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Pastor é natural do Porto

Tiago Melim, o guardador de rebanhos que nasceu na cidade

Em Carvas (Murça), a 650 metros de altitude, um rebanho de cabras surge como uma mancha na paisagem. É guardado por Tiago Melim, produtor de 45 anos que, há dez, deixou a cidade do Porto e uma profissão ligada à gestão, para se dedicar à criação de gado. Hoje, com 350 animais, é pai de sete filhos e guardador de rebanhos a tempo inteiro.

Tiago Melim nasceu no Porto e dedica-se à pastorícia desde 2014. Foto © Filipe Ribeiro

As raízes de Tiago Melim não o ligam a Trás-os-Montes e só em 1998, através da esposa, então namorada, é que teve o primeiro contacto com a região, que o cativou “de forma algo misteriosa”. “Vivi no Porto, a minha família é natural de Valença do Minho, mas este é um mundo completamente diferente”, conta.

Nasceu no Porto e formou-se em gestão, área em que trabalhou durante alguns anos. A mulher, médica (oncologia) de profissão, trabalhava em Vila Nova de Gaia. “Ela, embora também tivesse nascido no Porto, tinha família em Trás-os-Montes. Os avós eram de Carvas e Serapicos, aldeias dos concelhos de Murça e de Valpaços. Era por essa razão familiar que visitávamos, ocasionalmente, a região”, continua.

Carvas, onde a família de Tiago Melim tem algumas propriedades, é uma aldeia da freguesia de Valongo, no concelho de Murça. Um dado curioso é que em 1924 passou a chamar-se Valongo de Milhais, em homenagem a Aníbal Augusto Milhais, herói português da Primeira Grande Guerra e natural destas terras.

Tiago Melim é formado em gestão e nasceu no Porto.

Depois desse primeiro contacto, a partir do qual se criou “uma ligação muito forte” ao território, a família começou a debater a possibilidade de se mudar para Trás-os-Montes. “Eu gostava imenso do mundo rural, da agricultura, dos produtos de origem, apaixonava-me o saber fazer e a cristalização das artes e ofícios”, acrescenta.

Tiago reconhece que, para eles, que já se estabeleceram em Trás-os-Montes há quase dez anos, “a mudança parece fácil”, mas “para uma pessoa que é 100% urbana, sem nenhuma noção da vida no campo, mudar radicalmente de vida não é assim tão simples”. Era esse o sentimento antes da partida. Tudo parecia difícil.

Em 2010, cativado pelo mundo rural, decidiu arrancar com um projeto apícola na zona de Carvas. A família ainda estava na Maia, onde residiam. Mais tarde, em janeiro de 2014, depois de estudar a produção pecuária em modo extensiva e as raças autóctones da região, com a ajuda da Associação Nacional de Caprinicultores da Raça Serrana (ANCRAS), instalou-se como produtor pecuário, inicialmente com 80 animais. “Não sabia nada de queijos nem de cabras, mas comecei a estudar e a informar-me… a associação deu-me imenso apoio e também fui falando com alguns produtores. Cometi imensos erros, que agora me parecem básicos. Apesar de tudo tive imenso apoio. Faz parte do processo” – recorda Tiago Melim, que em junho desse ano adquiriu mais 100 animais.

Rebanho conta com um efetivo de 350 cabras de raça serrana. Foto © Filipe Ribeiro

 

Incêndio em Carvas dizimou pastagens e afetou exploração

Em 2015 deu-se a mudança da família, que na altura já era numerosa. “Nós sempre quisemos ter muitos filhos. Em 2010, quando vim para aqui, tínhamos quatro. Hoje, temos sete, o mais novo tem dois anos e a mais velha 19”, partilha Tiago Melim, que confessa ter considerado, na mudança para a Trás-os-Montes, entre outros fatores, a autonomia das crianças e o custo de vida no interior.

Em 2022 surgiu a primeira grande contrariedade. Um incêndio de elevada severidade atingiu a região e lavrou durante vários dias, atravessando três concelhos e dizimando praticamente toda a área de pastoreio gerida pela exploração. Além das alterações à paisagem, o incêndio trouxe elevados prejuízos ao produtor. “Aconteceu numa altura em que o efetivo estava a aumentar… Logo depois do incêndio, os animais começaram a emagrecer, apareceram as doenças, os cabritos morreram e as cabras abortaram todas em setembro. Foi uma miséria”, recorda Tiago Melim, que perdeu, na época, um total de 120 animais.

As ajudas foram escassas, face às “enormes perdas”, em área de pastagem e também de animais. Do Estado recebeu, diretamente, 700 euros. Os prejuízos foram na ordem dos milhares, mas a resiliência e a determinação fizeram vingar o rebanho, que passou a pastorear em galerias ripícolas, junto ao rio Tinhela, poupadas pelas chamas, e a percorrer quilómetros e quilómetros em zonas de mato à procura de alimento.

Animais estão adaptados à pouca produtividade da montanha. 

Atualmente, a produção de cabra serrana de Tiago Melim emprega três pessoas e fixa-se nos 350 animais (dos quais 300 são adultos), restabelecendo os números anteriores ao incêndio. A exploração dedica-se, essencialmente, à produção de leite e de carne. A extração do leite, que é sazonal (acontece maioritariamente na primavera, quando há mais alimento, mas também está associado aos partos), destina-se à produção de queijo. Mas a venda de cabritos, que tem mais procura na altura da Páscoa, é a prioridade da exploração. Refira-se que estas cabras têm três partos a cada dois anos.

A presença destes animais na montanha previne futuros incêndios e permite a restauração da paisagem, num concelho onde foi implementado, em 2018, o projeto piloto das “cabras sapadoras”, para controlo e gestão de combustíveis, que o produtor também integrou.

Hoje, nestes hectares de área de pastoreio extensivo, a 650 metros de altitude, outrora dizimados pelo fogo, começam a surgir os primeiros rebentos de carqueja, urze, rosmaninho e giesta, vegetação importante para a alimentação dos caprinos, principalmente quando há escassez, mas também para fazer a “cama” dos animais. Daí resulta uma importante fonte de receita da exploração: o estrume. É a economia circular dos tempos antigos.

 

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