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Mesão Frio

Só em Barqueiros há vida para as castanhetas

Exclusivo de Barqueiros, freguesia de Mesão Frio, as castanhetas não se encontram em mais nenhuma parte do mundo. E é neste mundo singular, de barcos Rabelo que ligam o rio à força e ao sacrifício dos homens do Douro, que encontramos Bruno Guedes, um dos poucos artesãos que mantém viva a arte de criar este raro instrumento musical.

Bruno Guedes é um dos poucos artesãos que ainda produz castanhetas. Foto © Filipe Ribeiro

Foi no Centro Interpretativo do Barco Rabelo, em Mesão Frio, que marcamos encontro com Bruno Guedes, 44 anos, artesão da freguesia de Barqueiros, topónimo inspirado nos tripulantes e remeiros das embarcações que transportavam o vinho da Região Demarcada para o Porto. O museu, que resultou da conversão da antiga escola primária da Rede, sobranceiro ao rio, é uma homenagem à memória das gentes ribeirinhas do Douro e dedica um espaço ao artesanato e aos produtos endógenos da região.

Em Barqueiros, terra de gente navegante, nasceu um instrumento peculiar associado à navegação dos barcos Rabelo: as castanhetas. Composto por duas peças similares em madeira, que se unem, e dois orifícios para a colocação do polegar e do indicador, “este instrumento era originalmente usado pelos barqueiros quando, em dias de nevoeiro, precisavam de anunciar a sua chegada”, conta Bruno Guedes ao 7MONTES, lembrando que também “servia para alegrar as paragens”, enquanto os mareantes aguardavam pela viagem de três dias até Vila Nova de Gaia.

Construção pode demorar uma semana

O contacto de Bruno com a arte aconteceu aos 21 anos, através de um tio, mas a construção de castanhetas começou na família há, pelo menos, três gerações. “Já vem do tempo do meu bisavô, mas eu só conheci dois tios meus que as faziam”.

A paixão “é inequívoca”, garante, mas a arte só acontece “nas horas mortas”, entre o trabalho por conta própria na construção civil e a vida familiar, de roda da mulher e de dois filhos. Daí que um só instrumento chegue a demorar uma semana até ganhar forma. No entanto, se apenas se dedicasse às castanhetas, eram oito horas seguidas, desde o molde inicial até à fase final de envernizamento e pintura. Isto, “sem olhar muito para o lado”.

O instrumento, cujas partes estão ligadas no fundo por uma dobradiça, deve ser feito com madeira de figueira, embora também seja construído com outras madeiras, que garantem às castanhetas um som distintivo. A sonoridade pode ser confundida com a das castanholas, mas a forma “é completamente diferente”.

Bruno faz, além de castanhetas, suportes e livros ou porta-chaves. Foto © Filipe Ribeiro

Só os homens tocam castanhetas

Hoje, as castanhetas que produz (já lá vão mais de cem) destinam-se ao Rancho Folclórico de Barqueiros, servindo para a companhar a “Chula Rabela”, música tradicional do Douro, e os desfiles, mas apenas tocadas pelos homens.

A particularidade das castanhetas está nas duas peças antropomórficas, em forma de homens do Douro, em que Bruno Guedes introduziu uma inovação: “Fiz uma com mulher e homem, que é mais difícil por não serem peças iguais, mas que representam os pares dos ranchos folclóricos”. A tradição do folclore está bem demonstrada nestas peças: os homens envergam o tradicional chapéu e o colete, e as mulheres a típica blusa, o lenço e as cestas na cabeça.

Mas a inovação não ficou por aqui. Já fez suportes de livros, com bases de esteios da vinha, em xisto, porta-chaves, ímanes e separadores de livros. “A utilização deste instrumento acaba por ser tão reduzida que resolvi criar objetos diferentes inspirados nas castanhetas. As ideias vão surgindo à medida que vou criando”, acrescenta.

Ferramentas usadas nas castanhetas

O sonho de Bruno é ter uma oficina para a criação dos instrumentos, que vai fazendo em casa, nas horas vagas, ou no trabalho, no intervalo do almoço. O espaço poderia servir, inclusive, para dar formação, imprescindível para que esta arte perdure.

Para preservar o conhecimento e a criação deste raro instrumento musical, a autarquia pretende classificar as castanhetas, marca do património imaterial da freguesia de Barqueiros e do concelho de Mesão Frio, porta de entrada do Douro.

Enquanto tal não acontece, Bruno Guedes leva sempre consigo duas navalhas, uma chave de fendas, mais afiada, e um pequeno esquadro, para retocar algumas peças inacabadas ou terminar alguns apontamentos noutras, com a mesma perícia e mestreia com que os arrais manobravam os barcos ao sabor da corrente de “um rio sinistro de cor e trágico de loucura”, pegando nas palavras do escritor Alves Redol.

Centro Interpretativo do Barco Rabelo tem um espaço dedicado ao artesanato local. Foto © Filipe Ribeiro

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