens e miragens

Os ‘urbanitas’, como eu, construíram uma imagem destas aldeias por vezes cómica: uma realidade num contexto selvagem e duro, onde tudo é de todos, em que as portas estão sempre abertas e a entreajuda impera. Ao ponto de alguns turistas que por aqui passam perguntarem como é possível viver-se aqui e quererem entrar-nos pela casa dentro como quem visita uma espécie de “instalação” museológica, uma prática ancestral, que é preciso fotografar e registar para depois mostrar aos outros “urbanitas”.

Nesta aldeia vive gente! Com todas as suas virtudes e defeitos, uns mais gordos outros mais magros, uns mais fáceis outros mais difíceis, mas todos tão humanos como os que vivem na cidade. Aqui também há conflitos como os das reuniões de condomínio nas cidades. Umas casas são melhores outras piores, mas todas têm água quente, casa de banho, portas, janelas…

Viver numa aldeia “isolada” em Trás-os-Montes é, em muitos aspetos, igual a viver numa cidade do litoral: a globalização vai alastrando para o interior.

No entanto, aqui há lobos, veados e javalis, mas eles não vêm ter connosco à aldeia e poucos são os que se gabam de ver um lobo. Se queremos ver a parte “selvagem” do território, temos de sair da aldeia a certas horas e saber esperar.

As paisagens bucólicas de beleza intacta, fazem parte dum imaginário construído. De facto, podem ser bucólicas, mas Portugal é um país muito transformado pelo humano o que não retira beleza às suas paisagens. O ar é mais puro, mas, o que de facto é muito diferente e marcante é o sossego, a ausência de ruído, a tal descompressão.

A realidade são serras e vales transformados ao longo de séculos pela atividade de quem cá foi vivendo: lameiros, moinhos de água, pombais, aldeias de pedra, hortas balizadas por lousas, caminhos rurais, ruas empedradas. Mas também casas reconstruídas em tijolo, cabos elétricos e de telefone, ruas asfaltadas, alguns automóveis, barragens e eólicas (espanholas). A transformação continua, o tempo avança, o impacte acelera. As searas vão sendo substituídas pelos sotos de castanheiros, os campos mais acessíveis vão sendo vedados, os menos próximos vão sendo abandonados. O burro tornou-se um animal raro e de companhia – o trator faz a sua vez. Todo o mundo rural está em mudança, como tudo o resto. Se por um lado a atividade humana se vai munindo de novos materiais e tecnologias, por outro, parte do território vai sendo devolvido à natureza pelo abandono: somos poucos para trabalhar tanto espaço. Cresce o piorno e a giesta e os carvalhos vão despontando nesses densos matos transmontanos. Ao longe, a urze dá o tom rosa da primavera à serra, mas também ela vai cedendo à mudança e deixando esta paisagem, depois o amarelo da giesta e o branco da esteva vão completando a palete da aguarela.

E no meio da serra um caminho corta-fogo, uma conduta de água, uma torre de alta tensão lembram que estamos num país desenvolvido, na Europa.

Impasses, distâncias e proximidades

As pessoas vão envelhecendo e partindo, os poucos jovens também vão. Fala-se do regresso ao campo, por vontade ou por incentivo. Na verdade, o país está todo envelhecido. Mudar de vida implica coragem, recursos e energia. Coragem para aprender uma forma de vida diferente da urbana, que exige outro planeamento, com outros estímulos, outra cadência temporal. Recursos porque adquirir uma propriedade em Portugal não é barato e o mercado de aluguer é parco. Energia porque reconstruir uma vida, com poucos recursos implica muito trabalho e resiliência. Existem programas de apoio para quem se queira fixar no interior que podem ser interessantes, mas o acesso à propriedade é um obstáculo de monta.

A grande expetativa é até que ponto o teletrabalho vai trazer pessoas para as aldeias. Será, sem dúvida, necessário estimular o mercado imobiliário rural. Talvez o ponto de partida seja lançar a discussão: é preciso vender as ruínas que herdámos dos nossos pais e que não nos servem para nada e não podemos esperar receber por elas valores desajustados da procura.

A maior parte das casas transacionadas nestes locais é para turismo ou para habitação de fim de semana. Mas tanto um como outro requerem a oferta de serviços disponíveis que vão escasseando. E continua a ser difícil contratar serviços de limpeza e manutenção fora dos grandes centros urbanos.

Qual será o futuro destas aldeias mais afastadas? Pessoalmente acredito que algumas conseguirão voltar a criar comunidades, pequenas é certo, mas relativamente autónomas. Até porque as distâncias aos pequenos centros urbanos com serviços públicos de qualidade não são enormes. E é um facto que, se por um lado, uma aldeia ‘remota’ está, por definição mais afastada, por outro, a vida nas pequenas cidades, próximas dessas aldeias, apresenta características de proximidade de elevada qualidade.

Viver numa pequena aldeia longe de tudo o mais requer um perfil pessoal com certos requisitos. Mas a ideia que se tem do isolamento não corresponde à realidade: se é verdade que se está mais longe das coisas, também é verdade que elas acabam por estar mais acessíveis e disponíveis.

*Engenheiro reformado, consultor em desenvolvimento sustentável

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