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Vila Pouca de Aguiar

Resina natural: o “novo ouro” que gera emprego e previne incêndios

Em Tresminas, terra de intensa atividade mineira aurífera entre os séculos I e II d.C., a resina natural de pinheiro-bravo é o novo ouro, que, sob a forma de colofónia e a aguarrás, gera emprego, dá rendimento aos baldios e ainda previne os incêndios rurais.

Em Tresminas há cerca de 40 mil bicas instaladas para extração de resina. Foto © Filipe Ribeiro

Pouco antes do cruzamento para a pitoresca aldeia de Tresminas, sede da freguesia com o mesmo nome, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, a placa “Complexo Mineiro Romano” prende a atenção por se destacar das demais. “Aqui foi explorado o ouro pelos romanos durante mais de 200 anos”, refere André Ferreira, engenheiro agrónomo de apenas 22 anos, natural da terra, que coordena os trabalhos de exploração de resina natural em áreas comunitárias de pinhal de quatro aldeias.

Hoje, o ouro que se extrai é outro. A Junta de Freguesia de Tresminas, que gere dois baldios, e os compartes de outras duas aldeias, cederam vários hectares de pinhal-bravo a um consórcio formado por uma empresa do setor e por outros parceiros para a extração de resina e atividades complementares, como a gestão de combustíveis. O consórcio é localmente apoiado pela associação florestal Aguiarfloresta. O negócio, que dá 20 por cento da receita às comunidades locais, gera emprego e ainda mantém limpa uma mancha florestal que durante anos esteve à mercê da voracidade dos incêndios.

A prevenção começa na preparação dos terrenos para a exploração da resina. “Na área onde nos encontramos, tivemos de diminuir a densidade de pinheiros para melhorar a produtividade de cada um”, explica André, junto a um pinheiro-bravo em que foi aberta, há poucos dias, a primeira “bica” – uma incisão ou ferida rasgada no tronco. “Começamos por baixo e vamos subindo. Podemos fazer até sete renovas por ano”, acrescenta, referindo que “se for feita uma boa prática, dá para explorar a mesma face durante três anos”. Se o diâmetro do tronco permitir, corta-se outro lado do pinheiro e o processo repete-se com a mesma sequência, de baixo para cima. “Há pinheiros que dão resina durante seis, nove, ou até 12 anos. Tudo depende do diâmetro”, esclarece.

O método de extração, ao contrário do que se pensa, “não prejudica a árvore”. “Pode demorar alguns anos, mas a árvore regenera-se. A resinagem não leva à morte do pinheiro, nem afeta o valor da madeira. Neste pinhal vamos conseguir retirar a resina durante anos e, no final, ainda temos cá o produto”, explica o técnico.

Em Tresminas trabalham a tempo inteiro oito pessoas, numa freguesia rural onde predomina a atividade agrícola e pecuária. “Três são resineiros a tempo inteiro e os outros cinco são resineiros e sapadores, porque fazem a gestão de combustíveis durante boa parte do ano”, diz André, já que “durante o inverno o pinheiro não produz, por estar em pausa vegetativa, é  como nas árvores de fruta”.

 

Fileira da resina alavancada pelo PRR

André Ferreira tem 22 anos e é engenheiro agrónomo.

O “ouro líquido” que escorre lentamente para púcaros ou sacos entre os meses de março e outubro após o processo natural de destilação dá origem a dois produtos: a colofónia e a aguarrás. Depois de transformada, a sua utilização pode ser em colas, vernizes, tintas… e até em pastilhas elásticas.

Portugal, que chegou a ter meia centena de fábricas de resina ativas, viveu “anos de ouro” da transformação deste produto. “Já fomos o segundo maior produtor mundial de resina”, recorda Duarte Marques, que preside à Associação Florestal e Ambiental de Vila Pouca de Aguiar (Aguiarfloresta), referindo-se às décadas de 70 e 80 do século passado, com produções na ordem das 100 mil toneladas/ano. “Mais tarde, por questões de competitividade, a produção caiu muito”, continua.

Hoje, por causa das alterações climáticas, “que levaram à substituição das matérias-primas por alternativas mais sustentáveis”, Portugal voltou a apostar na fileira da resina natural, uma das três, a par do calçado e do têxtil, apoiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) no âmbito da transição climática.

É neste contexto que surge o consórcio RN21, com sede na Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), liderado pelo CoLAB ForestWISE, que abrange toda a cadeia de valor e aposta na “transição para uma economia mais sustentável”. Focado na formação e inovação, o projeto reúne 37 entidades, como empresas transformadoras de resina, organizações de produtores, comunidades intermunicipais, universidades, laboratórios, entre outros.

De acordo com a Resipinus – Associação de Destiladores e Exploradores de Resina, a produção anual de resina em Portugal ronda, hoje, as sete mil toneladas, o que não chega a 10 por cento das necessidades da indústria. A matéria-prima é importada, sobretudo, de países da América do Sul.

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