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Diamantino Gouveia, tanoeiro

Sete décadas a vergar a madeira

Diamantino Gouveia tem 86 anos e há mais de sete décadas – que é como dizer toda a sua vida – trabalhou em tanoaria, carpintaria e marcenaria. Trabalhar a madeira é a sua arte e não há quintas no Douro que não o conheçam.

Diamantino Gouveia na sua oficina. Foto © Filipe Ribeiro
Diamantino Gouveia na sua oficina em Oliveira, Mesão Frio. Foto © Filipe Ribeiro

São 11 da manhã. Depois de serpentearmos, caminho fora, desde a Régua até à estrada que nos leva a Oliveira, aldeia do concelho de Mesão Frio, chegamos à oficina de Diamantino Gouveia. Antes de entrar, a espantosa modelação da paisagem em socalcos, típica do Douro, desvia-nos, mais uma vez, a atenção. Impõe-se, porém, o som do bater do martelo ao ritmo dos ponteiros do relógio. Vamos lá. Já dentro, Diamantino Gouveia recebe-nos com simpatia, advertindo, no entanto, estar muito ocupado. E não é para menos. No interior da oficina, em mesas improvisadas ou cavaletes, vêm-se pequenos pipos, de várias dimensões, que surgem quase como cogumelos, alguns por concluir e outros já finalizados. São pequenas peças de artesanato que agora servem para “entreter” o artífice.

“Eu agora, praticamente, só faço artesanato. Chego às 10h e vou embora às 17h. Às vezes só trabalho de tarde. Só faço o inédito, pequenas coisas, originais, que ninguém sabe fazer… é mais para me entreter. Tendo a cabeça ocupada, estou bem, estou feliz”, conta Diamantino. Os pipos mais pequenos têm capacidade de 25 litros, talvez menos, mas também faz garrafeiras a partir de sobras de pipas antigas. É um artesanato à medida do espólio de que dispõe.

Diamantino Gouveia trabalha há 73 anos e não dá sinais de querer parar. A verdade é que, quando desaparecer, leva com ele todo o ofício que está em extinção no Douro: a tanoaria. Este modo de produção artesanal de barris, pipos, pipas ou tonéis, para conservar ou transportar o vinho, está a desaparecer na região e não há quem forme novos aprendizes.

 

“De Barqueiros a Barca d’Alva, não há quinta que não me conheça”

Alguns projetos a que se dedica o artesão
Alguns projetos a que se dedica o artesão. Foto © Filipe Ribeiro

“Mas como tudo começou?”. “Comecei a trabalhar com 13 anos e ganhava, apenas e só, cinco escudos. Vim para o pé do meu pai, que era um artista de mão cheia, uma coisa incomparável. A verdade é que, até ir para a tropa, não via isto como uma vocação. Mas depois comecei a dedicar-me profundamente e a apaixonar-me por isto”, explica.

A inspiração e o talento vêm do pai, reitera: “sou suspeito em dizê-lo, mas o meu pai foi o melhor artista de todos os tempos desta terra. Ele [Manuel Pereira Gouveia] praticamente não trabalhou com máquinas. Era tudo manual. Fazia trabalhos de alto relevo. Tudo à mão. Até talha para as igrejas sabia fazer”.

Ferramentas que agora servem, apenas, para projetos mais pequenos. 

Mais tarde, passou a trabalhar por conta própria e não há quinta no Douro, de Barqueiros (Mesão Frio) a Barca d’Alva (Figueira de Castelo Rodrigo), já na fronteira com Espanha, que não conheça a sua arte e engenho. “Trabalhei em todas as quintas do Douro. E nas firmas mais cotadas do país. Em algumas delas trabalhei mais de 60 anos”, recorda, acrescentando que se deslocava de comboio, na ferrovia que caminha de braços dados com o rio, e que, muitas vezes, chegava a dormir nas quintas. “No início era muito difícil, o trabalho era imenso e pouco descansávamos. Cheguei a fazer serões à luz de candeeiro de petróleo e, mais tarde, de gasómetro”.

A Sandman, uma das maiorias empresas do Douro, responsável por várias quintas, “chegou a ter 40 tanoeiros ao serviço”, mas que “só faziam a pipa”, que armazenava 550 litros. Diamantino era chamado para construir as “vasilhas gigantes”, com capacidade para mais de três pipas. “Nós acabávamos por ser carpinteiros/marceneiros, porque os tanoeiros, a partir de três pipas, já não sabiam fazê-las. Nós fazíamos os tonéis, aqueles maiores”, atira Diamantino, orgulhoso, dizendo que o maior que fez tinha capacidade para 150 mil litros. Contas feitas, mais de 250 pipas.

E quanto maior a dimensão, maior a complexidade, mesmo para calcular a litragem. “Fazer uma vasilha grande tem os seus ‘quês’. É preciso saber de matemática e conseguir cubicar. Precisamos de medir três diâmetros, em cima, no meio e em baixo, somar e fazer a média, achar depois o raio, elevá-lo ao quadrado, vezes Pi, vezes o comprimento… temos que ser rigorosos”, defende.

A formação profissional passa ao lado de velhos ofícios como este e Diamantino lamenta que não sejam criados cursos para ensinar a sua arte, até porque há 30 anos participou, enquanto formador, no primeiro curso de Tanoaria em Portugal realizado na Madeira. Daí para cá, a formação foi escasseando. E uma das razões é a mecanização do sistema de fabrico de pipas em madeira ou a aposta, por parte de grandes produtores de vinho, em recipientes de inox, de fácil lavagem e reutilização.

Num espaço de cerca de 350 metros quadrados, onde Diamantino chegou a ter mais de uma dezena de trabalhadores, naquele que considerou “o único centro de produção e restauro de tonéis genuínos do Douro, produzidos à escala com cubicagem exatas”, já não moram grandes projetos. Mas a arte prossegue, à sua maneira e ao ritmo do toque do martelo.

Diamantino Gouveia a finalizar um dos seus trabalhos.
Diamantino Gouveia a finalizar um dos seus trabalhos. Foto © Filipe Ribeiro

OLIVEIRA, MESÃO FRIO

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