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Festas dos Rapazes

Rituais do solstício de inverno ganham força no Nordeste Transmontano

Nos doze dias que separam o Natal dos Reis, o sagrado e o profano encontram-se para despertar mais de duas dezenas de tradições, que têm lugar em vilas e aldeias do distrito de Bragança, personificadas no diabo, no careto ou no mascarado, no velho e na galdrapa.

Máscaras em Arcas (Macedo de Cavaleiros): Os mascarados “constituem as figuras centrais em torno dos quais a festa se desenrola”; saem à rua para “expulsar o mal, manifestar a virilidade e dar início a um novo ciclo”. Foto © Filipe Ribeiro

Os rituais do solstício de inverno, também conhecidos por Festas dos Rapazes, são manifestações pagãs que se vivem um pouco por todo o Nordeste Transmontano e que simbolizam a emancipação dos jovens que neles participam. São também considerados rituais de “fecundidade”, ou de passagem, e marcam a entrada dos moços na idade adulta.

António Pinelo Tiza, que preside à Academia Ibérica da Máscara, autor de uma dezena de obras relacionadas com os rituais de inverno transmontanos, esclarece que as festas que incluem mascarados, acontecem, na sua maioria, depois do solstício e até ao Carnaval.

“O forte das mascaradas é nesta época do ano, entre o Natal e os Reis e estão relacionadas com solstício de inverno (22 de dezembro). As festas acontecem em quase todos os concelhos do distrito. No caso de Bragança ou de Mogadouro, há festas em seis ou mais localidades”, refere o professor aposentado.

Chocalheiro de Bemposta
A máscara do chocalheiro de Bemposta. Foto © Rúben Castanheiro

Em conversa com o 7MONTES, o investigador, natural de Varge (Bragança), que é doutorado em Ciências Sociais, refere que os mascarados, “constituem as figuras centrais em torno dos quais a festa se desenrola”. Saem à rua para “expulsar o mal, manifestar a virilidade e dar início a um novo ciclo”. São rapazes que, por instantes, se convertem em chocalheiros, caretos ou diabos, preservando a identidade de cada aldeia.

Há, apenas, duas festas que antecedem o ciclo do solstício, lembra Pinelo Tiza: “uma em Cidões, no concelho de Vinhais, que é a Festa da Cabra e do Canhoto, protagonizada pelo diabo, a 31 de outubro. Há outra em São Pedro Velho, Miranda do Douro, no dia 13 de dezembro, que é a Festa de Santa Luzia, ou a Festa do Velha e da Galdrapa (em língua mirandesa,’L Bielho i la Galdrapa’)”. Esta festa esteve adormecida desde a década de 60 do século XX, devido ao despovoamento, e foi retomada já neste século.

Mais há mais tradições que foram retomadas recentemente. É o caso do Santo Estevão de Arcas, Macedo de Cavaleiros (25 e 26 de dezembro), o Careto e a Velha de Valverde, em Mogadouro (com saídas a 24 e 25 de dezembro; 1 e 6 de janeiro), e o Carnaval de Cardanha, em Torre de Moncorvo. Outras, mais antigas, mantêm-se como verdadeiras manifestações identitárias, como o caso do Chocalheiro de Bemposta.

Podence é o mascarado mais conhecido, mas não é o único

António Tiza
António Pinelo Tiza, presidente da Academia Ibérica da Máscara: “O maior problema é a falta de gente, o despovoamento. É preciso gente para vestir as personagens, recriar as atividades, fazer a crítica social e envolver a população. Havendo gente, há motivação. Não havendo…” Foto © Filipe Ribeiro

O investigador adverte, no entanto, que os rituais associados às Festas dos Rapazes “se perderam quase todos”. “A única coisa que se mantém são os trajes e as máscaras, que foram preservados ou recuperados, mas, hoje em dia, tudo o que é ritual pertence apenas ao Entrudo”, refere Pinelo Tiza.

O mascarado mais famoso é o de Podence (Macedo de Cavaleiros), classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial, que sai à rua no Carnaval. “É o que está mais badalado, mediatizado e até ‘turistificado’. Hoje é praticamente impossível assistir convenientemente ao Carnaval em Podence, pela quantidade de gente que atrai”, conta.

Embora estejam a ser recuperadas, a verdade é que as tradições não podem persistir se não houver pessoas. “O maior problema é a falta de gente, o despovoamento. É preciso gente para vestir as personagens, recriar as atividades, fazer a crítica social e envolver a população. Havendo gente, há motivação. Não havendo…”, conclui.

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