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Pedro Castro Almeida

Sonho, um programa adaptável

Há talvez três tipos de pessoas em relação a um qualquer debate sobre dado tema: quem é a favor, e faz por isso, quem é contra, e faz por isso, e quem não se interessa. O poder do sistema actual, a relação das potências em jogo, é o tema de ontem e de hoje. Quem é a favor do sistema actual que surgiu da relação da sociedade com o sistema anterior, recolhe as mesmas vantagens de quem não se interessa. Entre um e outro daqueles tipos de pessoas, e lutando contra os outros dois que beneficiam o sistema que sabemos, estão as pessoas que não concordam com a herança que foi outorgada a todos, e que podem assim evidenciar as falhas do sistema e de vontade férrea, edificar outra versão.

Veja-se o caso da ecologia: o planeta tem sido explorado cada vez mais e mais tirando partido da eficiência de tecnologias de mineração de materiais e os Estados como Portugal co-adoptam leis que beneficiam as empresas investidoras na mineração. Por delegação da defesa do interesse público ao capital privado, a estratégia de exploração de recursos deixa de ser do povo para o povo, tal como dizemos que deve ser a educação ou a saúde. Neste caso, quem se opõe a isto, está do lado oposto e quer convencer os dois outros tipos de pessoas, que estão em compadrio de acção favorável-passividade.

Como fazer a decisão acontecer no ordenamento da sociedade quando o Governo demite por lei de servir o território que é suposto gerir? Como nos podemos opor e argumentar a não ser tomando o poder? A mineração poderia ser património público ou até um consórcio público-privado de carácter europeu, planeado com democracia participativa. Mas como falta democracia participativa, a nossa herança aprofunda o avanço da democracia não-participativa. Não chegam as acções de participação pública para quem está contra. Questionam os outros dois tipos de pessoas sobre a sua abertura à participação, embora os que não se interessam, favoreçam os que lucram com a mineração – públicos (votos) e privados.

Quer seja por votos ou por lucros privados, os que gerem a distribuição da herança que fica para a geração vindoura estudam dados, aplicam dinheiro nisso e usam as grandes descobertas sociais no reino do entretenimento de todos. Afinal, todos nós anuímos em participar no fluxo de informação cruzada dos nossos valores e interesses ao usar os websites e as suas cookies e colocamos gostos e outrossim raiva, gratidão e tristeza. Consequentemente, o emoji que eu tenho menos observado no Facebook é a gratidão. Parece que ludicamente, o herdeiro-sistema não nos faz crescer na boca algo deste sentido. Parece, portanto, que a democracia participativa, grande conquista social, é mais incentivada por empresas privadas do que pelos Estados, mas também não convence a sociedade nem trabalha para servir esta de formas transformativas, embora a sociedade esteja cada vez mais em peso nas redes sociais.

Como podem convergir o público e o privado quando em democracia o público foi criado para servir o bem social, e o privado, em qualquer modelo de Estado, serve o seu próprio bem como primeiro objectivo? No seguimento histórico da resposta, chegámos hoje em dia a uma crítica etapa de eleições em Portugal! Não precisamos de eleger quem privilegie o poder privado quando este poder vive indiferente ao nosso capital de saúde, educação e outros bens-comuns. Defendermos os bens-comuns da sociedade, é defendermos a democracia. Quem vota para pagar menos, dá mais poder a quem está longe do povo e quem vota para pagar impostos, vota para ter o direito de exercer reclamação, greve, negociação, impugnação e justiça se os mesmos impostos forem mal geridos pelos governantes eleitos. Parece que este impasse teórico entre o objecto social do Estado e das empresas, divergentes por natureza, coloca um espartilho a todo o eleitor. A forma do eleitor se diferenciar depende do tipo de pessoa que ele quer ser, de acordo com o que enunciei no princípio deste artigo.

Não esqueçamos aqueles divergentes das redes sociais pois são ainda muitos. Pobreza e velhice teimam em permanecer no eleitorado e escapam à malha do digital. Para estes, todo o texto deve ser esmiuçado porque segundo o lema do Pacto Verde da União Europeia, “não queremos deixar ninguém para trás”.

Pedro Castro Almeida é engenheiro, networker, perito em financiamento e agrónomo.

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