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Filipe Ribeiro

Será a IA uma ameaça para o jornalismo?

Chat CPT foi desenvolvido pela Open IA, da Microsoft. Foto © DR

A Inteligência Artificial (IA) é uma ameaça para o jornalismo? A pergunta é válida e tem-se colocado, cada vez mais, nos últimos meses. Comecemos pelo princípio. A IA, uma tecnologia que já existia, mas que chegou ao utilizador comum da Internet no final de 2022, materializa-se nos nossos dispositivos através, por exemplo, do Chat GPT, da Microsoft. Que utiliza a informação disponível na Internet sem outras fontes. Será isso um problema?

Desde o seu lançamento, este modelo de linguagem, desenvolvido pela Open AI, tem vindo a evoluir à velocidade das tecnologias de informação e comunicação, tornando-se fácil a sua utilização diária para tarefas básicas como resumir textos, responder a dúvidas, ou então descobrir uma receita culinária ou criar uma história para ler a uma criança.

Há, no entanto, um lado perverso nos modelos de linguagem que atinge, em particular, as redações. O ChatGPT baseia-se na informação disponível na Internet para criar respostas, apresentar soluções e esclarecer o utilizador. Fá-lo utilizando, sobretudo, fontes de informação que considera credíveis, criadas pelo ser humano e que apenas estão disponíveis online.

O problema começa aqui. Grande parte do conhecimento que está disponível offline, em diferentes arquivos, bibliotecas, e mesmo em redações de jornais com décadas de história, não serve de alimento para esta grande máquina agregadora e assimiladora de conteúdo. Sabe-se que a Internet, em Portugal, tem pouco mais de 30 anos e o primeiro jornal a lançar edição digital foi o Jornal de Notícias, em 1995, seguido do Público, em 1998, cujos primeiros artigos noticiosos já não estão acessíveis.

Considerando, portanto, que esta tecnologia usará, apenas, informação recente disponível em sites de notícias, de que forma podem os jornalistas, ou o público em geral, confiar nos resultados que ela gera? A não ser que a sua utilização seja meramente lúdica…

O segundo problema está na apropriação de conteúdo de terceiros para fornecer um serviço que pode gerar milhões de dólares (o Chat GPT 4.0 tem um custo de 20 dólares semanais) e que, inclusive, deu origem a um processo em tribunal no Estados Unidos, em que o New York Times acusa a Microsoft de violação de direitos de autor, ao desenvolver as suas ferramentas de IA através da indevida “cópia e utilização de milhões de artigos noticiosos com direitos de autor”.

Acresce que os artigos utilizados não estavam acessíveis de forma gratuita ao público em geral. Trata-se de informação que só podia ser consultada por assinantes deste diário, facto que coloca em causa o modelo de negócio de milhares de revistas e jornais, caso os conteúdos por eles criados forem vertidos, indiscriminadamente e sem autorização, para estas ferramentas.

Pode, por isso, a IA substituir o trabalho de um jornalista na redação e, ela própria, criar notícias, com tudo o que implica uma verdadeira notícia: rigor, fiabilidade, contraditório? Em última análise penso que não, porque quando as redações (humanas!) deixarem de produzir conteúdo noticiosos, com base em informação verificada e fidedigna, as ferramentas de IA, que usam apenas referências online deste século, continuarão a propor cada vez em maior percentagem textos, sons e imagens não validados nem certificados por critérios jornalísticos. A sua utilidade pode permanecer, isso sim, enquanto pesquisa mais aprimorada, na organização de temas, no resumir de uma história, ou simplificar assuntos complexos. Mas exigindo sempre a posterior verificação humana.

Finalmente, a IA não tem, nem nunca terá, a capacidade de ir à rua, de recolher testemunhos, de fazer fotografias (mas pode gerar imagem digital e artificial) e de distinguir o bem do mal, o certo do errado, até porque algumas fundamentações e critérios de distinção entre um e outro dependem do país, da cultura ou da religião.

7MONTES é financiado pelo programa Local Media for Democracy do Journalismfund Europe www.journalismfund.eu

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